Minzayar Oo para The New York Times
Minzayar Oo para The New York Times

Trajeto de imigrantes do Vietnã para a Europa envolve ameaças e violência

Estima-se que, todos os anos, 18 mil vietnamitas paguem a traficantes de pessoas valores que variam entre US$ 10 mil a US$ 50 mil pela travessia até a Europa

Benjamin Mueller, The New York Times

15 de novembro de 2019 | 06h00

LONDRES - Vietnamitas traficantes de pessoas a chamam de rota “CO2”: uma viagem mal ventilada e escassa em oxigênio através do Canal da Mancha dentro de contêineres ou carrocerias de caminhão, a última parte do perigoso caminho de 9,7 mil quilômetros entre a Ásia e a Europa Ocidental. Essa jornada se provou fatal no mês passado para 39 pessoas, que foram encontradas mortas em uma carroceria de caminhão frigorífico em Essex, no sudeste da Inglaterra. A polícia de Essex disse acreditar que se tratava de vietnamitas.

Por mais perigosa que a última perna da jornada dos que imigram para a Grã-Bretanha frequentemente possa ser, às vezes as apavorantes horas em uma carroceria de caminhão são somente uma pequena gota em meio aos meses, senão anos, de tratamento cruel e violento - primeiramente nas mãos de quadrilhas organizadas de tráfico de pessoas e depois sob o jugo de chefes mandões em salões de manicure e centros de produção de cannabis na Grã-Bretanha.

Mas eles continuam vindo. Estima-se que, todos os anos, 18 mil vietnamitas paguem a traficantes de pessoas valores que variam entre oito mil e 40 mil libras, cerca de US$ 10 mil a US$ 50 mil, pela jornada até a Europa. Na Grã-Bretanha, onde o Brexit tem desestimulado o fluxo de trabalhadores do Leste Europeu, os imigrantes veem um país sedento por empregados com baixos salários, que são equivalentes a pelo menos cinco vezes o que eles ganhariam em sua terra natal.

Em sua maioria, os vietnamitas traficantes de pessoas arrumam seus clientes entre França e Holanda, onde as quadrilhas, frequentemente de curdos e albaneses - ou, como nesse caso recente, de irlandeses ou norte-irlandeses - finalizam o trabalho. Muitos imigrantes vêm de Ha Tihn e Nghe An, duas empobrecidas províncias no centro-norte do Vietnã, com os olhos bem abertos para os riscos, afirmam analistas. Eles buscam dar uma sensação de segurança às suas famílias, custe o que custar.

Mas, quando a Grã-Bretanha falha em lhes cumprir essa promessa, os imigrantes podem acabar num trágico limbo, impedidos de buscar ajuda pelo rigoroso sistema de imigração do país, e caindo nas mãos de um obscuro sistema de traficantes de pessoas e empregadores que dependem deles.

“Sempre os encorajo a ficar em seu país”, afirmou o reverendo Simon Thang Duc Nguyen, pároco de uma igreja católica no leste de Londres frequentada por muitos fiéis imigrantes. “Mesmo que você seja pobre, lá você tem a sua vida. Aqui, você tem dinheiro, mas você perde a sua vida.”

A odisseia pode começar com uma viagem à China, para obter documentos de viagem falsificados. Foi dessa maneira que muitas das dezenas de pessoas que morreram no caminhão iniciaram sua jornada, afirmou o reverendo Anthony Dang Huu Nam, um sacerdote católico da cidade de Yen Thanh, onde, segundo ele, dezenas das vítimas nasceram.

A viagem pode levar meses ou mesmo anos. Nguyen Dinh Luong, de 20 anos, um dos imigrantes que, acredita-se, morreu no mês passado, queria ir à França para encontrar trabalho e sustentar seus irmãos (sete, no total) afirmou seu pai, Nguyen Dinh Gia. Mas quando estava na Rússia, seu visto de turista expirou, e ele acabou confinado em casa por seis meses. Depois, ele se mudou para a Ucrânia e, finalmente, para a França, onde encontrou trabalho de garçom, antes de decidir ir para a Grã-Bretanha trabalhar em um salão de manicure. 

As viagens frequentemente são interrompidas quando os imigrantes são detidos ou ficam sem dinheiro. Alguns deles se veem forçados a trabalhar no meio do caminho, em confecções na Rússia ou em restaurantes por toda a Europa, afirmam pesquisadores. E, quando chegam à Grã-Bretanha, eles frequentemente enfrentam um duro despertar.

Sulaiha Ali, uma advogada especializada em direitos humanos, afirmou que os imigrantes têm às vezes promessas de obter trabalho legalizado em um restaurante ou no setor da construção, mas acabam forçados a trabalhar como “jardineiros” em operações ilegais de cultivo de cannabis. Nos salões de manicure, onde muitos vietnamitas conseguem trabalho, os chefes conseguem controlar todos os aspectos das vidas de seus trabalhadores, um poder que pode gerar exploração.

Quando a polícia faz incursões em lugares que abrigam imigrantes, os agentes frequentemente ignoram os sinais de trabalho forçado ou tráfico de pessoas e encaminham os imigrantes para os procedimentos de deportação em vez de investigar os crimes, afirmam ativistas.

“Assim que fica claro que alguém não possui documentos de identificação, a ênfase não é mais tentar descobrir se essa pessoa está sendo explorada”, afirmou Ali. “A preocupação parece ser: ‘Conseguimos justificar a detenção? Conseguimos mandá-los de volta aos seus países?’” O padre Simon, que deixou o Vietnã em 1984, disse que tem recebido telefonemas de famílias vietnamitas querendo saber se ele poderia lhes informar se seus filhos estavam naquela carroceria de caminhão.

“Mães, pais, todos ligam para mim aos prantos”, afirmou ele. “Eu não podia suportar ouvir essas palavras. É necessário pegar muito dinheiro emprestado para fazer essa viagem, e eles tinham esperança de que suas filhas, seus filhos poderiam ser bem-sucedidos e teriam algum dinheiro para pagar essa dívida. Agora, não há esperança - não há nada.” “Nada está bem enquanto estiverem detidos ou presos. Estaria bem se eles tivessem sobrevivido. Mas agora eles perderam tudo. Perderam a esperança e as vidas. Não sobrou nada.” Sui-Lee colaborou com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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