Todd Heisler/The New York Times
Todd Heisler/The New York Times

Imigrantes enfrentam dura realidade para chegar nos Estados Unidos

Agências de imigração têm confiado em organizações sem fins lucrativos e voluntários para ajudar

Miriam Jordan, The New York Times

09 de junho de 2019 | 06h00

DALLAS, TEXAS - Quando chegou a Dallas, Texas, o ônibus vindo do Arizona estava com duas horas e 47 minutos de atraso. Tinha saído de Phoenix já lotado, recusando a entrada de passageiros que já tinham comprado passagem em Tucson, passando por El Paso, Texas, às duas da madrugada, e finalmente descarregando seus passageiros - imigrantes exaustos, a maioria vinda da América Central - pouco antes do crepúsculo no dia seguinte.

Uma placa no terminal rodoviário da empresa Greyhound indicava as rotas em funcionamento que já estavam acumulando atrasos. Todas demorariam mais do que o esperado; a maioria estava lotada. Um agente anunciou que aqueles que perderam suas conexões teriam de esperar na fila, e os passageiros (muitos deles sem dinheiro, nem comida, nem pertences além de suas mochilas meio vazias) escutavam as instruções em silêncio, estupefatos.

“Meu Deus, teremos que passar duas noites aqui", murmurou Zuleima Lopez, 37 anos, recém-chegada da Guatemala com o marido e os três filhos, enquanto percorria com os olhos o deprimente panorama interno do terminal. As latas de lixo estavam lotadas, e um fedor marcante emanava dos banheiros. Mães, pais e crianças se aglomeravam sobre pedaços de papelão, cobertores imundos e casacos amassados.

Em uma das extremidades do terminal, vários passageiros disputavam vales-refeição de US$ 7,50 - sendo que o lanche mais barato disponível custava US$ 0,19 a mais do que esse valor - até que, com a fila pela metade, os papéis do agente acabaram. Ao longo da fronteira e no interior profundo dos Estados Unidos, os ônibus da Greyhound que percorrem o sistema de rodovias interestaduais se tornaram um elemento essencial em uma nova e extraordinária imigração.

Chegando aos milhares todos os dias, imigrantes da Guatemala, Honduras e El Salvador estão lotando os ônibus que partem das cidades fronteiriças. Todos os dias eles saem com destino a cidades de todo o país: Atlanta, Orlando, Richmond, Nova York, Los Angeles e Seattle.

Após um período inicial de aproximadamente 72 horas nos centros de processamento da Proteção Alfandegária e de Fronteira ao longo da divisa nacional, a grande maioria daqueles que entram no país são agora liberados sob custódia de centros de alívio sem fins lucrativos, onde recebem alimento e roupas. Dali, são colocados em ônibus da Greyhound com destino a lugares onde possam encontrar amigos, parentes ou a esperança de um emprego. Eles pagam caro, normalmente algo entre US$ 250 e US$ 300, geralmente adiantados por seus parentes nos EUA.

Longas filas de imigrantes cansados se tornaram uma cena comum nos terminais de ônibus do sudoeste americano - e uma nova e substancial fonte de renda para a empresa Greyhound, que passava por dificuldades. O termina da Greyhound em Dallas, sede da empresa, foi transformado na prática em um abrigo temporário para imigrantes.

Em McAllen, Texas, um dos pontos de travessia da fronteira mais movimentados, centenas de imigrantes lotam a estação diariamente, formando filas para embarcar nos ônibus. Em El Paso, centenas deles apareceram no terminal de uma vez, sem aviso, tentando encontrar uma forma de seguir viagem.

Zuleima Lopez e a família tinham viajado de ônibus por boa parte do caminho desde a Guatemala até atravessar o México, cruzando a fronteira americana com a ajuda de um contrabandista, mas nada os preparou para a nova jornada que teriam de enfrentar passando por Arizona, Novo México, Texas, Arkansas e Tennessee.

No terminal de Dallas, os imigrantes eram colocados em intermináveis fileiras de bancos lotados e sentavam-se no chão sujo. Zuleima temeu que as crianças adoecessem, mas estava cansada demais para pedir que não sentassem no chão e, além disso, onde mais eles poderiam se acomodar?

Se conseguissem chegar a Nashville, o irmão dela morava nos arredores, e prometeu ajudá-los a encontrar trabalho - desde que o tribunal de imigração concedesse a eles autorizações de trabalho. A família viveria com ele até conseguir se ajeitar. As crianças poderiam ir à escola e começar o aprendizado do inglês.

Mas, primeiro, eles teriam que sair de Dallas. Para tanto, teriam de esperar 48 horas, disse o agente da estação, pois tinham perdido sua conexão. “Não temos escolha", disse Zuleima, soando cansada e derrotada. O marido, Hector, dirigia um olhar incrédulo para as novas passagens, mas nada disse.

Saída de Tucson

A jornada tinha começado mais de 24 horas antes em um ex-monastério em Tucson, Arizona, transformado em centro de alívio para imigrantes recém-chegados. Uma tela de TV mostrava o nome de cada adulto, a idade de seus filhos, dia e hora marcados para a partida da família e seu destino. Lopez, 40 anos, escutou enquanto um voluntário repassava o itinerário de sua família, um documento de várias páginas, usando um marca-texto amarelo para destacar Dallas, onde trocariam de ônibus depois de fazerem oito paradas pelo caminho.

Os problemas da viagem começaram praticamente antes do início: o ônibus da Greyhound, já cheio de imigrantes que embarcaram em Phoenix, chegou a Tucson com mais de uma hora de atraso, e com mais passagens vendidas do que assentos disponíveis. Duas famílias teriam de ficar para trás. Os Lopez e seus três filhos - Kevin, 17 anos, Nataly, 12 anos, e Caleb, 6 anos - foram os últimos a embarcar.

Ninguém conversava dentro do ônibus escuro, e ouvia-se apenas o choro de um bebê enquanto o veículo rumava para o leste pela interestadual 10. Havia mães com bebês e crianças de colo, e vários pais viajando sozinhos com um filho ou filha. A família Lopez era a única viajando completa. Havia poucos americanos nos assentos.

“Às vezes, é quase como se nós fôssemos os estrangeiros aqui", disse Don Shockley, 77 anos, caminhoneiro aposentado, enquanto olhava para os assentos preenchidos a partir do seu lugar, no fundo. “Acho que precisamos erguer um muro. Isso não vai afastar todos eles, mas vai manter alguns deles fora do país.” Os Lopez decidiram deixar a Guatemala no início do ano em meio a uma crise econômica cada vez mais profunda e o crescimento da violência.

O casal reuniu sua poupança e pediu mais dinheiro emprestado para conseguir os US$ 10 mil cobrados por “guias” que os transportaram de caminhão e ônibus até cruzarem a fronteira americana no fim de março. Depois de serem apreendidos, os Lopez foram colocados no processamento de deportação, processo que pode levar anos, e em seguida transportados por três detenções até serem entregues pela Patrulha de Fronteira ao monastério em Tucson no dia 3 de abril.

O irmão de Zuleima tinha combinado de pagar os US$ 250 das passagens de ônibus para Nashville, onde um agente da Patrulha de Fronteira já tinha agendado uma data para eles no tribunal de imigração. Agora, estavam a caminho. Já passava das duas da madrugada quando o ônibus chegou a El Paso. “Todos precisam desembarcar", anunciou o motorista, ligando as luzes e acordando todos. Os passageiros cansados tiveram que esperar no terminal.

Sentada em bancos azuis de aço com os três filhos sonolentos, Julia Cortez, uma solicitante de asilo vinda do México, perguntou, “Quanto tempo falta para chegarmos a Nashville?” Quando ficou sabendo que faltavam pelo menos 24 horas até chegar à cidade, ela respondeu em voz baixa, “Oh, não, nosso dinheiro e nossa comida já acabaram". A família de Julia já tinha passado duas noites no terminal da Greyhound em Phoenix.

De volta ao ônibus, Shockley ficou sabendo da difícil situação de Julia e, minutos depois, apareceu com uma nota de US$ 20. “Entregue a ela", disse ele, inclinando o chapéu de vaqueiro. “Passei a vida toda na estrada. Outros me ajudaram.” Um novo motorista assumiu o volante. A maioria dos passageiros adormeceu enquanto o ônibus seguia para Dallas. Pouco depois das 4h30 da manhã, o veículo parou diante de um posto de controle da Patrulha de Fronteira, e dois agentes embarcara. 

“Aqueles que não forem cidadãos americanos devem apresentar seus documentos", disse uma agente enquanto caminhava até o fundo do ônibus. Dez minutos mais tarde, o ônibus seguiu viagem, fazendo várias outras paradas, sem que ninguém embarcasse. “É como um ônibus viajando em um episódio de Além da Imaginação", murmurou Shockley.

A paisagem árida deu lugar ao verde conforme o ônibus se aproximava de Dallas. Caleb, Kevin e Nataly se levantaram nos assentos quando o perfil da cidade foi avistado pela primeira vez. Seus olhos se arregalaram ao passar por um parque de diversões. “Dallas é linda", disse Lopez.

Espera em Dallas

Dentro do terminal, um administrador da Greyhound anunciou que aqueles que tinham perdido suas conexões teriam que reagendar as viagens - e eles ficaram sabendo quanto tempo levaria para tal. Em todo o terminal via-se uma profunda resignação. Algumas famílias partilhavam a pouca comida que ainda tinham. Pais começaram a colocar os filhos para dormir no chão. Subitamente, Julia recebeu algum alívio: um de seus parentes mandou um motorista para buscar sua família. Ela disse a Zuleima que a família dela também poderia vir, mas não havia no veículo lugar para mais cinco passageiros.

Perto da meia-noite, com as crianças finalmente dormindo, os Lopez se acomodaram em bancos do terminal e tentaram descansar. O dia seguinte se arrastou em meio aos anúncios de partidas feitos pelo sistema de som. “Adios, Dallas", disse Zuleima, enquanto o ônibus 1506 partia às 16h39, quatro minutos atrasado.

Saída de Dallas

Cada um dos 54 assentos do ônibus estava ocupado, sendo 33 deles por imigrantes. Três irmãos, Efrain, Jeramaya e Samuel Caal, estavam a caminho de Silver Spring, Maryland, para trocar de lugar com o pai, Avelin, 60 anos, que trabalhou como operário não documentado por 15 anos, enviando dinheiro para a Guatemala.

“É nossa vez", disse o irmão do meio, Jeramaya, 30 anos. “Papai está ficando velho. Quer voltar para casa e estar com nossa mãe.” Cada irmão viajou na companhia de um filho, “nossa passagem para os EUA", brincou Jeramaya, uma referência às leis de imigração que tornam mais fácil evitar a detenção no caso de imigrantes que chegam acompanhados de uma criança.

À 1h08 da madrugada, o ônibus chegou a Memphis, Tennessee, para uma parada de uma hora. Quase quatro horas depois, enquanto os primeiros raios de sol começaram a iluminar o céu de Nashville, o ônibus 1506 chegou ao terminal, e a família Lopez pôde finalmente desembarcar. Tinham sido 2,5 mil quilômetros e 85 horas desde a partida de Tucson - e quase uma vida inteira desde que tinham deixado a Guatemala. Eles abraçaram seus parentes e foram embora de carro, acenando. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.