Meghan Dhaliwal para The New York Times
Meghan Dhaliwal para The New York Times

Recuperação de ilha após furacão expõe tensão racial com governo

Moradores suspeitam que governo esteja fazendo campanha velada para tirar população pobre e negra de suas terras para vendê-la

Kirk Semple, The New York Times

18 de outubro de 2019 | 06h00

SAINT-MARTIN, ÍNDIAS OCIDENTAIS FRANCESAS - Os restos de uma casa de férias estavam no meio dos escombros: chinelos de dedo, um romance, uma bola de criança flutuando na água fétida de uma piscina. Em uma visita recente, a impressão que se tinha era que o pequeno bangalô e outras habitações sobre o Oceano Atlântico haviam sido arrasados pelo fogo da artilharia. 

A destruição provocada por um furacão de categoria 5 não ocorrera nas Ilhas Abaco, devastadas pelo Dorian, no mês passado. Foi em Saint-Martin, uma ilha que sofreu o impacto direto do furacão Irma no dia 6 de setembro de 2017, e onde a recuperação ainda não está concluída.

Nos 89 quilômetros quadrado da ilha, o furacão provocou danos por bilhões de dólares, divididos entre o território francês de Saint-Martin, com uma população de cerca de 32 mil pessoas, e Saint Maarten, um país na maior parte autônomo que pertence ao Reino da Holanda, com uma população de cerca de 41 mil habitantes. Depois da tempestade, o presidente Emmanuel Macron, da França, prometeu uma rápida recuperação do lado francês. “Saint-Martin renascerá, eu me comprometo”.

As questões mais complexas agora são: como reconstruir, ou se reconstruir, com a ameaça de tempestades cada vez mais fortes. O problema gerou um debate não tanto sobre economia, quanto sobre política, classes, cultura e raça, em que a população de maioria negra se contrapõe ao Estado francês. 

A mais alta autoridade francesa da ilha quer a imposição de mais restrições à construção nas áreas de mais risco nas tempestades, a fim de proteger as vidas e a economia. Agora, os moradores temem ser obrigados a abandonar propriedades que pertencem a suas famílias há gerações.

Na região, que sofreu frequentemente tempestades de categoria 5 nos últimos anos, o que ocorreu em Saint-Martin provavelmente se repetirá em outra parte do Caribe e em outras nações com regiões costeiras. Do lado francês da ilha, o furacão Irma danificou cerca de 95% das construções.

Bernadette Carty viveu todos os seus 65 anos diante do mar, e ignorou as ordens de evacuação que antecederam a chegada do Irma. Pelo menos sete gerações da sua família sobreviveram a numerosos furacões na ilha. Mas Irma foi uma das tempestades mais fortes que jamais a atingiram, um exemplo da destruição provocada pelos furacões em razão da mudança climática. Enquanto Irma arrasava tudo o que havia na orla, Bernadette, sua filha e dois netos tentaram proteger-se agachados embaixo de um colchão.

Quando saíram de lá, descobriram que, por causa da tempestade, a violência do mar e do vento havia aberto rombos na casa e levado a irmã de Bernadette na porta ao lado. Ela foi uma das 11 pessoas que morreram na parte francesa. Duas morreram na parte holandesa. Desde então, Bernadette mora em um apartamento, e espera reconstruir. “Este furacão é o diabo”, falou.

A tempestade devastou o principal aeroporto da ilha, bloqueou seus portos e fechou completamente sua indústria do turismo por meses. O governo francês destinou mais de US$ 500 milhões em ajuda nos primeiros seis meses depois da tempestade para a recuperação de Saint-Martin e da outra ilha francesa, menor, Saint-Barthélemy, nas proximidades, segundo Sylvie Feucher, a principal representante da França nos dois territórios. Hotéis e restaurantes reabriram, e os turistas voltaram. Mas Sylvie previu que levará mais três anos para o território se recuperar.

Ela está convencida de que algumas áreas estão demasiado expostas às tempestades e não serão mais seguras para serem habitadas. Sylvie exige novas restrições ao uso da terra. A campanha tornou-se um motivo de conflito no relacionamento cada vez mais contencioso entre a França e a população local, revoltada contra o controle vindo de fora. Os moradores dos bairros que despertam maior preocupação suspeitam que o governo francês esteja fazendo uma campanha velada com o propósito de tirar a população pobre, negra, de sua terra para vendê-la a incorporadoras.

Cédrick André, um ativista da comunidade em Sandy Ground, um bairro de alto risco, considera que esta é como uma guerra para a população de Saint-Martin. “Eles não atacam as pessoas que têm a carteira recheada e podem se defender”, disse André, 42. Para tirar os donos de propriedades das zonas de maior risco, a França criou um fundo especial, mas Feucher insiste que ninguém será forçado a vender. Os moradores não estão convencidos disso.

A opinião de ambos os lados da ilha é que a metade holandesa se recuperou mais rapidamente. “Do lado francês, nós temos normas, regras e regulamentações”, afirmou Angèle Dormoy, da Câmara de Comércio de Saint-Martin. “Tudo é controlado e novamente controlado, três ou quatro vezes”.

Os moradores de Saint-Martin são cidadãos franceses, com direito aos benefícios oferecidos pela rede social da França. Mas esta generosidade foi talvez minada pela iniciativa privada. Do lado holandês, grande parte da reconstrução se tornou possível graças a fundos privados. Mas alguns indagam se, na pressa de reconstruir, foi considerada a possibilidade de futuras tempestades.

Do lado francês, Feucher disse que tenta convencer os moradores a se prepararem para o futuro: a reconstrução bem feita, mesmo que demorada, poderá salvar vidas na próxima tempestade. “Mudar a mentalidade das pessoas é sempre uma tarefa difícil”, observou. / TRADUÇÃO DE 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.