Rozette Rago para The New York Times
Rozette Rago para The New York Times

Imigrante supera dramas e se torna assessor financeiro de atletas

Humble Lukanga se formou em administração de empresas após conseguir asilo político nos Estados Unidos

Scott Cacciola, The New York Times

16 de maio de 2019 | 06h00

LOS ANGELES - Quando Humble Lukanga estudava Finanças na Universidade do Novo México, leu que inúmeros atletas profissionais chegavam falidos à aposentadoria. Lukanga tinha um conhecimento bastante escasso a respeito de jogadores avançados ou atacantes, porque passara sua infância em Uganda lutando apenas para sobreviver.

Mas sentiu que poderia relacionar-se com eles em um aspecto importante. “Eu não conseguiria imaginar como escapar da pobreza e depois voltar para trás”, afirmou. “Então fiquei obcecado por esta epidemia com a qual ninguém se importava”. A obsessão recentemente o ajudou a salvar da ruína o astro do basquete Lonzo Ball, dos Los Angeles Lakers.

No final do ano passado, Lukanga, já então assessor financeiro, cuidava da contabilidade de Ball quando deu falta de cerca de US$ 1,5 milhão do capital do atleta. Alertou Ball, que desde então processa Alan Foster, um sócio de negócios, por mais de US$ 2 milhões, em que este é acusado de ter embolsado dinheiro de Ball assim como uma fabricante de tênis da qual Ball foi um dos fundadores.

“Sem Humble, não sei onde eu estaria neste momento’, afirmou Ball. E acrescentou: “Ele é uma pessoa de grande honestidade, algo raro nos nossos dias”. Lukanga agora tem cerca de 40 clientes das áreas de esportes e entretenimento, e gere ativos por mais de US$ 120 milhões. Com o seu sorriso de menino, ele poderia passar por um adolescente. No entanto, considera-se mais velho do que a sua idade verdadeira, 33, ou pelo menos mais sábio. “Foram os anos em Uganda”, afirmou.

Ele descreveu a sua infância como uma época de “grandes dificuldades”. Enquanto Uganda estava às voltas com a mudança de regime e suas consequências terríveis, alguns membros da sua família foram assassinados, outros morreram por causa de doenças, contou. Seus pais viviam com medo.

Lukanga lembra do dia em que soube que a sua família havia conseguido asilo político nos Estados Unidos. Para um menino de 11 anos nascido em uma pequena aldeia, convivendo com os efeitos do genocídio e da miséria, convenceu-se de que se tratava de um milagre.

A família se estabeleceu em Denver, Colorado. A mãe de Lukanga, Sanyu, trabalhou como empregada doméstica, e o pai, Erisa, fazia a limpeza de uma cadeia de restaurantes à noite. Lukanga estava no colégio quando sua mãe teve um derrame que a deixou paralisada. O pai passou a cuidar dela de dia, e trabalhava à noite para conseguir pagar as contas. Lukanga decidiu ajudar.

Armado de utensílios de limpeza, só tinha uma coisa em mente: “A maldição da pobreza acabará comigo.” Enquanto estudava no colégio, a mãe morreu, e depois o pai sofreu um infarto fatal enquanto viajava para Uganda para enterrá-la. “Tudo se fecha ao seu redor”, contou Arian Foster, um ex-jogador profissional de futebol americano. “E ele continua perseverante”.

Depois de conseguir formar-se em administração de empresas, no Novo México, Lukanga entrou em uma instituição financeira em Nova York. Foster foi um dos seus primeiros clientes. Não era rico e lembra de um dos primeiros telefonemas que recebeu de Lukanga: “Você gastou US$ 37 no Applebee’s?” gritou Lukanga. “O que você pensa que é, cara?”

Mais tarde, Lukanga saiu da firma para abrir uma empresa própria, a Life Line Financial Group. Hoje, ele se considera  mais um consultor de bem-estar do que um assessor financeiro. Os hábitos de gastos, afirma, são um reflexo dos valores pessoais de um indivíduo. Lukanga diz que dedica cada dia a alguém que não está mais aqui. Muitas vezes pensa no pai. “Acho que grande parte da minha paz maior vem do fato de saber que eu represento o seu maior sonho”, afirma.

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