Laetitia Vancon para The New York Times
Laetitia Vancon para The New York Times

Imigrantes sírios recuperam um vilarejo na Alemanha

'Os sírios salvaram a escola', diz Frank Schütz, prefeito de Golzow

Katrin Bennhold, The New York Times

26 de setembro de 2019 | 06h00

GOLZOW, ALEMANHA - O convite era arriscado, e o prefeito Frank Schütz estava consciente disto. Ele queria levar imigrantes sírios para a sua remota aldeia alemã onde a extrema direita, muito popular, é contrária aos imigrantes, e muitos moradores já se  sentem cidadãos de segunda classe? “Loucura”, opinou a cabeleireira. “Impossível”, concluiu um camponês.

Mas esta era a única maneira de salvar a escola de Golzow, que, como muitas áreas rurais da antiga Alemanha Oriental perdeu um terço da população nos anos que se seguiram à queda do Muro de Berlim. No verão de 2015, enquanto centenas de milhares de imigrantes chegavam à Alemanha, em Golzow, o número de crianças em idade escolar atingia o seu patamar mais baixo.

Não haveria um primeiro grau. Mas então Kamala, Bourhan, o grande Mohammad e o pequeno Mohammad chegaram com seus pais. “Os sírios salvaram a escola”, disse Schütz. Os 16 sírios que se estabeleceram neste vilarejo de 820 habitantes representam a mesma parcela da população em relação a cerca de 1,5 milhão dos que escolheram este país depois de 2015. Sua história evidencia de que, embora o populismo espalhe o medo na maior democracia da Europa, a integração de centenas de milhares de imigrantes está funcionando.

Quatro anos após a chegada dos sírios, Golzow está diferente. Os apartamentos vazios ganharam nova vida. Na feira dos girassóis, doces árabes estão expostos ao lado das tortas de maçã alemãs. Quando o bedel da escola precisa de ajuda para varrer as folhas, os pais sírios são os primeiros a se apresentar como voluntários.

Mas quando Schütz reuniu pela primeira vez os aldeões para expor a sua ideia de trazer os sírios, houve muito ceticismo. “Pensei: ‘Isto não vai funcionar, eles têm uma religião diferente, nossos filhos não falarão mais alemão corretamente’”, disse Marco Seidelt, cujo filho de 11 anos, Davey, tinha três colegas sírios na classe.

Halima Raha também se mostrou cética: “Alemanha Oriental? Você está louca?”, suas amigas sírias disseram para ela pelo telefone depois que sua família foi levada de ônibus de Berlim para Golzow, lembrou Taha. Eles não gostam de estrangeiros, falaram as suas amigas. É perigoso.

Mas então ambos os lados se esforçaram. Halima, 32, mãe de três filhos que fala alemão, lembrou das flores e dos brinquedos que o prefeito levou para a sua nova casa. Outros moradores doaram objetos como pratos e chifres de veado. Halima recomendou aos filhos que cumprimentassem todas as pessoas na rua - em alemão.

Um momento decisivo foi o protesto do vilarejo em outubro de 2015, meses depois da chegada dos sírios. Moradores revoltados calaram um político regional que tentava convencê-los a hospedar também dezenas de jovens refugiados no ginásio da escola. Halima pegou o microfone.

Disse que também estava preocupada por causa dos jovens hospedados perto da escola, e com a capacidade do vilarejo de receber mais refugiados. “Eu também estou preocupada”, afirmou, conquistando muitos cidadãos que manifestaram o seu ceticismo em relação aos imigrantes.

A viagem da Halima da cidade portuária síria de Latakia até Golzow levou dois anos. Ela ainda tem pesadelos em que vê um carrinho de bebê e uma mamadeira flutuam no Mediterrâneo desde que fez a travessia a bordo de um barco superlotado. Farmacêutica formada na Síria, aqui ela trabalha em uma casa de repouso. Seus filhos agora falam alemão fluentemente. E a família pretende pedir a cidadania. “O vilarejo é como uma família”, ela disse. “E nós agora fazemos parte dela. Victor Homola contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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