Lynsey Addario para The New York Times
Lynsey Addario para The New York Times

Imigrantes apelam para estratégias mais arriscadas em meio a repressão na fronteira dos EUA

Parados em cidades violentas, imigrantes têm poucas opções

Caitlin Dickerson, The New York Times

04 de outubro de 2019 | 06h00

MATAMOROS, México - Com o olhar no Rio Grande, separada de Brownsville, Texas, somente por cerca de 30 metros de água corrente, Ana Galeano Valdez tentava convencer a si mesma a evitar uma decisão perigosa - algo que ela fez várias vezes nas semanas em que tem vivido em uma barraca em uma das cidades mais perigosas do México.

“Quando estou perto da fronteira e consigo vê-la, fico tentada a pensar que deveria nadar outra vez até o outro lado. Mas para quê?”, afirmou ela.

Uma mãe de 26 anos e sua criança pequena se afogaram recentemente tentando cruzar o rio em Matamoros - a segunda morte de uma criança acompanhada de um dos pais na região desde junho.

Quando Ana, grávida de seis meses, atravessou pela primeira vez, entrou água em seu bote, e ela afundou no rio até a altura do peito. Conseguiu chegar ao outro lado, mas foi mandada de volta ao México por autoridades americanas de imigração.

Milhares de imigrantes centro-americanos têm se aglomerado há meses em cidades mexicanas fronteiriças como Matamoros, impedidos de buscar asilo nos Estados Unidos. Em algumas localidades, enfrentam problemas comparáveis aos que fizeram com que muitos deles fugissem de seus países, incluindo sequestros, assassinatos e crimes sexuais, de acordo com um alerta aos viajantes emitido pelo Departamento de Estado americano.

 

Para os imigrantes, a perspectiva de conseguirem entrar foi de difícil a quase impossível no mês passado, quando a Suprema Corte americana permitiu que vigore a nova lei exigindo dos imigrantes que passaram por outros países antes de chegar aos EUA que provem a tentativa de pedir asilo e resposta negativa ao longo do caminho, antes que possam solicitar status de refugiados na fronteira.

Muitos imigrantes dizem que solicitar asilo em outros países lhes pareceu sem sentido. Países como Guatemala também podem ser perigosos e demoram anos para processar as solicitações em seus programas de asilo.

Alguns desistiram, aceitando o transporte grátis oferecido pelo governo americano e pela ONU.

Mas muitos outros em Matamoros afirmaram que o desespero os faz considerar a hipótese de cruzar a fronteira de maneiras potencialmente perigosas, que podem oferecer risco de vida - seja atravessando o rio ou se escondendo nos abafados e sufocantes caminhões conduzidos por traficantes de pessoas; ou de ambos os jeitos.

Ao longo dos últimos 18 meses, muitos dos imigrantes que têm atravessado procuram agentes da Patrulha de Fronteira para solicitar asilo. As novas políticas do governo Trump são em parte responsáveis pela redução drástica nesses números, mas também parecem ter feito as pessoas buscarem maneiras ainda mais clandestinas.

O número de imigrantes flagrados se escondendo dentro de caminhões na região da fronteira se elevou em 40% este ano, de acordo com a Patrulha de Fronteira.

Este ano, os agentes encontraram mais de 2.700 imigrantes em pequenos quartos de lares e hotéis, conhecidos como cativeiros, que são usados pelos traficantes para esconder as pessoas.

Ana é uma entre os cerca de 600 imigrantes que têm vivido em barracas doadas, com vista para o sul do Texas. Seus abrigos temporários se espalham por uma imunda praça de concreto, coberta de lixo e, em alguns pontos, de excrementos humanos. Alguns poucos banheiros químicos, que vivem repletos de moscas negras, foram instalados pelo governo mexicano.

“Não aguento mais ficar aqui no México”, afirmou Ana. Ela vem de El Salvador, onde, afirmou, vivia atemorizada pela violência e não conseguia encontrar trabalho havia seis anos.

Ela esperava conseguir se estabelecer nos EUA para depois se reunir aos outro quatro filhos, mas seu otimismo está desaparecendo. “Sinto que já estou ficando louca aqui”, disse ela.

Marisela Arely Ulloa Zelaya chorava enquanto abanava o filho Carlos, 7 anos, deitado na barraca que os abriga na praça. 

De acordo com a mãe, o apetite do menino começou a diminuir depois que a família foi detida por autoridades americanas de imigração, no Texas, em 1º de agosto. Cinco dias depois, foram liberados, e disseram a eles que retornassem em 6 de outubro.

A situação ficou ainda pior quando Carlos começou a vomitar e ter diarreia. O peso dele baixou para 14 quilos. Um farmacêutico sugeriu que Carlos fosse levado a um hospital, mas a família não podia pagar pelo tratamento. Eles retornaram à praça com um remédio receitado para a dor, de US$ 6, e Pedialyte.

Naquela noite, Glady Cañas Aguilar, uma assistente social mexicana, conversou com um por um no grupo, tentando desencorajá-los de tomar decisões perigosas.

“É uma questão de estresse, de desespero, porque não é agradável estar aqui”, disse ela. “Eles ficam frustrados, agitados, desconfiados. Esses são os sentimentos deste momento que estão vivendo.” 

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