As Quatro Liberdades
As Quatro Liberdades

Imagens icônicas de Rockwell são recriadas para os EUA atual

Inspirados em 'Quatro Liberdades', obra-prima do pintor, artistas reproduzem o trabalho para um contexto de mais diversidade

Laura M. Holson, The New York Times

14 de dezembro de 2018 | 06h00

Em 2012, Hank Willis Thomas viu um cartaz do quadro de Norman Rockwell mostrando uma família sentada em torno de uma mesa de natal. Para Thomas, artista negro de 42 anos criado em Manhattan, os rostos brancos da obra-prima de Rockwell de 1943 pouco faziam para representar sua vivência de um país de mais diversidade. Assim, ele criou seu próprio modelo.

Thomas e a fotógrafa Emily Shur alugaram uma casa em Los Angeles em maio. Ali, produziram diversas imagens evocativas de “Freedom From Want", de Rockwell, parte de uma série de quatro quadros inspirados no discurso de Franklin D. Roosevelt ao congresso americano, em 1941, celebrando a liberdade e os valores democráticos dos EUA.

“A imagem me assombrou por causa do mundo em que vivemos", disse o artista, referindo-se ao clima de divisão na política atual. “Quis imaginar como seriam essas imagens hoje.” Rockwell, morto há 40 anos, está entre os ilustradores mais influentes dos EUA. A série das “Quatro Liberdades” está numa turnê pelo país em celebração ao seu 75.º aniversário. E a revista literária Saturday Evening Post, que publicou a série de Rockwell, colocou seu acervo na internet.

Mas é talvez a reinterpretação das imagens clássicas do artista que deu à obra de Rockwell vida nova. Thomas é um de muitos artistas que reimaginaram as “Quatro Liberdades", a maioria deles estimulada pela tensão racial e política nos EUA.

Entre eles está Maurice (Pops) Peterson, um artista que vive perto de Stockbridge, Massachusetts, onde fica o Museu Norman Rockwell. Peterson, 66 anos, ficou enervado com a morte de um negro baleado pela polícia no Missouri em 2014. “Não vivemos todos livres do medo", disse ele.

Em 2015, Peterson usou seu iPhone para criar “Freedom From What?” [Liberdade de quê?], uma compilação fotográfica feita a partir de “Freedom From Fear”, de Rockwell. Na interpretação de Peterson, um negro segura um jornal com as palavras “Não consigo respirar", referência ao episódio da morte de um negro em 2014 depois de receber um mata-leão de um policial. “Foi nesse momento que minha arte se tornou pessoal", disse ele.

Os retratos de Rockwell da vida nos EUA dos anos 1940 e 1950 eram populares, mas se limitavam principalmente a mostrar brancos que eram seus amigos ou conhecidos. Sua série “Four Freedoms” ajudou a estimular o patriotismo num país que se encaminhava para a guerra.

Laurie Norton Moffatt, diretora do Museu Norman Rockwell, disse que a instituição recebe de braços abertos a obra de Peterson e de outros porque deseja ligar os ideais por trás das pinturas de Rockwell à cultura contemporânea. Mas recusa as críticas segundo as quais a obra dele se destinaria a um público branco.

A artista Maggie Meiners, dos arredores de Chicago, visitou o Museu Norman Rockwell em 2008 e ficou impressionada com o casal de idosos na cabeceira da mesa de “Freedom From Want". Em 2015, Maggie, 46 anos, recriou a cena com dois amigos gays e casados recebendo seus convidados.

Em 2017, pouco após a posse do presidente Donald Trump, disse Maggie, um muçulmano americano falou na igreja dela. Na época, Trump usava uma retórica antimuçulmana. Maggie ficou comovida com a história do palestrante. “Não conheço muitos muçulmanos, e aquela experiência foi desconcertante", disse ela. Maggie perguntou ao homem se ele e os amigos aceitariam posar para uma foto. “Ele disse, ‘É só combinar o local e trarei as pessoas’”, lembra ela. 

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