Jonah M. Kessel/The New York Times
Jonah M. Kessel/The New York Times

Imagem de infravermelho é opção para monitoramento em massa em tempos de coronavírus

Equipamentos podem ser usados para indicar temperatura das pessoas, mas especialistas dizem que resultados podem não ser precisos

Jonah M. Kessel, The New York Times - Life/Style

27 de julho de 2020 | 05h00

À medida que os Estados Unidos reabrem, talvez você comece a ver mais mapas de calor em tempo real que conseguem identificar pessoas doentes mesmo antes que elas percebam que estão doentes. E, no mundo pós-quarentena, sua temperatura pode estar sendo medida. O tempo todo.

A febre indica que uma pessoa pode estar apresentando sintomas de coronavírus, e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) recomendam que sejam feitos exames de temperatura em uma variedade de ambientes, como escolas e empresas.

Como as ordens de quarentena variam entre muitas cidades e condados de todo o país, as autoridades começaram a comprar tecnologia como câmeras de infravermelho na esperança de ajudar a rastrear e conter a propagação do surto.

Sou cinegrafista do The New York Times e, no ano passado, me especializei no uso de câmeras de infravermelho para fazer uma reportagem que denunciou imensos vazamentos de metano em instalações de petróleo e gás, o que agrava o aquecimento global.

Quando a pandemia chegou, comecei a ver mais e mais empresas, como a Amazon, usando essa tecnologia para ajudar a identificar pessoas doentes em suas instalações. As câmeras de imagem térmica estão começando a aparecer nos restaurantes da rede Subway. A Carnival Cruise Lines, cujos navios se tornaram focos da disseminação do vírus, disse que todos os passageiros e tripulantes serão rastreados quando voltarem a navegar.

A rápida adoção da tecnologia de infravermelho me fez pensar o quão útil ela poderia ser. Estão sendo implementados vários sistemas, tanto os baseados em câmeras quanto outros que fazem as pessoas atravessarem estruturas parecidas com detectores de metal. Esses sistemas realmente podem ajudar a conter a propagação do vírus enquanto esperamos a vacina?

Uma pesquisa da Harris realizada no final de março, logo após a maioria das medidas de isolamento entrar em vigor nos Estados Unidos, constatou que 84% dos entrevistados eram favoráveis a exames de saúde obrigatórios para entrar em locais públicos.

Arranjei uma câmera de infravermelho com leitura de temperatura e saí às ruas de Maplewood, Nova Jersey, num dia quente de verão no final de junho. Eu queria entender onde a câmera vai bem e onde estão os desafios em capturar leituras de temperatura precisas.

Maplewood faz parte do Condado de Essex. Houve mais de 18 mil casos confirmados no condado e mais de 1.700 mortes relacionadas. Mas, assim como em muitos lugares dos Estados Unidos, Maplewood está se abrindo novamente - ainda que sobretudo para atividades ao ar livre. As ruas até então cheias de carros agora estão mais ou menos cheias de mesas de restaurantes.

Como entender as imagens de infravermelho? Imagine uma imagem que mostra uma mulher que pediu algo quente para beber. A garçonete lhe entrega uma xícara branca brilhante. Uma segunda imagem mostra uma mulher passando ali perto, tomando sorvete. O sorvete fica azul escuro. Isso significa que branco é igual a quente e azul escuro é igual a frio.

Então é assim que funciona? Sim, mas não é tão simples quanto parece.

Nem mesmo um sistema de câmera de infravermelho instalado consegue detectar muitas pessoas que podem ter o vírus mas não apresentam sintomas.

Mas igualmente importante é como as câmeras são usadas.

Uma situação hipotética seria mais ou menos assim: uma fábrica abre as portas e milhares de trabalhadores entram. Acima deles, câmeras de infravermelho apontam para uma grande multidão de indivíduos e indicam as pessoas doentes.

O método, no entanto, não produziria resultados precisos, de acordo com especialistas.

“O problema da varredura de multidões é que sabemos que as medições de temperatura são afetadas pela distância da câmera ao alvo, e as multidões estão a distâncias diferentes”, disse Chris Bainter, diretor de desenvolvimento de negócios globais da FLIR, fabricante de tecnologia de infravermelho. “As câmeras não focam de um ou dois metros de distância até o infinito, com tudo em foco”.

“O lugar onde você mede a temperatura também faz muita diferença, e estudos mostram que o canal lacrimal é o melhor lugar", acrescentou. “Se você está olhando para uma multidão de pessoas, será que vai conseguir uma leitura precisa?”.

A melhor versão dessa tecnologia funciona mais ou menos assim: uma câmera, um indivíduo.

Posso apontar a câmera para minha esposa na varanda, mas, para obter uma leitura mais precisa da temperatura, a mira precisa estar bem na órbita ocular. Se você desviar um pouco para a esquerda ou um pouco para a direita, verá uma temperatura diferente. Isso é importante porque altera o tempo que leva para fazer a leitura.

Outros fatores também precisam ser considerados. “A temperatura corporal sofre uma ligeira variação de pessoa para pessoa”, disse Bainter. “O que é normal para mim pode ser diferente de você. E isso pode ser determinado por idade, sexo, etnia, dieta ou exercícios físicos. Além disso, há também alguns fatores ambientais. Ao longo do dia, a temperatura do seu corpo muda da manhã para a tarde”.

No dia em que eu estava filmando em Maplewood, as temperaturas giravam em torno de 35 ºC. Todo mundo estava com calor. Algumas superfícies, como o banco, chegavam a quase 40 ºC.

O crescente uso da tecnologia também suscitou preocupações com a privacidade.

Especialistas em liberdades civis alertaram sobre a possibilidade de dados sobre os funcionários serem coletados e utilizados sem permissão. Parlamentares democratas e republicanos propuseram projetos de lei para ajudar a proteger as informações e a privacidade das pessoas nesses casos, mas a legislação até o momento parou no Congresso.

“O caminho para o inferno é pavimentado com boas intenções, e a instalação de câmeras em massa deve ser vista pelo que é: instalação de câmeras em massa e, consequentemente, sua maior normalização”, disse Ed Geraghty, tecnólogo da Privacy International, organização não governamental britânica sobre direitos de privacidade.

“Já vemos que a polícia, com o objetivo de fundamentar processos criminais contra acusados de vandalismo, está redirecionando câmeras de rua que foram instaladas para monitorar dados de trânsito. Seria ingênuo acreditar que o mesmo não acontecerá com essas câmeras”, acrescentou.

Diante de tudo isto, a tecnologia poderia funcionar, se fosse usada corretamente? Sim. É melhor que nada? Depende da pessoa a quem você pergunta. Mas, enquanto esperamos a vacina, muitos veem benefícios. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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