Nelson Almeida/Agence France-Presse - Getty Images
Nelson Almeida/Agence France-Presse - Getty Images

Imagem de companhia americana tropeça na soja no Brasil

Parte das críticas à Cargill refere-se ao persistente desmatamento do cerrado, onde a companhia compra enormes quantidades de soja dos produtores locais

David Yaffe-Bellany, The New York Times

05 de agosto de 2019 | 06h00

Durante anos, a gigante agrícola americana Cargill manteve um relacionamento relativamente bom com os defensores do meio ambiente, e foi elogiada por concordar com uma moratória histórica de compra da soja cultivada em áreas desmatadas da Amazônia.

Recentemente, porém, este relacionamento azedou porque a companhia se recusou a concordar com uma moratória semelhante em outra região sensível na questão da proteção ambiental no Brasil e, principalmente, por não atingir as metas que ela própria estabelecera contra o desmatamento.

“O que decepcionou foi o fato de a Cargill ter sido elogiada e, depois, não ter dado seguimento à sua política”, disse Nathalie Walker, diretora da National Wildlife Federation.

A Cargill, a maior empresa privada dos Estados Unidos, é uma das maiores exportadoras da soja brasileira.

Grande parte das críticas que lhe foram feitas recentemente refere-se ao persistente desmatamento do cerrado, a vasta região da savana brasileira onde a companhia compra enormes quantidades de soja dos produtores locais. O cerrado  fornece cerca de 60% da produção total de soja do Brasil, aproximadamente 20 vezes a quantidade cultivada na Amazônia.

Os defensores do meio ambiente exigem que a companhia estabeleça moratórias da soja no cerrado, que perdeu mais da metade da flora nativa  e é uma região menos protegida pela legislação brasileira do que a Amazônia. Os especialistas afirmam que os dano provocados acentuaram a mudança climática.

A Cargill se recusou a concordar com uma moratória do cerrado. Em junho, a companhia admitiu que não atingiria a meta ambiental que ela própria estabeleceu há dez anos: a eliminação do desmatamento de sua cadeia de fornecimentos até 2020. Ao contrário, ela lançou um novo “plano de ação para a soja” que destina $ 30 milhões ao desenvolvimento de “opções economicamente viáveis para produtores como alternativas  para a conversão da vegetação nativa”.

Glenn Hurowitz, que chefia a organização para a proteção ambiental Mighty Earth, disse que o diretor executivo da Cargill, David MacLennan, afirmou que a companhia apoiaria uma moratória do cerrado. No mês passado, a Mighty Earth divulgou um relatório intitulado “Cargill: The Worst Company in the World”. “Os seus diretores têm duas caras”, declarou Hurowitz.

Ruth Kimmelshue, diretora de sustentabilidade da Cargill, nega que a companhia tenha se comprometido com uma nova moratória e insiste que a situação no cerrado é mais complexa do que na Amazônia.

Aqui cabe uma importante distinção: a Cargill é a maior operadora comercial de soja na Amazônia, mas enfrenta maior concorrência no cerrado. As companhias chinesas compram a maior parte da soja brasileira.

Declarar uma moratória “não resolve o problema”, disse Kimmelshue. “Nós saímos, e alguém entra. Precisamos de um envolvimento mais profundo para que seja encontrada uma solução”.

Uma moratória do cerrado provavelmente criaria tensões com os produtores locais. Mas os defensores do ambiente da região afirmam que os produtores brasileiros poderão continuar plantando soja em terras já desmatadas, sem danificar o habitat.

Kimmleshue admitiu que a Cargill não agiu com a devida presteza para combater o desmatamento. Mas acrescentou que a companhia não lamenta ter assumido compromissos.

“Por causa do compromisso, pudemos fazer progressos”, ela disse. “O progresso não proporcionou tudo o que queríamos, mas isto não significa que devamos parar”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.