Laura Boushnak / The New York Times
Laura Boushnak / The New York Times

Encalhados em Samos, imigrantes aguardam asilo na Grécia

Cerca de 6.800 solicitantes de asilo estão amontoados em um acampamento na ilha; eles enfrentam a disfunção do governo grego, a indiferença da União Europeia e o caos do Oriente Médio

Jason Horowitz, The New York Times

14 de fevereiro de 2020 | 06h00

SAMOS, GRÉCIA — No aclive de uma colina em Samos, ilha conhecida por suas ruínas da antiguidade, os vilarejos de pescadores e o vinho, além de ter entre seus filhos a deusa Hera e o filósofo Epicuro, há um acampamento de imigrantes considerado por muitos como a pior cidade de barracas da Europa.

O advogado Giannis Meletiou, de 60 anos, vive no pé da colina. Outro dia, levou um casal de carro subindo algumas centenas de metros por uma tortuosa estrada repleta de barracas em ambos os lados. Acenou para crianças, que o reconheceram porque frequentemente lhes oferece sanduíches. Então passou pelo acampamento de imigrantes e chegou a um trecho da estrada em que as árvores estavam nuas, pois os imigrantes levaram todos os galhos para ter alguma lenha.

Chegou até a antiga propriedade de sua família, com vista para o mar e as montanhas cobertas de neve, e subiu em um retângulo de pedra. Era tudo que restava do lar onde seus pais se abrigaram durante a 2.ª Guerra Mundial. Os imigrantes levaram as paredes, janelas, portas e o telhado. “Tudo", enfatizou ele, dando de ombros.

Cerca de 6.800 solicitantes de asilo estão amontoados no acampamento, lutando contra a natureza na colina. Abaixo deles há uma simpática cidade portuária de aproximadamente 6.200 habitantes. Juntos, enfrentam o golpe de forças além do seu controle — a disfunção do governo grego, a indiferença da União Europeia, o caos do Oriente Médio e as jogadas geopolíticas da Turquia.

Os imigrantes estão essencialmente encalhados aqui, esperando aprovação para viajar até a Grécia continental e iniciar a vida de asilado. Mas, no continente, poucos os querem. Os outros governos europeus praticamente fecharam suas portas.

As famílias que vivem perto da colina se queixam dizendo que seu modo de vida está sob sítio: tudo que é deixado fora de casa desaparece. Lares de veraneio foram invadidos, perdendo cobertores, colchões e panelas. Houve um caso em que os imigrantes removeram o assoalho de madeira do segundo andar de uma casa.

Muitos na cidade se comovem com o drama dos imigrantes. O prefeito, Georgios Stantzos, atuou como voluntário no resgate de solicitantes de asilo e recuperação de corpos no auge da crise, em 2015. Mas, recentemente, Stantzos foi visto em um vídeo gritando com imigrantes que vagavam perto da praça principal. Ele pediu desculpas, mas disse que o vídeo não mostrava a massa de imigrantes que invadiram a praça durante uma celebração infantil de Natal, o que teria motivado a explosão dele.

Stantzos disse ter pedido ao governo grego que enviasse ajuda quando o campo foi tomado por revoltas que ameaçavam afastar os turistas de uma ilha que depende deles. Mas chegou à conclusão que o governo estava “sacrificando" a ilha dele e outras, incluindo Lesbos, onde recentemente a polícia atirou gás lacrimogêneo em imigrantes que protestavam contra as péssimas condições de vida.

Do lado de fora da prefeitura de Samos, os solicitantes de asilo passeavam com as crianças e pescavam no porto. Outros vinham conversar por vídeo com suas famílias para que essas não vissem suas péssimas condições de vida.

O campo foi construído para abrigar 648 pessoas, mas, atualmente, mais de três mil moram ali. Quase nenhuma recebeu a visita de um médico. Em um dia recente, adolescentes sírios remendavam com fita os rasgos em sua barraca, feitos por ladrões. Uma afegã limpava panelas com metade de uma esponja e uma gota de xampu. Quem mora no campo vive melhor do que quem está nas barracas.

“Muitas pessoas já vieram, sou em quem está aqui há mais tempo", disse o afegão Ashaq Hossein, de 25 anos, que evitou o campo superlotado quando chegou. Sua documentação, com data de 3 de agosto de 2017, é pouco promissora. As autoridades dão prioridade ao processamento de certos casos, como o dos sírios, enquanto outros parecem esquecidos. Um alto-falante anunciava os nomes para entrevistas de saída. “Já perdi a esperança de ouvir meu nome ser chamado", afirmou Hossein.

Os solicitantes de asilo aproveitaram um hiato no clima frio para lavar roupas, tomar banho e encher recipientes com água potável. Os homens buscavam lenha.

Há quase duas mil crianças na colina, incluindo 351 menores desacompanhados. Cerca de 580 das crianças são pequenas ou bebês. Apenas cerca de 40 crianças frequentavam a escola formalmente.

Stantzos disse que o governo prometeu a ele que o campo em Samos seria fechado, conquistando o relutante apoio dele para a abertura de um novo campo para 1.500 imigrantes a cinco quilômetros do litoral. Então, ficou sabendo que a instalação seria construída para sete mil imigrantes. Suspeita-se que o número pode chegar a 15 mil. “Sinto que fui traído", disse o prefeito.

Os imigrantes disseram que desejam apenas sair da ilha. Depois de meses de espera, o médico sírio Mara Shahir, de 67 anos, e a maior parte da família dele receberam vaga em uma balsa com destino ao continente. Muitos foram transferidos para Ritsona, um campo nos arredores de Atenas onde as condições são melhores.

Herutier Icapesa Matinda, de 29 anos, do Congo, já tinha viajado de Samos até o campo, celebrando ao ensinar às crianças sírias uma canção com coreografia. “Ritsona?” era a deixa de Matinda. “Bom", respondiam as crianças, cantando. “Samos?”, questionou ele. “Mau", responderam novamente as crianças. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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