Christopher Gregory para The New York Times
Christopher Gregory para The New York Times

iLe e as canções latinas que falam de amor, revolta e reviravoltas

Músicas da cantora porto-riquenha mesclam batidas enquanto e servem como forma de protesto contra a indiferença norte-americana

Jon Pareles, The New York Times

14 de agosto de 2019 | 06h00

iLe, a cantora e compositora porto-riquenha Ileana Mercedes Cabra Joglar - tem uma tatuagem no pulso que diz: “Canta y Olvida Tu Dolor” (Canta e esquece tua dor). É o refrão de Canta, um sucesso dos anos 70 do cantor de salsa Cheo Feliciano. Ele fez sua última gravação para o álbum de estreia de iLe, iLevitable, como seu parceiro no dueto sobre Dolor, um bolero composto pela avó de iLe, Flor Amelia de Gracia.

A tatuagem é uma homenagem musical aos laços familiares e à determinação artística, e iLe se manteve fiel a ela. Seus dois álbuns, iLevitable, de 2016, e Almadura, deste ano, têm raízes simultâneas e inovadoras, mesclam estilos e subvertem antigos pressupostos  para criar uma música latina de volta para o futuro.

“Para mim, é muito importante aprender com as minhas próprias raízes”, disse iLe, 30. “Mas quando devo criar alguma coisa, não gosto de repetir o que já está aí, algo que já aconteceu. Gosto de desafiar a mim mesma”.

Embora iLevitable tenha seguido a sua carreira até ganhar o Grammy, em 2017, de melhor álbum urbano ou alternativo de rock latino, a estreia de iLe não se encaixou nestes adjetivos.

Ela começou atuando no Calle 13, o disco musicalmente onívoro, carregado de sentido político, criado por seus irmãos mais velhos René Pérez Joglar (Residente) e Eduardo Cabra Martinez (Visitante) aos 16 anos, quando ela estava no curso secundário. Em Calle 13, ela foi uma rapper atrevida.

Nas músicas solo, iLe revelou uma voz diferente: sensual, matizada, dorida. O som de iLevitable ecoa canções do pop latino que falam de amor, de meio século atrás: bolero, cha-cha e bugalu.

“O tema principal desse álbum era a vulenrabilidade, mas em sua melhor forma - sem ter medo de admitir a própria dor e tudo o que passamos”, disse iLe”. “ Almadura é uma transição. Ela fala da força que extraímos das nossas fraquezas”.

Entre o seu primeiro e segundo álbuns, o furacão Maria devastou Porto Rico, em 2017, e destroçou a infraestrutura da ilha. Ela viu a resposta indiferente do governo dos Estados Unidos, e os porto riquenhos foram obrigados a dar tudo de si mesmos, em grande parte por conta própria. Isto fez com que a cantora escrevesse a respeito de forças maiores do que o romance: “Neste álbum, eu estou em outro momento, estou furiosa”.

Almadura começa com Contra Todo; na sua letra, iLe se torna a voz de um território invadido, conspirando pela resistência. Ele inclui Odio, desejando que o ódio morra. Ñe Ñe Ñé usa um ritmo plena tradicional porto riquenho otimista e uma melodia alegre, satirizando o governo e censurando a humilhação e a passividade de Porto Rico. “Nós não conhecemos a história latino-americana em Porto Rico”, disse iLe.

“Fomos durante tanto tempo uma colônia que achamos que somos norte-americanos”, afirmou. “Quando os porto riquenhos acordarem, as coisas irão mudar de fato”.

Em meados de julho, ela foi para as ruas com Residente e outros músicos ao lado de milhares de pessoas que protestavam contra o governador de Porto Rico, Ricardo A. Rosselló, que renunciou no dia 2 de agosto.

O elemento fundamental de Almadura são os instrumentos de percussão originais de toda a América Latina e do Caribe, intensificados pelo músico eletrônico hondurenho Trooko. iLe encerra o álbum com uma canção de sua irmã, Milena Pérez Joglar, De Luna, com uma letra sobre transformações surreais. Seu ritmo ardente baseado na conga sugere uma rumba afro-cubana, mas os detalhes são diferentes, iLe cantou sobre um take ininterrupto de dois percussionistas de conga.

“Falei a eles que podia soar como rumba, mas não queria que ela fosse pura”, contou. “Falei que podiam quebrar as regras. E aconteceu algo novo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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