Seif Kousmate/The New York Times
Seif Kousmate/The New York Times

O duro trabalho de um homem para honrar imigrantes mortos na costa do Marrocos

Boubacar Wann Diallo se dedica a determinar os nomes e origens dos cadáveres que aparecem na costa do Marrocos e a dar-lhes um lugar de descanso final decente

Aida Alami, The New York Times - Life/Style

02 de outubro de 2020 | 05h00

NADOR, MARROCOS– Há meses, Boubacar Wann Diallo não conseguia dormir à noite sem deixar uma luz acesa. Voluntário ocasional da AlarmPhone, uma linha telefônica especial de um grupo de apoio para pessoas que fazem a travessia do Marrocos à Europa, estava assombrado pelos telefonemas que recebia com muita frequência de mulheres e crianças desesperadas, gritando como se estivessem sendo tragadas pelo mar em uma tempestade ou em um naufrágio.

Mas isto, por mais terrível que fosse, não era o que perturbava tanto o seu sono. O que lhe provocava os piores pesadelos eram os corpos não identificados que apareciam nas praias ao redor de Nador, a cidade na costa do Mediterrâneo do norte de Marrocos, que então eram amontoados no necrotério local sem que alguém os reclamasse.

Ele prometeu que fazer com que recebessem um sepultamento digno se tornaria a tarefa principal de sua vida. “É uma alegria para mim sepultá-los”, afirmou recentemente Wann Diallo na entrada do necrotério, que tem no seu frontispício uma frase do Alcorão: “A Maomé pertencemos, e a ele retornaremos”. “Quero dar a paz às famílias”, afirmou. “Isto me faz sentir bem. Eu me sinto mal quando as pessoas são sepultadas sem os familiares. Eu me coloco no lugar deles”.

Wann Diallo, de 32 anos, mudou-se da Guiné para Nador em 2013, e nos anos seguintes se tornou uma das figuras mais conhecidas da cidade, cumprimentado por todos aonde quer que ele vá. Ele próprio imigrante, aprendeu a viver no meio do racismo e da discriminação contra os pretos subsaarianos, comum em Marrocos.

Ele cultivou estreitos laços com as autoridades locais que aplaudem o seu trabalho de assistência na identificação de centenas de corpos não reclamados. Nador, a apenas 15 quilômetros do enclave espanhol de Melilla, há muito atrai os imigrantes subsaarianos pela possibilidade de conseguir ingressar na Europa saltando uma cerca.

No entanto, nos últimos anos, a União Europeia deu ao Marrocos meios e apoio financeiro para acabar com a migração clandestina, erguendo cercas e aumentando as patrulhas marítimas. Consequentemente, o cruzamento da fronteira caiu 50% em 2019, em comparação ao ano anterior.

Isto, por sua vez, obrigou as pessoas a se arriscarem e, em alguns casos, tentar travessias muito mais perigosas. Com a queda dos cruzamentos, o número de vítimas fatais também caiu. Mas isto não diminuiu a determinação de Wann Diallo de identificar os mortos, dando às famílias notícias dos seus entes queridos, ainda que extremamente dolorosas.

“Para as famílias, resta sempre a esperança de que a pessoa talvez não tenha morrido”, ele disse. “É muito difícil acreditar e aceitar que eles morreram”. Wann Diallo, filho de funcionários públicos, nasceu em Guéckédou, no sul da Guiné, e cresceu na capital, Conakry. Seu pai, já falecido, foi casado com quatro mulheres e teve 25 filhos (sete com a mãe de Wann Diallo, sua quarta esposa).

Depois de formar-se em direito na Universidade Kofi Annan, da Guiné, abriu um estúdio de gravação onde passaram artistas que criticavam o governo. Isto gerou a desconfiança da polícia local, e, em 2013, foi obrigado a deixar o país em busca de segurança. Com alguma poupança, mas sem um plano definido, foi para o Marrocos, onde ouvira falar que teria uma boa chance de encontrar trabalho. Começou em Casablanca, em seguida, com um colega subsaariano que conheceu na capital de Marrocos, Rabat, viajou pelo país, chegando finalmente a Nador, mas afirma que nunca pretendeu tentar ir à Europa.

Passou alguns meses acampado nas florestas ao redor da cidade, onde muitos imigrantes subsaarianos se reúnem antes de tentar seguir em frente. Alarmado pela pobreza, a doença e muitas vezes pelas terríveis condições de vida, decidiu ajudá-los. Encontrou trabalho para eles em fazendas a fim de que pudessem ganhar o suficiente para sobreviver e tratamento médico. “Às vezes, digo a mim mesmo que talvez Deus me enviou aqui como um messias para ajudar as pessoas”, ele disse.

“Só sei que minha mãe está muito orgulhosa de mim. As pessoas do meu país contam para ela que eu as ajudei”. Ele obteve a residência e agora trabalha em tempo integral como agente de campo para uma organização local, a Asticude, que ajuda os migrantes em trânsito. Quando ele não está acompanhando-os ao médico, à farmácia, ao tribunal ou os visita na cadeia, está ocupado identificando os corpos, às vezes em estado tão adiantado de decomposição que são irreconhecíveis até para os seus familiares. Não é um trabalho fácil.

O primeiro passo consiste em encontrar semelhanças entre as fotos que recebe das famílias e as dos corpos no necrotério. Wann Diallo busca ajuda dos consulados e embaixadas, e também de migrantes que conheceram as pessoas que estavam no mesmo barco no dia do naufrágio, mas têm medo de falar diretamente com as autoridades.

Quando não consegue encontrar uma semelhança, ele recorre aos grupos do Facebook que têm dezenas de fotografias de imigrantes que estão desaparecidos. A sua página no Facebook é uma espécie de memorial do seu ativismo, com inúmeras mensagens que lembram os mortos. Depois de fazer uma identificação positiva, Wann Diallo pede que as famílias lhe concedam poderes para solicitar a autorização de realizar o enterro.

A maioria das famílias aceita, porque poucas podem arcar com os custos da repatriação. Para levar os corpos até Rabat o gasto é de US$ 1.400. A transferência para outro país custa milhares de dólares mais. O cemitério muçulmano local é um lugar desolado, um campo empoeirado repleto de dezenas de túmulos não identificados.

Os corpos, na maioria ainda não identificados apesar dos esforços de Diallo, jazem debaixo de pedras e terra. Pequenas pedras têm inscrições com a data do sepultamento, um número dado pelas autoridades e o gênero do corpo. Sobre algumas pedras está escrito apenas “partes do corpo”.

“Depois que os enterro, minha função acaba”, disse Wann Diallo. “As famílias frequentemente me dizem: ‘Não temos com que lhe pagar. Deus o fará por nós’”. Wann Diallo consegue manter o otimismo embora cumpra uma função macabra. Em geral, evita comover-se, mas um caso particularmente o emocionou, o de um homem que deixara a terra de Wann Diallo, a Guiné, em busca de tratamento para uma doença renal avançada e que morreu em Marrocos.

“Tentei o impossível por ele”, contou. “Consegui um quarto de hospital, assistência médica, tudo. Mas ele veio ao Marrocos para morrer”. Ainda conserva uma maleta com os pertences do homem: documentos, remédios, dois passaportes, uma carteira de motorista, pasta de dentes e uma escova. A família, explicou, não tinha dinheiro para pagar a remessa dos seus objetos pessoais. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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