Yagazue Emezi para The New York Times
Yagazue Emezi para The New York Times

Recepção fria em casa aos imigrantes que não conseguiram deixar o país

Estima-se que uma em cada quatro pessoas que migram em busca de oportunidade retornem ao país de nascimento, por opção ou não

Anemona Hartocollis, The New York Times

19 de outubro de 2019 | 06h00

THIAROYE-SUR-MER, SENEGAL - A aldeia de pescadores mandava há muito tempo os seus homens para o mar, mas depois que as traineiras estrangeiras limparam o fundo marinho, os homens começaram a voltar de mãos vazias. Há muito tempo, manda os seus homens ao exterior em busca de trabalho, mas muitas vezes a sua sorte não é melhor.

Em novembro do ano passado, El Hadji Macoura Diop, um pescador de 37 anos, não conseguiu chegar à Europa de barco. Acabou em Casablanca e dormiu na rua, não teve coragem de telefonar para a esposa e dizer que estava desistindo. “Eu sabia que isto a destruiria”, afirmou.

Se é difícil deixar o lar para ir a um país desconhecido em busca de um futuro incerto, voltar, segundo os migrantes, pode ser ainda mais difícil. Muitas vezes, eles sentem vergonha em admitir a derrota, principalmente para as famílias que devem ter penado para economizar a fim de conseguir o dinheiro para a sua viagem. Além disso, eles têm grande dificuldade para se reintegrar na sociedade que deixaram para trás.

A experiência de Diop não é algo inusitado. Os pesquisadores afirmam que uma em cada quatro pessoas que migram, retorna ao seu país - algumas por escolha própria, outras não. Desde junho de 2017, a Organização Internacional para a Migração ajudou mais de 62 mil migrantes a retornar a 13 países na África Ocidental e Central, com aviões e ônibus fretados, oferecidos pela agência. Muitos disseram que quiseram voltar para casa depois de ficar presos em condições absurdas em centros de detenção na Líbia, como o de Tajoura que foi bombardeado no início de julho, quando mais de 50 pessoas perderam a vida.

Uma vez de regresso, eles recebem ajuda para se reintegrarem, como abrigo temporário, dinheiro para pequenas despesas, treinamento para algum tipo de trabalho e aconselhamento. Mas depois da ajuda inicial, os migrantes precisam se arranjar por conta própria. A transição pode ser muito difícil. Uma mulher que retornou à Costa do Marfim, Jessica Kablan, 27, chegou grávida de sete meses de um homem ao qual recorrera em busca de proteção ao longo do caminho. 

Embora o relacionamento dos dois fosse mais coercitivo, pareceu-lhe a melhor opção que poderia encontrar, dadas as circunstâncias. Quando ao retornar, o seu namorado se deu conta de que ela estava grávida, acabou o relacionamento. Ela não o culpa. “Voltei esperando um filho”, ela disse. “Ele não poderia aceitar isto”. Meliane Lorng, psicóloga que aconselha os imigrantes que retornam, diz que as mulheres grávidas não contam às famílias que estão voltando, “porque a criança é o testemunho vivo de que foram violentadas”.

Por mais de dez anos, Thiaroye-sur-Mer foi um centro importante de migrantes. Dali, centenas de homens tentaram chegar à Europa - principalmente à Espanha. Todos conhecem o slogan do migrante, “Barça ou barzakh”: em wolof, a língua mais falada no Senegal, significa “Barcelona ou morrer”.

Alguns conseguem. Outros morrem tentando. E outros ainda retornam, disse Moustapha Diouf, que regressou, e criou um centro comunitário para outros como ele. De volta a casa, muitas vezes os migrantes são lembrados amargamente do motivo que os levou a partir.

Recentemente, Diop e os seus cinco colegas retornaram à praia com cerca de 100 pequenos peixes, chamados sardinellas, nas redes. O proprietário do barco pegou a sua parte, e eles ganharam um dólar cada um, contou. Dos telhados das casas da aldeia, a vista do oceano se perde na distância. É fácil imaginar que a Europa possa estar logo depois do horizonte. E é possível esquecer os inúmeros perigos da viagem. Frequentemente, são as mulheres que encorajam os homens a migrar.

A mãe de Diop, Fatou Ndaw, 55, o escolheu porque ele era o filho mais velho de três irmãos, e pescador. “Ele sabia ler os sinais do oceano”, ela disse. Diop tentou duas vezes. Ele e a família estão economizando para ele partir mais uma vez. Ousmane Balde contribuiu para a reportagem. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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