Philippe Lopez/Agence France-Presse - Getty Images
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Liz Alderman, The New York Times

03 de janeiro de 2020 | 06h00

PARIS - A economia da Europa luta para se fortalecer após anos de crescimento anêmico.

Mas os juros baixos que deveriam favorecer uma recuperação estão alimentando um boom imobiliário criando como consequência novos problemas.

O dinheiro é tão barato - em Paris ou Frankfurt é possível conseguir uma hipoteca de 20 anos a um juro inferior a 1% - que os tomadores correm para aproveitar a oportunidade e adquirir apartamentos e casas. E os investidores institucionais, vendo a chance de retornos lucrativos, estão adquirindo vários imóveis residenciais nos centros urbanos de toda a Europa.

Em algumas partes da Europa, afirmou Jörg Krämer, economista chefe do Commerzbank de Frankfurt, os valores já voltaram, ou mesmo superam os patamares que antecederam a crise da dívida de dez anos atrás no continente, o que dá origem a preocupações considerando que o boom imobiliário poderá acabar mal.

A demanda aumentou em cinco anos, desde que o Banco Central Europeu reduziu um dos seus juros básicos a menos de zero. Os preços tiveram um salto de pelo menos 30% em Frankfurt, Amsterdã, Estocolmo, Madri e outros centros importantes, chegando a mais de 40% em Portugal, Luxemburgo, Eslováquia e Irlanda.

“Em um breve período de tempo a dinâmica mudou totalmente”, segundo Matthias Holzhey, diretor do departamento imobiliário suíço do UBS e principal autor de um relatório anual sobre os aumentos exagerados dos preços dos imóveis nas principais cidades do globo. Em algumas partes da Europa, afirmou, “Os juros baixos estão pressionando as avaliações dos imóveis a se aproximarem da zona de risco da bolha”.

As autoridades financeiras estão em alerta. Em setembro, o Conselho Europeu de Risco Sistêmico, um braço do Banco Central Europeu que ajuda a regular o sistema financeiro da Europa, intimou a 11 países, entre eles Luxemburgo, Áustria, Dinamarca e Suécia, a adotarem regulamentações e medidas fiscais destinadas a conter os preços.

O Bundesbank, banco central da Alemanha, informou recentemente que nas cidades alemãs os imóveis foram supervalorizados em 15 ou até 30% - em outras palavras, que a bolha existe. A pesquisa do UBS referiu-se a Munique, Frankfurt, Amsterdã e Paris como cidades em risco. E um estudo da firma de auditoria global Deloitte & Touche alertou que, se o Banco Central Europeu mantiver os juros a zero, conforme o planejado, os preços médios das habitações “superarão os patamares anteriores à crise”.

Alguns economistas afirmam que as preocupações na Europa são excessivas, e que os preços estão supervalorizados, mas não se encontram na zona de perigo. Em primeiro lugar, porque a criação de empregos decorrente da recuperação econômica, embora modesta ou desigual, ampliou o número de tomadores com capacidade de crédito. E os compradores vivem principalmente nestes imóveis ou pagam aluguel, não se desfazem deles.

No entanto, a oferta de habitações urbanas, não acompanhou a demanda. O resultado é a escassez de habitações acessíveis, particularmente para locação, prejudicando as pessoas de renda média e baixa que trabalham nas cidades, mas não têm condições de morar nelas.

Em Madri e Barcelona, os preços das residências registraram um salto superior a 30% em relação a 2016, elevando os aluguéis uma vez que os proprietários buscavam retornos maiores. O primeiro-ministro Pedro Sánchez limitou o aumento dos alugueis na Espanha, no verão, à taxa da inflação, atualmente em 0,4%, o que limita também a renda dos proprietários de imóveis.

Em Paris, onde 70% dos habitantes moram em imóveis alugados, a prefeita Anne Hidalgo impôs novos controles dos aluguéis. Embora estes sejam limitados por normas rigorosas, subiram 40% entre 2000 e 2018. Os preços dos imóveis são em média 10 mil euros o metro quadrado, um dos mais altos da Europa.

Poucos lugares sentiram um impacto tão violento quanto Berlim. A prefeitura impôs o congelamento dos aluguéis por cinco anos, o maior da Europa, no verão, depois que os aluguéis subiram 50% em cinco anos, e deu aos inquilinos o direito de exigir reduções se os aluguéis subirem excessivamente. As ações imobiliárias alemãs caíram desde a entrada em vigor da nova lei.

Embora os bancos já não inundem as caixas de correspondência com ofertas de cartões de crédito, acenar com taxas hipotecárias ultra baratas é uma maneira de atrair novos clientes.

É o que tentou os tomadores na Holanda a se excederem. Embora os bancos holandeses tenham adotado medidas para conter os empréstimos em 2019, os domicílios holandeses registravam uma dívida hipotecária de 527 bilhões de euros (US$ 584 bilhões) até o final de março - igual a cerca de 66% da economia holandesa.

O banco central holandês alertou recentemente que o “risco sistêmico” do mercado imobiliários do país constitui a maior ameaça para a estabilidade financeira. Uma queda repentina dos preços das habitações poderia ser desastrosa para os domicílios e os bancos, avisou.

Com limitado espaço de manobra, o Banco Central Europeu pediu recentemente aos políticos dos países do euro que adotem medidas mais corajosas a fim de impedir o crescimento das bolhas  de ativos.

“Este é um território totalmente novo”, afirmou Holzhey do UBS. “Será necessária certa cautela porque no passado, ninguém previa a debacle do preço das casas”. / Christopher Schuetze, Jack Ewing e Bem Casselman contribuíram para a reportagem / ANNA CAPOVILLA

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