Emily Kask para The New York Times
Emily Kask para The New York Times

Imigrantes hispânicos detidos no governo Trump são substituídos por trabalhadores negros

Em granjas industriais no Mississippi, detenção de imigrantes ilegais abriu vagas para trabalhadores negros da região

Richard Fausset, The New York Times

10 de janeiro de 2020 | 06h00

MORTON, MISSISSIPPI - Juan Grant entrou na instalação de processamento de frangos da Koch Foods para começar no novo emprego em uma manhã de quarta feira, onde encontrou muitos outros americanos negros em uma "procissão" de botas de borracha e redes para cabelo.

Aos 20 anos, Grant era jovem demais para lembrar da época em que a mão de obra na indústria do frango do Mississippi era quase exclusivamente branca, nem dos boicotes e protestos da campanha de direitos civis que se seguiu. Era jovem demais para ter visto os trabalhadores brancos abandonarem a tarefa de abater, fatiar e embalar para os americanos negros. Não conheceu a época antes da chegada dos hispânicos, aos milhares, recrutados por granjeiros em busca de mão de obra barata para uma indústria em expansão.

Grant se lembra do dia 7 de agosto, quando o governo Trump organizou amplas operações de combate à imigração em sete granjas industriais do Mississippi. Lembra da notícia que recebeu pelo celular: 680 trabalhadores hispânicos detidos. “Imaginei que haveria empregos", disse ele.

As fiscalizações foram uma concretização parcial da promessa do presidente Donald Trump de remover do país milhões de trabalhadores sem documentos. Para os não imigrantes, as consequências os levaram a um cálculo: as operações policiais produziam sofrimento, mas também abriam vagas de trabalho. Alguns acreditam que os imigrantes ilegais merecem o tratamento.

“Se você está onde não deveria, eles virão te pegar", disse um operário chamado Jamaal, que não quis informar o sobrenome. “É assim que deve ser.” Mas havia também Shelonda Davis, 35 anos, veterana de 17 anos na granja industrial, durante os quais acompanhou a ida e vinda de muitos trabalhadores dos perfis mais variados. Ficou horrorizada ao ver tantos colegas hispânicos sendo apreendidos. 

De acordo com ela, alguns precisavam tanto do trabalho que tentaram voltar. “Fico feliz de ver minha comunidade trabalhando", disse ela sobre os demais americanos negros. “Mas esse ataque desproporcional aos hispânicos… é como se eles tivessem cometido algum assassinato. Estavam apenas trabalhando, sabe?”

Alguns substitutos sofreram crises de consciência. Se a operação de apreensão “devolveu os empregos aos americanos", disse Cortez McClinton, 38 anos, ex-operário da construção civil que foi contratado na granja horas após as fiscalizações, “a forma de lidar com os imigrantes continua separando as crianças de suas famílias".

Devontae Skinner, 21 anos, denunciou as detenções enquanto encerrava o turno da noite. “Todo mundo precisa de um emprego", disse ele. “Todos precisam trabalhar e alimentar suas famílias.” E havia também Grant, que concluiu o ensino médio há apenas dois anos. Ele disse que era ótimo ganhar US$ 11,23 por hora, mesmo se o trabalho envolvesse eviscerar carcaças em uma esteira aparentemente interminável. 

Ele disse que era um ganho de aproximadamente US$ 4 em relação ao que ganhava na fábrica de biscoitos. Mas ele também descreveu as operações como “cruéis". Havia momentos em que as tripas, os pescoços e a culpa se misturavam a ponto de ele se indagar se continuaria no emprego. 

“É como se eu tivesse roubado (o emprego) de alguém", disse ele. Um estudo de 2016 revelou que a imigração tinha “pouco impacto de longo prazo” nos salários. Mas alguns se perguntam se o trabalhador hispânico teria substituído o operário negro na multibilionária indústria do frango no Mississippi.

De acordo com Angela Stuesse, professora-assistente de antropologia da Universidade da Carolina do Norte, alguns trabalhadores negros do Mississippi buscaram oportunidades de emprego menos perigosas nos setores do varejo, fast food, construção civil e autopeças.

Ainda assim, boa parte da indignação diante das detenções veio da comunidade negra do Mississippi. A defensora dos direitos civis Constance Slaughter-Harvey as descreveu como “operação digna da Gestapo". A granja industrial da Koch Foods fica no coração da comunidade rural de Morton, com aproximadamente 3,6 mil moradores, dos quais aproximadamente um quarto é de hispânicos. Vê-se algumas lanchonetes de fast food, trailers e ranchos, e muitos mercados. Hoje, o futuro dos trabalhadores hispânicos e suas famílias pesa na atmosfera local.

Em uma igreja de Forest que funciona como centro de resposta a crises, Victoriano Simon-Gomez, 32 anos, analisava sua papelada. Ele disse ter uma filha deficiente e se preocupava em arrumar alguém para cuidar dela se fosse obrigado a voltar à Guatemala. Uma mãe guatemalteca chamada Eva, 31 anos, esperava para receber o almoço doado. Disse que lutaria para permanecer nos EUA com os filhos, de 13 e 9 anos, ambos cidadãos americanos. Mas ela não via com maus olhos as pessoas que assumiam os empregos vagos.

Marquese Parks, que trabalha para uma agência de empregos que ajudou a Koch a encontrar novos funcionários, disse que os candidatos em potencial estavam sujeitos a uma série de rigorosas verificações de antecedentes. Parks, que é negro e vive em Morton, disse que nunca quis trabalhar na granja.

Cursou a universidade, mas acabou envolvido na indústria do frango mesmo assim. Disse não saber quanto tempo os novos recrutas vão durar no emprego. “Sinceramente, não acho que muitos permanecerão, simplesmente porque o trabalho é difícil", disse Parks, 28 anos. “É algo que eles não imaginaram fazer quando estavam crescendo. Um trabalho que ninguém quer.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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