Ryan Christopher para The New York Times
Ryan Christopher para The New York Times

Imigrantes preferem prisão nos EUA à violência em seu país

Para muitos pais, a ameaça de separação dos filhos não os impede de tentar entrar ilegalmente no país

Julie Turkewitz e José A. Del Real, The New York Times

27 de junho de 2018 | 15h00

TUCSON, ARIZONA - Quando Luis Cruz deixou a esposa, quatro de seus filhos e a casa que construiu para a família, já sabia que as autoridades americanas poderiam separá-lo do filho, a única criança que levara consigo. Mesmo assim, em junho, os dois partiram da Guatemala.

A verdade, ele disse pouco depois que os dois chegaram a um abrigo para migrantes em Tucson, era que ele preferia ser separado do filho a enfrentar o que haviam deixado para trás. “Se eles nos separarem, que nos separem”, disse Cruz, 41. “Mas voltar para a Guatemala? Meu filho não pode fazer isso”.

Durante anos, pais e filhos presos ao cruzar a fronteira meridional dos Estados Unidos puderam entrar no país enquanto seu caso era decidido na imigração, resultado de um acordo extremamente debatido destinado a impedir que os filhos passassem longos meses em detenção federal. Aos olhos do governo Trump, esta prática serviu como um convite aberto para pessoas como Cruz, e foi determinante para milhares de famílias atravessarem a fronteira com o México.

As medidas do presidente Donald J. Trump - primeiramente uma iniciativa para separar as famílias que cruzam a fronteira, e agora um esforço para abrandar as restrições na detenção das famílias dos migrantes - representam uma iniciativa agressiva para rescindir este convite (mais recentemente, o governo informou que suspenderia temporariamente o envio das famílias para a justiça, mas a Casa Branca adiantou que sua postura em relação à imigração permaneceria inalterada).

Entretanto, entrevistas de ambos os lados da fronteira, bem como a revisão das cifras sobre a imigração, sugerem que será difícil que o presidente consiga deter este fluxo.

Uma coisa ficou clara na fronteira entre Arizona e México: muitas famílias - principalmente de países da América Central assoladas pela violência das gangues e com economias arruinadas - estão fazendo os cálculos e concluindo que mesmo a separação ou a detenção nos Estados Unidos é melhor do que a situação em pátria.

“Por que uma pessoa se submeteria a uma jornada repleta de perigos?”, disse Magdalena Escobedo, 32, que trabalha em um abrigo para migrantes em Tucson, chamado Casa Alitas. “Se você tivesse uma arma apontada na cabeça, gente que ameaça estuprar sua filha, extorquir seu negócio, obrigar seu filho a trabalhar para os cartéis, o que você faria?”.

Mais de 250 mil migrantes foram presos este ano até o final de maio, segundo dados do governo; a cifra se aproxima do total de migrantes presos em todo o ano de 2017, cerca de 311 mil.

A Casa Alitas recebe famílias que se apresentaram às autoridades da fronteira pedindo asilo. Quando são processadas, as autoridades as deixam no local para uma refeição e uma ducha antes que procurem amigos ou parentes, aguardando até o dia do processo.

É o que acontece com homens como René Pérez, 40, que conseguiu entrar nos EUA com o filho; ele disse que tem plena consciência de que poderá ser separado do filho ou ir preso. “Se isso acontecer, acontecerá e pronto”, afirmou Pérez.

Do outro lado da fronteira na cidade mexicana de Nogales, muitos pais disseram que a separação temporária dos filhos nos EUA seria melhor do que enfrentar a violência ao regressarem ao seu país.

“Preferiria aceitar a isso (a separação) sabendo que meu filho está a salvo”, disse Lisbeth de la Rosa, 24, que esperava para entrar nos Estados Unidos com o filho de 4 anos.

“Vale a pena”, na opinião de Lidia Rodríguez-Barrientos, 36, com a filha de 9 anos, “porque temos medo de voltar”.

Há muito tempo, os críticos dizem que permitir que os migrantes permaneçam livres enquanto seus casos estão sendo decididos encoraja pais a entrarem nos Estados Unidos com os filhos, e algumas pessoas ouvidas confirmam essa teoria.

“É por esse motivo que eu trouxe uma criança comigo”, disse o trabalhador da construção civil Guillermo T., 57, que chegou recentemente no Arizona e que pediu para não ser identificado. Desempregado em seu país, a Guatemala, foi para o norte; ele havia sido informado de que se levasse a filha de 16 anos, sua passagem estaria garantida. “Ela foi o meu passaporte”, comentou.

No dia 21 de junho, a polícia federal levou Cruz e o filho de 16 anos, também chamado Luis, à Casa Alitas. O pai, que trabalha na colheita de cítricas, esperava poder viver sua vida no estado onde nasceu, Suchitepéquez. Mas em maio, seu filho foi abordado por bandidos que, mostrando uma arma, exigiram que ele entrasse na gangue. “Eles nos matam se não obedecemos”, contou Cruz.

No dia 3 de junho, os dois partiram para os EUA e se apresentaram na fronteira para pedir asilo. O filho mostrou uma carta da diretora de sua escola que ela escrevera antes de ele viajar - uma nota que, esperavam, seria a prova de que precisavam de asilo nos Estado Unidos.

“O estudante foi obrigado a deixar a escola em razão da violência e da perseguição das gangues”, dizia. ”Ele decidiu ir embora para salvar sua vida”. / Miriam Jordan e Frances Robles contribuíram para a reportagem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.