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Ben Quinton para The New York Times
Ben Quinton para The New York Times
Adam Satariano, The New York Times

06 de janeiro de 2020 | 06h00

TORSHAVN, Ilhas Faroe - A própria existência das Ilhas Faroe é surpreendente. Picos altos de rocha vulcânica cobertas de neve saltam para fora do oceano. Penhascos íngremes mergulham nas águas profundas de fiordes estreitos.

O remoto arquipélago de 18 pequenas ilhas, território dinamarquês situado entre Islândia e Noruega, é conhecido pela robusta população de papagaios do mar e as periódicas caçadas às baleias. Há também uma próspera indústria do salmão.

A tecnologia não é um assunto muito abordado nas conversas de seus 50 mil habitantes. Mas as Ilhas Faroe se transformaram recentemente em um campo de batalha da Guerra Fria tecnológica entre Estados Unidos e China.

As Ilhas Faroe planejam construir uma nova rede de acesso sem fio usando a tecnologia de quinta geração, conhecida como 5G. Para criar essa nova rede, o território pensava em contratar um prestador de serviços de tecnologia.

Foi então que os EUA começaram a insistir para que eles não contratassem uma empresa específica: a gigante chinesa Huawei

Então as autoridades chinesas se envolveram. Um funcionário do alto escalão das Ilhas Faroe foi recentemente flagrado dizendo que os chineses prometeram intensificar o comércio entre o território e a China - desde que a Huawei fosse a empresa contratada.

“Do ponto de vista comercial, as Ilhas Faroe não podem ser muito importantes para a Huawei, nem para qualquer outra empresa", disse Sjurdur Skaale, que representa o território no parlamento dinamarquês. “O fato de as embaixadas chinesa e americana estarem disputando isso tão arduamente indica que há algo mais na mesa. Não é uma questão de negócios.”

Por mais de um ano, funcionários do governo americano pressionaram Grã-Bretanha, Alemanha, Polônia e outros a seguirem seu exemplo proibindo a participação da Huawei em novas redes 5G. Eles argumentam que a empresa pode ser usada pelo Partido Comunista chinês para espionagem ou sabotagem de redes essenciais. A Huawei negou auxiliar Pequim. Mas, se os países europeus ficarem do lado de Washington, correm o risco de prejudicar seus laços econômicos com a China.

Nas Ilhas Faroe, o primeiro-ministro Bardur Nielsen tentou desarmar o conflito. Em pronunciamento, ele disse que seu governo “não foi pressionado nem ameaçado por autoridades estrangeiras". Qualquer decisão envolvendo esse contrato seria tomada pela empresa local de telecomunicações, Foroya Tele, disse ele.

Para os moradores, o fator mais importante na disputa não é a velocidade de acesso, e sim o salmão.

Mais de 90% das exportações das ilhas são peixes, incluindo salmão, cavala, arenque e bacalhau. Nas águas, milhares de salmões podem ser vistos dentro de grandes redes anelares, onde são criados para serem servidos em pratos em Paris, Moscou, Nova York e, cada vez mais, Pequim.

A China responde agora por aproximadamente 7% das vendas de salmão das Ilhas Faroe. Ao todo, as exportações de salmão deveriam ultrapassar os US$ 550 milhões em 2019 - dez anos atrás, esse valor era de aproximadamente US$ 190 milhões.

Em novembro, a embaixadora dos Estados Unidos na Dinamarca, Carla Sands, fez alertas públicos contra a Huawei. Em editorial publicado em um jornal local das Ilhas Faroe, Carla disse que pode haver “consequências perigosas” se a empresa for aceita na construção das redes 5G.

Em dezembro, o jornal nacional dinamarquês Berlingske publicou a transcrição de uma gravação na qual Herálvur Joensen, importante assessor do governo feroês, era flagrado dizendo que o embaixador chinês ameaçou bloquear um acordo comercial se a Huawei não fosse usada para a rede 5G.

“Se a Foroya Tele assinasse um acordo com a Huawei, todas as portas se abririam para um acordo de livre comércio com a China", disse ele na gravação. “Se isso não ocorrer, não haverá acordo.”

Um porta-voz do primeiro-ministro disse que Joensen não participou da reunião.

O embaixador da China, Feng Tie, escreveu no Berlingske que o país não pressionou as Ilhas Faroe. “Promover ameaças não é algo que faça parte da cultura chinesa", disse ele. “Essa é uma conduta mais característica dos EUA.”

A Huawei disse em comunicado que não está envolvida em negociações entre os dois governos.

Ainda que muitos moradores digam que as Ilhas Faroe preferem os EUA em relação à China, muitos se disseram indignados com as autoridades americanas por exigir a exclusão da Huawei, empresa que, de acordo com eles, ajudou a instalar a rede 4G existente. Outros temem a perspectiva de prejudicar os laços econômicos com a China. 

 

“A China não é apenas boa freguesa, e sim uma necessidade", disse Martin Breum, especialista no Ártico que já escreveu a respeito das Ilhas Faroe. De acordo com ele, os feroenses “não têm mais nada a vender ao restante do mundo. Eles sobrevivem dos peixes". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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