Yannis Behrakis/Reuters
Yannis Behrakis/Reuters

Ilha da Noruega quer acabar com ideia de "tempo" no verão

Líder de movimento disse que região não quer ser influenciada pela maneira como o resto do mundo funciona

Robb Todd, The New York Times

07 de julho de 2019 | 06h00

De que modo passar o tempo é uma questão mais importante do que como gastar dinheiro. O tempo não é um recurso renovável. Os que acham que não têm tempo suficiente talvez devessem recorrer a uma opção pouco saudável para  ganhar mais alguns minutos no expediente do dia.

“Pode parecer uma piada, mas não é”, disse um gerente a Adam Grant, em um curso de liderança que estava ministrando. “Minha única solução é beber menos água para não precisar ir ao banheiro muitas vezes”. Grant afirmou que esta ideia o convenceu de que a gestão do tempo não ajuda as pessoas atarefadas, ao contrário, faz parte do problema.

“Vivemos em uma cultura obcecada pela produtividade do indivíduo”, escreveu Grant, psicólogo organizacional. “Devoramos livros sobre a realização de tarefas, e sonhamos com uma semana de trabalho de quatro horas. Adoramos o conceito da pressa e nos gabamos de estar muito ocupados”. Em lugar de administrar o nosso tempo, alertou, deveríamos administrar a nossa atenção, porque isto nos ajuda a priorizar as coisas realmente importantes.

“A produtividade não é uma virtude”, afirmou Grant. “É um meio em vista de um fim. Só será virtuosa se o fim valer a pena”. Lutar por alguma coisa, virtuosa ou não, não nos fará chegar muito longe, disse Olga Mecking, uma jornalista holandesa. Segundo ela, as pessoas precisam começar a valorizar o “niksen”, que em holandês significa não fazer nada.

Estar sempre muito ocupados, “raramente é o indicador de status em que fomos levados a acreditar”, ela escreveu no The Times. “Não obstante, os efeitos são reais, e os exemplos de esgotamento, de problemas de ansiedade e de doenças relacionadas ao estresse aumentam”.

Os que querem urinar menos para serem mais produtivos talvez tenham outra palavra para “niksen”: preguiça. Mas Mecking chamou a isto de absurdo. Ela disse que, considerados os gastos, passar conscientemente o tempo olhando pela janela ou observando as ondas quebrarem na praia faz bem para as pessoas - principalmente para as pessoas muito ocupadas.

Uma pesquisa realizada por Sandi Mann, um psicólogo da Grã-Bretanha, mostrou que a ociosidade total pode “literalmente nos tornar mais criativos, melhores na solução de problemas, melhores na apresentação de ideias criativas”. Uma pequena ilha da Noruega, imediatamente ao norte do Círculo Ártico, tem uma sugestão mais radical para o que fazer com o tempo: livrar-se dele.

O sol nunca se põe em Sommaroy, entre 18 de maio e 26 de julho. Isto faz com que o conceito de tempo pareça fluido para os seus 350 moradores, que começaram uma campanha para viver no que pode ser a primeira zona de “tempo livre” do mundo durante esses 69 dias.

Kjell Ove Hveding liderou o movimento “Vamos parar o tempo”, que foi aprovado em uma reunião da prefeitura em maio e enviado para o Parlamento nacional em Oslo. “Isto somos nós, é como vivemos”, ele disse. “Não é uma piada, é algo que queremos seriamente”. Se o projeto for adiante poderá significar “acabar com todos os relógios, prazos e horários de abertura, e dizer adeus às normas prescritas para a realização de certas atividades, como jantar ou ir para a cama, em certos momentos”.

Mas não fiquem muito entusiasmados. A ausência do tempo não se aplicaria aos empregos ou às escolas. Tem mais a ver com a maneira de pensar. Hveding disse que a região não quer ser influenciada pela maneira como o resto do mundo funciona. “Quando você tem a possibilidade de ser impulsivo, você se sente livre”, afirmou. “Esta será uma sociedade melhor se pensarmos mais em como gastar o nosso tempo e que tempo é mais valioso para cada um de nós”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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