Mauricio Lima para The New York Times
Mauricio Lima para The New York Times

Imigrantes dão vida nova ao críquete em terras francesas

Jogadores afegãos e paquistaneses esperam que o esporte os ajude a ganhar aceitação e a reconstruir suas vidas

Elian Peltier, The New York Times

10 Novembro 2018 | 06h00

ST.- OMER, FRANÇA - Os jogadores comemoraram sua segunda vitória em um campeonato regional de críquete com danças e gritaria em pachto. No Afeganistão ou no Paquistão seria uma cena familiar, mas no norte da França, nem tanto.

O St.- Omer Cricket Club Stars, conhecido como Soccs, acabava de ganhar em seu próprio campo, perto de um pasto. Para seu capitão, Javed Ahmadzai, o triunfo mais doce estava em outro lugar.

"A maior vitória está fora do campo", afirmou Ahmadzai, 32, que chegou do Afeganistão em 2005. "Quando ensinamos críquete às crianças nas escolas locais, elas não nos deixam ir embora, ou falam para a mãe ou para o pai: 'Está vendo, os imigrantes não são todos maus'".

A introdução do críquete em St.-Omer é algo que vai além do esporte em si para Ahmadzai e seus companheiros de equipe. É uma oportunidade de se integrarem à comunidade. O que nem sempre tem sido fácil.

Durante a crise europeia da migração de 2015, os refugiados que esperavam chegar à Grã-Bretanha reuniram-se em esquálidos campos no norte da França e passaram a viver em condições pavorosas, em lugares como a "Selva", em Calais, menos de 50 quilômetros ao norte de St.-omer.

Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita, contrário à imigração na França e à época candidata à presidência, afirmou que o país havia sido abalado por uma "imigração em massa" e frequentemente referia-se aos campos em seus ataques.

No primeiro turno das eleições presidenciais no ano passado, Marine recebeu mais votos dos moradores de St.-Omer do que outros candidatos. No entanto, dois anos depois de o governo desocupar a Selva, em outubro de 2016, as incursões policiais tornaram-se mais frequentes nos campos de imigrantes, e as vidas de muitos deles pareciam aprisionadas no limbo. Desde então, o número de migrantes na região de Calais caiu de 8 mil para 400. Muitos decidiram permanecer em St.-Omer.

Eles estudam, trabalham ou procuram emprego e, no caso de alguns jogadores do Soccs, esperam que seu esporte os ajude a se estabelecer na cidade de 16 mil habitantes. St.-Omer abriga mais de 5.600 desde 2015, a maioria deles em um centro para refugiados menores de idade.

"Sempre que jovens afegãos chegam a St.-Omer, uma das primeiras coisas que eles perguntam é onde podem jogar críquete", disse Jean-François Roger, diretor regional da France Terre d'Asile, uma organização de ajuda a refugiados. "O Soccs oferece a estes jovens uma estrutura, ajudando-os a ir em frente e a construir alguma coisa aqui".

A França não é conhecida exatamente pelo críquete, um esporte jogado primeiramente no antigo Império Britânico, com 1.800 jogadores em cerca de 50 clubes franceses, em comparação aos 2,2 milhões de jogadores de futebol registrados. Entretanto, o número de times no norte da França cresceu de dois para nove.

O Soccs é um deles. No verão de 2016, Ahmadzai e outros afegãos estavam jogando críquete com uma bola feita por eles mesmos em um parque público de St.-Omer quando um homem de negócios que estava correndo ali perto, Christophe Silvie, parou para perguntar sobre aquele esporte. Meses mais tarde, Silvie e Ahmadzai fundaram o clube com outro voluntário vizinho. Hoje, cerca de 30 jogadores do St.-Omer e das áreas próximas, entre 15 e 33 anos, ajudaram a transformar a cidade em um centro de excelência do críquete.

Mas os jogadores do Soccs enfrentaram resistência. Mensagens xenofóbicas começam a pipocar nas redes sociais quando o prefeito da cidade disse que o clube poderia construir um campo de críquete em uma área não utilizada fora da cidade. Alguns posts ameaçaram danificar o local e outros espalharam o boato de que ali seria construída uma mesquita.

O prefeito diz que os esforços para ajudar os refugiados a se estabelecerem "na cidade e na escala mais adequada" por meio de iniciativas como os esportes poderiam ajudar a combater muitos preconceitos.

Entretanto, o clube ainda não dispõe dos recursos e dos voluntários de que necessitaria para jogar na liga nacional de críquete da França, como suas vitórias no nível regional permitiriam que jogasse. Mas, segundo integrantes do time, o mais crucial é, talvez, a necessidade de atrair jogadores locais. Somente um dos 30 jogadores nasceu na França.

"Não podemos jogar somente entre estrangeiros, precisamos de novos recrutas franceses", disse Tazim Abbas, um jogador do Paquistão. "De outro modo, quem manterá o time funcionando quando eu tiver um emprego e uma vida aqui?!".

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