Will Kirk/Johns Hopkins University via The New York Times
Will Kirk/Johns Hopkins University via The New York Times
Kate Dwyer, The New York Times - Life/Style

08 de fevereiro de 2022 | 05h00

Na primeira terça-feira do ano, o autor e ativista político Don Winslow tuitou uma fotografia da biblioteca dos sonhos de um leitor ávido. Banhada pelo brilho amanteigado de três abajures de mesa, quase todas as superfícies da sala estão cobertas de livros. Há livros nas mesas, livros empilhados em escadas de mogno e livros em cima de mais livros alinhados nas prateleiras da sala. “Espero que você veja nisso a mesma beleza que vejo”, escreveu Winslow no tuíte, que recebeu mais de 32.800 corações.

Se você passa bastante tempo nos cantos literários do Twitter, essa imagem pode parecer familiar. Ele aparece novamente quase todo ano, e a biblioteca foi atribuída ao longo dos anos a autores como Umberto Eco e edifícios na Itália e em Praga. Tal como acontece com outras imagens com belas estantes, as pessoas ficam absolutamente loucas. A postagem de Winslow recebeu mais de 1.700 comentários, incluindo um de um professor da Pace University que usa a foto como plano de fundo do Zoom.

“É claramente a casa de uma pessoa que ama e coleciona livros”, disse Winslow em um e-mail por meio de seu agente, Shane Salerno. “Para mim, acho essa foto tão impressionante quanto um pôr do sol. Eu poderia passar dias e dias trancado naquela biblioteca examinando cada livro.” Ele observou que há algo de reconfortante na imagem, já que “é uma sala em que você pode se perder alegremente”.

Winslow não tinha ideia da origem da foto. Ele havia encontrado no Twitter, mas não se lembrava do nome ou da localização da biblioteca. (Embora acreditasse que fosse a biblioteca pessoal de um autor proeminente de outro país.)

A biblioteca, deve-se saber, não está na Europa. Nem sequer existe mais. Mas quando existia, foi a biblioteca do professor Richard Macksey da Johns Hopkins em Baltimore. (Fui seu aluno em 2015 e o entrevistei para o Literary Hub em 2018.) Macksey, que morreu em 2019, era colecionador de livros, poliglota e estudioso de literatura comparada. Na Hopkins, ele fundou um dos primeiros departamentos acadêmicos interdisciplinares do país e organizou a conferência de 1966 The Languages of Criticism and the Sciences of Man, que incluiu as primeiras palestras nos Estados Unidos dos teóricos franceses Jacques Derrida, Roland Barthes, Jacques Lacan e Paul de Man.

A coleção de livros de Macksey chegou a 51.000 títulos, de acordo com seu filho, Alan, excluindo revistas e outras publicações efêmeras. Há uma década, as peças mais valiosas - incluindo as primeiras edições de Moby Dick, Prufrock and Other Observations, de T.S. Eliot, e trabalhos de Wordsworth, Keats e Shelley - foram transferidas para uma sala de “coleções especiais” no campus da Hopkins. Após a morte de Macksey, um grupo de bibliotecários e conservacionistas parecido com a SWAT passou três semanas vasculhando sua casa de 7.400 pés quadrados cheia de livros para selecionar 35.000 volumes para adicionar às bibliotecas da universidade.

Descobertas surpreendentes incluíram um texto de Rousseau do século 18 com capas carbonizadas (encontrado na cozinha), uma cópia “impecável” de um raro catálogo de exposição da década de 1950 com as pinturas de Wassily Kandinsky, pôsteres dos protestos de maio de 1968 quando estudantes em Paris ocuparam a Sorbonne, um cartão de Natal desenhado à mão do cineasta John Waters, e as gravações originais dos teóricos naquela conferência do Estruturalismo de 1966.

“Durante anos, todos diziam 'deve haver gravações dessas palestras'. Bem, finalmente encontramos as gravações dessas palestras. Estavam escondidas em um armário atrás de uma estante atrás de um sofá”, disse Liz Mengel, diretora associada de coleções e serviços acadêmicos das Bibliotecas Sheridan da Johns Hopkins. Várias primeiras edições de poetas e romancistas do século 20 estavam em uma prateleira na lavanderia.

Depois que os bibliotecários da Hopkins e da vizinha Loyola Notre Dame terminaram de selecionar suas doações, os livros restantes foram levados por um negociante, para que o filho de Macksey pudesse preparar a casa para ser vendida.

A imagem da biblioteca contorna todos esses detalhes para evocar algo mais universal, disse Ingrid Fetell Lee, autora de Aesthetics of Joy, um blog sobre a relação entre decoração e prazer. “Somos atraídos pela imagem e inventamos todo tipo de história sobre de quem pode ser ou o que pode ser porque adoramos contar histórias”, ela disse. “Mas o que realmente está impulsionando a atração é muito mais visceral.”

Fetell Lee apontou para a sensação de abundância da foto. “Há algo na abundância sensorial de ver muitas coisas que nos dá um pouco de emoção”, ela disse. Também relevante: a sensação “satisfatória” do caos organizado e a admiração inspirada pelos tetos altos.

Imagens de livros e bibliotecas são populares em todas as plataformas sociais. Um representante do Instagram disse que algumas das postagens mais curtidas na plataforma que incluem as palavras “biblioteca” ou “bibliotecas” apresentam grandes quantidades de livros, uma estética “aconchegante” ou um esquema de cores mais quente.

O que Macksey pensaria se soubesse que sua biblioteca ganhou vida própria? “Meu pai gostava de compartilhar seu amor por livros e literatura com outras pessoas”, disse Alan Macksey. “Ele ficaria encantado de ver sua biblioteca viva através desta foto.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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