Tsvangirayi Mukwazhi/Associated Press
Tsvangirayi Mukwazhi/Associated Press

Imagem mais branda do presidente do Zimbábue se desfaz

As esperanças de que Emmerson Mnangagwa governaria com uma mão mais leve do que seu antecessor, Robert Mugabe, foram frustradas pela repressão às manifestações

Jeffrey Moyo e Norimitsu Onishi, The New York Times

01 de fevereiro de 2019 | 06h00

HARARE, ZIMBÁBUE - Talvez o lenço fosse apenas um lenço. Pouco depois de depor Robert Mugabe da presidência, Emmerson Mnangagwa, o novo presidente do Zimbábue, começou a usar um lenço colorido. É verdade que há anos Mnangagwa trabalhava como principal assistente de Mugabe, liderando alguns dos ataques mais violentos aos seus adversários políticos. Mas o lenço, com as cores da bandeira nacional, parecia ser o símbolo de um líder mais brando.

Agora, muitos zimbabuenses dizem que Mnangagwa está revelando sua verdadeira índole. Em janeiro, enquanto manifestantes tomavam as ruas da capital, Harare, protestando contra a deterioração da economia, Mnangagwa mobilizou soldados e policiais para a repressão, resultando em mais de uma dúzia de mortos, além de centenas de feridos à bala, de acordo com organizações da sociedade civil.

A violência coroou um ano de esforços malsucedidos por parte de Mnangagwa e seu governo do ZANU-PF no sentido de convencer os estrangeiros que o Zimbábue mudou. As esperanças iniciais foram extintas quando forças do governo esmagaram os manifestantes após as eleições de julho, após Mnangagwa ter sido eleito formalmente.

A violência assustou os investidores estrangeiros e minou a credibilidade do novo governo diante dos credores internacionais, agravando ainda mais a difícil situação da economia do país. Uma alta de 150% no preço da gasolina deu início à mais nova onda de protestos. Em novembro de 2017, apoiado pelos generais, Mnangagwa promoveu um golpe contra Mugabe.

Com seu lenço colorido, Mnangagwa deu início a uma ofensiva diplomática no exterior. Foi recebido com reações favoráveis, especialmente por parte dos britânicos. Mas havia uma condição: o governo teria de realizar eleições transparentes.

As coisas começaram bem. Mas, depois que o principal partido da oposição, Movimento pela Mudança Democrática, alegou que a votação tinha sido fraudada, insistindo aos eleitores que tomassem as ruas, soldados e policiais foram mobilizados na repressão, matando meia dúzia de manifestantes.

"Foi uma horrível mancha naquela que vinha sendo uma transição tranquila", disse Busisa Moyo, ex-presidente da Confederação de Indústrias do Zimbábue. "Os investidores estrangeiros esperavam uma eleição justa."

Sem a entrada de mais dinheiro no Zimbábue, o governo de Mnangagwa teve de tomar decisões econômicas pouco populares, incluindo a imposição de uma tarifa de 2% sobre as transferências eletrônicas de dinheiro.

Nos anos mais recentes, as transferências eletrônicas se tornaram a única maneira de fazer pagamentos, por causa de uma crise monetária que também tornou os subsídios ao combustível cada vez mais caros para o governo - resultando no recente aumento do preço da gasolina.

No dia 21 de janeiro, Mnangagwa, que estava em viagem oficial à Rússia durante a repressão violenta, voltou a Harare depois de desistir de uma viagem a Davos, na Suíça, onde planejava promover o Zimbábue e mostrar que o país estava aberto para os negócios. Estava usando seu indefectível lenço.

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