Megan Dhaliwal para The New York Times
Megan Dhaliwal para The New York Times

Imigrantes da América Central buscam refúgio na Europa

Número de centro-americanos em busca de asilo na Europa aumentou quase 4.000 % nos últimos dez anos

Melissa Vida, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2019 | 06h00

BRUXELAS - Para María Marroquín, a vida em El Salvador acabou se tornando intolerável. Gangues que extorquiam dinheiro matavam os comerciantes no mercado onde ela trabalhava. Ela temia pela vida do filho, David, de 28 anos, depois que um primo foi sequestrado e nunca foi encontrado. Por isso, no ano passado, María, 53, decidiu deixar o país. Em vez de se integrar nas caravanas de dezenas de milhares de pessoas que rumavam para o norte na esperança de chegar aos Estados Unidos e buscar trabalho lá, ela foi para a Europa.

“Ir para os Estados Unidos seria loucura agora”, afirmou, referindo-se ao endurecimento das medidas impostas à imigração pelo governo do presidente Donald Trump. O número de centro-americanos em busca de asilo na Europa aumentou quase 4.000 % nos últimos dez anos, segundo dados oficiais, e a taxa de chegadas está acelerando. Cerca de 7.800 solicitaram asilo no ano passado, em comparação com 4.835 em 2017.

Muitos acharam mais segura a viagem para a Europa e muito menos cara do que pagar os contrabandistas para chegar aos Estados Unidos passando pelo México. María tem outro filho na Bélgica, que preparou a papelada para que ela e a família entrassem como turistas. Ela pegou um avião para Bruxelas, e ao chegar, imediatamente solicitou asilo.

A Espanha é a primeira opção para muitos centro-americanos, por causa da língua, das relações com amigos e familiares e pelas oportunidades de trabalho na economia informal. Segundo Alejandro Hernández, 25, um salvadorenho que buscou asilo na Espanha, passar pelo México teria sido um péssimo investimento.

“Pessoas da minha família pagaram US$ 8 mil para os contrabandistas”, afirmou. “Algumas chegaram a fazer quatro tentativas para entrar nos EUA e não conseguiram”. Ele também se referiu a outras dificuldades encontradas na viagem: a fadiga, a fome e a sede; o crime organizado no México, e a política da imigração do governo Trump.

A viagem de Hernández para a Espanha custou US$ 2 mil: o preço de uma passagem de avião e uma reserva de hotel, para mostrar às autoridades que ele estava ali como turista. Ele pediu asilo em março de 2018, mas poderá levar anos para obter uma resposta do governo espanhol, que recebe um volume enorme de pedidos. No meio tempo, ele trabalha em granjas de criação de suínos perto de Barcelona.

Calcula-se que na Espanha haja 8 mil casos de asilo pendentes apresentados por centro-americanos. Pelos dados da Eurostat, o país concedeu o asilo a menos de 15 hondurenhos ou salvadorenhos em 2018, e a um total de 30 no primeiro trimestre de 2019. O Escritório de Asilo e de Refugiados da Espanha informou que a maior parte das solicitações se baseia na ameaça da violência de gangues. Mas raramente a Espanha reconhece a violência das gangues como um motivo para a concessão do asilo.

A Bélgica, país onde este tipo de ameaça é reconhecido como uma razão para a concessão do asilo, tornou-se um destino atraente para os imigrantes vindos desta região das Américas; 244 apresentaram suas solicitações nos quatro primeiros meses deste ano.”Nós temos um sistema sólido: concedemos a condição de asilados e a proteção aos que precisam dela, independentemente de outros fatores, embora saibamos que isto poderá atrair mais migrantes”, afirmou Dirk Van den Bulck, comissário para refugiados e pessoas apátridas da Bélgica.

As autoridades belgas concederam a condição de refugiados a 281 dos 288 salvadorenhos cujos casos foram processados no ano passado, segundo estatísticas do governo. Em sua maioria, os centro-americanos que se dirigem à Europa, entretanto, não pedem a proteção do asilo, mas permanecem no país depois que o visto de turista expirou, em geral na Espanha ou na Itália. Alguns calculam que o número de imigrantes que utilizam este recurso supera em muitos milhares o dos que solicitam a permanência pelas vias oficiais.

“Por enquanto, a América central não é uma região que desperta grandes preocupações, mas o aumento do número de pessoas que buscam o asilo já foi assinalado,” afirmou Anis Cassar, porta-voz do Escritório Europeu de Apoio ao Asilo, uma agência da União Europeia. “Está no radar”. María Marroquin disse que a maior parte dos seus familiares mora nos Estados Unidos, mas ela está feliz de estar na Bélgica. “Muitos outros começarão a vir para cá”, afirmou. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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