Annie Sakkab para The New York Times
Annie Sakkab para The New York Times

Imigrantes franceses encaram choque cultural no Canadá

Pessoas que deixaram a França para viver em cidades como Quebec e Montreal descobriram que o idioma é uma das poucas coisas que têm em comum

Dan Bilefsky, The New York Times

27 de fevereiro de 2019 | 06h00

MONTREAL - "O que eles fazem é aumentar o aluguel e roubar nossas mulheres". Eles "viajam em turmas de dez e se queixam o tempo todo". "Há franceses demais no Plateau". Esses são alguns dos versos de uma canção cheia de autoironia composta por Fred Schneider, 38, um redator publicitário da França que a cantava recentemente num bar de Montreal.

O público, de esmagadora maioria Quebecois, gargalhava enquanto a música caçoava da chegada de um grande número de franceses esnobes, fumantes e "sabe-tudo" que estão "ocupando" o bairro de Plateau-Mont-Royal. A região está tão saturada de moradores franceses, padarias e sotaques parisienses que às vezes os moradores de Montreal chegam a se referir a ela como Nouvelle-France, nome da antiga colônia da França na América do Norte.

Schneider está entre os franceses que vieram para Montreal. Em parte, sua mudança é motivada por problemas econômicos na terra natal. Mas, às vezes, os moradores de Quebec e os franceses soam como um povo dividido pelo idioma em comum. 

"Jogamos futebol, e em Quebec eles preferem o hóquei", disse Louis Myard, 22, estudante de ciência política da Universidade de Montreal, cuja família se mudou de Paris para Montreal. "Nós falamos diner (jantar), eles falam souper (janta).  Nós bebemos vinho, eles preferem cerveja. Nós fumamos cigarros, eles, maconha".

Salomé Zimmerlin, 23, que se mudou para o Canadá para estudar economia, disse ter se surpreendido com o uso do pronome informal "tu" em Quebec, onde não se usa o "vous", mais formal. Mas ela logo se adaptou às regras locais.

Salomé, que fundou uma marca de moda unissex, Kafka, disse que os eventuais choques culturais foram muito menores do que a atração exercida por uma sociedade menos rígida do que a francesa. "Se eu tentasse lançar minha própria marca de moda em Paris, todos teriam rido de mim por causa da falta de experiência", disse. "Aqui, a reação foi, 'Mostre-me o que sabe fazer!'".

Os franceses são atraídos para Quebec pela taxa de desemprego local de aproximadamente 5,5% - na França, o desemprego supera a marca de 9% - e há vantagens na lei de imigração para aqueles que sabem falar e escrever em francês.

De 2013 a 2017, a França foi a origem do segundo maior número de imigrantes que chegaram a Quebec, ficando atrás dos chineses, de acordo com as autoridades. Há cerca de 130 mil franceses em Montreal. Mas, para os recém-chegados, é difícil vencer a sensação de estranhamento. As batatas fritas imersas em molho de queijo, conhecidas como poutine, prato comum de Quebec, parecem herdar mais das culturas americana e britânica do que da francesa. E são usadas muitas palavras do inglês, como cute, weird e fun.

Adeline Alleno, 29, parisiense que encontrou um emprego numa diretoria de marketing em Quebec, disse que sua geração foi galvanizada pelo presidente Emmanuel Macron, mas se viu frustrada com a incapacidade dele de cumprir as próprias promessas.

"Aqui, é possível encontrar um bom emprego, comprar uma casa, viver perto da natureza e ter uma boa qualidade de vida, e tudo isso falando francês", disse. "Tenho raiva da França por não me proporcionar essas coisas".

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