Messinis/Agence France-Presse - Getty Images
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Antes receptivos, gregos se tornam hostis contra refugiados

Moradores de Lesbos impedem a entrada daqueles que chegam ao país pela fronteira com a Turquia

Matina Stevis-Gridneff, The New York Times

12 de março de 2020 | 06h00

EVROS, GRÉCIA - Os agricultores e pensionistas usavam roupas pretas e botas pesadas, imitando as forças especiais da Grécia, enquanto percorriam uma estrada durante uma patrulha noturna à procura de imigrantes que tentavam atravessar a fronteira terrestre do norte com a Turquia. "Vamos pegá-los na próxima vez!", eles gritaram para um pequeno grupo de homens que conseguiram correr e fugiram.

Trezentos e vinte quilômetros ao sul, na ilha fronteiriça de Lesbos, os moradores impediram que um bote cheio de imigrantes da Turquia, incluindo mulheres grávidas e crianças, desembarcassem em um píer. "Aqui não dá mais!", eles gritaram, além de outros xingamentos.

Uma coisa é clara ao longo da fronteira sinuosa da Grécia com a Turquia: não estamos mais em 2015. Naquele momento, enquanto grande parte da Europa se agitava com medo e raiva quando mais de um milhão de solicitantes de asilo chegaram de guerras distantes, os gregos ajudaram a resgatar refugiados no mar ou receberam com empatia aqueles que atravessavam o país a caminho do norte da Europa.

Os cidadãos da ilha de Lesbos foram até nomeados para o Prêmio Nobel da Paz. Agora, a reação da população é hostilidade explícita. Um novo governo grego de centro-direita suspendeu a aceitação de pedidos de asilo e prometeu expulsar aqueles que vierem para desencorajar os imigrantes. E cidadãos comuns, muitos dos quais estão fartos, decidiram tomar conta do assunto com as próprias mãos.

"Quando os sírios começaram a chegar há cinco anos, demos roupas, cozinhamos para eles e embalamos seus bebês", disse uma mulher chamada Fotini que mora no povoado de Moria, na fronteira com o notório campo de refugiados em Lesbos, onde mais de 15 mil imigrantes estão hospedado em instalações projetadas para apenas três mil.

"Cinco anos de solidariedade", acrescentou. "Não aguentamos mais. Queremos nossas vidas de volta." Para os gregos, a frustração é palpável. Agora, a Turquia, que abriga mais de três milhões de refugiados sírios, abriu as portas para milhares de imigrantes entrarem na Grécia, enquanto tenta pressionar a Europa por ajuda no conflito na Síria.

Ao contrário de 2015, essa crise assemelha-se muito mais a algo produzido do que a algo espontâneo, e muitos gregos não querem nada disso. O governo grego respondeu fechando as fronteiras, mobilizando o exército e estimulando uma retórica de guerra contra a Turquia, acusada de orquestrar uma invasão. Para os gregos, a crise dos imigrantes de cinco anos atrás ainda não terminou. Os problemas que sobrecarregaram o país persistiram e esgotaram quase todas as gotas de generosidade de um povo que se orgulhava de sua compaixão.

Os campos de refugiados em Lesbos e outras ilhas continuam a se expandir e a se deteriorar. Eles se espalharam pelas comunidades locais, que acham que receberam pouco apoio do governo ou da União Europeia. Relativamente poucos imigrantes foram transferidos para o continente e menos ainda foram transferidos da Grécia para aliviar o fardo. E não há resolução à vista.

Em vez disso, outros milhares continuaram a chegar, mesmo depois que a Turquia cortou o fluxo de solicitantes de asilo desesperados do Afeganistão, do Iraque e da Síria, como parte de um acordo com a União Europeia. Os moradores de Moria haviam se reunido em torno de um pequeno incêndio na beira da estrada, formando um bloqueio improvisado destinado a impedir que os imigrantes passassem por ali.

Em Lesbos, a reação tem sido violenta. Os moradores dali espancaram um fotojornalista alemão e um correspondente e agrediram um funcionário das Nações Unidas. Os trabalhadores humanitários foram expulsos da ilha, perseguidos de tal maneira que as organizações se viram obrigadas a retirar funcionários e voluntários preocupados com sua segurança.

Cenas semelhantes aconteceram na fronteira ao norte da Grécia com a Turquia. Embora o perímetro de quase 200 quilômetros de extensão seja fortemente vigiado pelo exército, os cidadãos gregos se sentem obrigados a proteger o território. Alguns dos grupos mais violentos pareciam ter sido mobilizados por representantes de extrema-direita conhecidos, mas era evidente que o movimento contra os imigrantes desfrutava de um apoio social mais amplo nas fronteiras.

Agricultores enfurecidos alinharam seus tratores e declararam que estavam prontos para lutar para proteger o país. Grécia e Turquia são membros da OTAN, mas mesmo nos melhores tempos, os vizinhos mantêm relações tensas e compartilham uma história de conflitos ao longo dos séculos.

O embate na fronteira tem sido violento. Migrantes e autoridades turcas disseram que pelo menos duas pessoas foram baleadas e mortas em 2 de março pelas forças gregas, que também usaram gás lacrimogêneo para encurralar os imigrantes e, assim, obrigá-los a voltar para a Turquia.

Em 4 de março, não houve sinal de nenhum novo bote com imigrantes chegando em Lesbos. "Desde que nos livramos das ONGs, não houve novos imigrantes", disse um homem. “Isso é uma coincidência? Não. É isso, estamos fartos e vamos retomar o controle. "/ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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