Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

Imigrantes aumentam na Bósnia e enfrentam problemas no país

Frio do inverno e ação da polícia croata frustram refugiados

Andrew Higgins, The New York Times

20 Dezembro 2018 | 06h00

BIHAC, BÓSNIA E HERZEGOVINA - O braço direito estava inchado e bastante machucado. Mancava ao andar por causa de ferimentos nas pernas, causados pelos cassetetes da polícia croata, como outros ferimentos no seu corpo. Com a expressão contraída pela dor e exaustão ao voltar para a Bósnia em novembro depois de outra tentativa fracassada de cruzar a fronteira com a Croácia e entrar na União Europeia, o indiano Aman Mutani, 23 anos, murmurou as palavras que os líderes europeus de hoje mais desejam ouvir. “Não há esperança", disse ele, com os olhos cheios de lágrimas de desespero e vergonha. “Voltarei para casa.”

A Croácia negou relatos de brutalidade. Mas, com a ascensão de populistas contrários à imigração em toda a Europa, e até a chanceler alemã, Angela Merkel, recuando de sua política de portas abertas, a luta do continente para conciliar realidade política e compaixão humana diante dos desesperados chegou ao fim nas florestas que cobrem as colinas na fronteira noroeste da Bósnia com a Croácia.

Mutani e milhares de outros chegaram à Bósnia vindos principalmente da Sérvia, que não requer visto para a entrada de indianos e, até recentemente, iranianos. A Sérvia tem sido o principal ponto de entrada na UE para os imigrantes e refugiados que percorrem a rota balcânica, passando pela Grécia e a ex-Iugoslávia. Mas a fronteira norte da Sérvia com a Hungria se encontra fechada com uma cerca desde 2015, e a fronteira noroeste, com a Croácia, também está fechada, desviando o tráfego para a Bósnia.

Como a Sérvia, a Bósnia fica fora da UE, e registrou a entrada de mais de 23 mil refugiados e imigrantes, muitos deles homens solteiros vindos do Paquistão e do Afeganistão - no ano anterior foram 758. Muitos levaram meses ou até anos para chegar ali, e agora devem escolher entre o risco da travessia clandestina para a Croácia, acampar na cidade de Bihac e outro município da fronteira, ou desistir e voltar para casa.

Com a aproximação do frio e da neve do inverno, funcionários das organizações humanitárias alertam para o risco ao qual os imigrantes estão expostos, podendo até morrer. Ao menos 700 pessoas relataram episódios de “violência e roubo cometidos por policiais” durante a expulsão da Croácia, disse o comissário de direitos humanos do Conselho Europeu.

Embora negue o uso da força por parte do policiamento na fronteira, o ministro do interior da Croácia, Davor Bozinovic, disse numa carta em outubro endereçada ao Conselho Europeu que a Ue tinha orientado seus países membros a “adotar internamente todas as medidas legislativas e administrativas necessárias para limitar esses movimentos".

“Na maioria dos casos, não se trata de refugiados em busca de proteção internacional, mas de imigrantes econômicos". O grande objetivo da Europa é reduzir esses números. A agência de fronteiras do bloco, Frontex, relatou em novembro que “2018 deve ser o ano com o menor número de travessias ilegais de fronteiras desde 2013".

Depois de perder seu dinheiro e o celular para a polícia croata e ter seu passaporte roubado por um contrabandista, Mutani disse ter decidido pedir ao gabinete bósnio das Nações Unidas que o ajude a voltar para casa, no vilarejo de Kashipur, área empobrecida do leste da Índia. “Desisto", resmungou ele. “Não há humanidade aqui.”

A Croácia pressiona para ser admitida na zona de Schengen da UE, sem fronteiras, e é pressionada por Bruxelas a mostrar sua capacidade de manter as fronteiras nacionais em segurança. Mas o clima cada vez mais hostil na Bósnia e o medo da violência policial ao atravessar a fronteira para a Croácia pouco fizeram para limitar o que os imigrantes em Bihac chamam de “o jogo", uma investida diária e cada vez mais perigosa rumo à Croácia atravessando montanhas que ficam a menos de um quilômetro do centro da cidade.

“É minha última chance", disse o paquistanês Faraz Khan, 26 anos, que contou já ter tentado quatro vezes a travessia para a Croácia, sendo espancado e roubado duas vezes por policiais. A congolesa Julie Meya, 33 anos, era a única mulher entre os 800 imigrantes dormindo no chão sujo de concreto de um abrigo. Julie sonha em chegar à França, dizendo não haver futuro para ela nas favelas de Kinshasa, capital do seu país. “Por que os ricos permanecem ricos e os pobres têm de permanecer pobres?”, indagou ela.

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