Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Ilha na indonésia é palco de repetidos desastres

Nos últimos 50 anos, a ilha de Sulawesi enfrentou dezenas de terremotos, inundações, tsunamis e erupções vulcânicas

Hannah Beech e Muktita Suhartono, The New York Times

12 Outubro 2018 | 06h00

SIGI, INDONÉSIA - O sol estava se pondo sobre a mesquita de Sigi, e Randi Renaldi, 7 anos, ajoelhou-se e estendeu seus braços em prece. O chão, então, oscilou e balançou. A mesquita desabou, o domo veio abaixo, e um bloco de concreto atingiu as mãos estendidas de Randi.

No mesmo momento, no mesmo distrito da costa central da Ilha de Sulawesi, Priska Susanto, 15 anos, tinha acabado de terminar de rezar em seu primeiro dia do acampamento de férias religioso para jovens no 1.º ano do ensino médio. Aqui, o chão sacudiu, derretendo-se em um apavorante lodo de sedimentos que deslocou e arrastou a igreja por 1 quilômetro, finalmente tragando o edifício até o campanário.

Em formato de estrela-do-mar, a Ilha de Sulawesi, no leste da Indonésia, que sofreu um terremoto de magnitude 7,5 seguido por um tsunami que encobriu postes de luz, é um local de crenças divididas. Também é um lugar onde repetidas catástrofes, tanto naturais quanto provocadas pelo homem, têm atingido muçulmanos e cristãos sem distinção.

Em pouco mais de meio século, Sulawesi enfrentou dezenas de terremotos, deslizamentos, inundações, tsunamis e erupções vulcânicas; massacres contra comunistas e supostos simpatizantes que custaram pelo menos meio milhão de vidas em todo o país; e um conflito sectário que culminou em cabeças de meninas em idade escolar sendo jogadas perto de uma igreja e de uma delegacia de polícia.

Aproximadamente 2 mil pessoas morreram, segundo informações confirmadas pelas autoridades, em razão do terremoto seguido de tsunami de 28 de setembro. Muitas mais, acredita-se, estão soterradas, foram arrastadas por ondas ou ficaram presas em meio a escombros de edifícios que levarão meses, ou até anos, para serem retirados. Nenhuma sirene e nenhum outro tipo de aviso soaram na noite em que ocorreu o desastre.

"Sulawesi é o lugar com os desastres mais completos", afirmou Raman Kilo, que realizava trabalho voluntário para a Cruz Vermelha indonésia, no norte de Sulawesi, e ajudava a limpar os escombros sobre o acampamento de férias religioso.

Muçulmanos e cristãos em Palu são conhecidos por considerar a hipótese de que os desastres naturais que a região enfrenta são causados pela provocação às fés mais antigas do que as abraâmicas, que chegaram com os mercadores árabes e os colonizadores europeus.

O tsunami do mês passado inundou a cerimônia de abertura de um festival de cultura e esportes de aventura em Palu, onde os cidadãos locais reclamavam que a inclusão de um antigo ritual de cura - um desvirtuamento de crenças animistas para benefícios comerciais - perturbou o equilíbrio natural de Sulawesi.

No primeiro dia de inauguração do festival, três anos atrás, uma multidão de crocodilos se aglomerou na baía. No ano seguinte, um tufão atingiu a região. Este ano, o tsunami arrastou frequentadores e agentes de segurança.

Depois, em 3 de outubro, o Monte Soputan, no norte da ilha, expeliu uma coluna de cinzas a uma altitude de até 4 mil metros. Sulawesi, como grande parte da Indonésia, fica sobre um arco conhecido como Círculo de Fogo do Pacífico, a região de mais atividade sísmica da Terra.

"A natureza sempre dá um sinal", afirmou Rusdy Mastura, ex-prefeito de Palu. "Ela não gosta de ser perturbada".

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