Chris Jackson / POOL / AFP
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'Imunidade natural' contra a covid não é mais segura do que uma vacina

E se você já teve covid-19 - ainda precisa de uma vacina? Especialistas abordam questões sobre a imunidade

Apoorva Mandavilli, The New York Times - Life/Style

05 de janeiro de 2021 | 05h00

Na esteira das notícias sobre os espantosos resultados das vacinas experimentais contra a covid-19 da Pfizer e da Moderna, o senador Rand Paul tuitou uma comparação provocadora. A eficácia das novas vacinas é de 90% e 94,5% respectivamente, disse Paul. Mas a covid-19 “adquirida naturalmente” é até melhor, com 99,9982% de eficiência, ele declarou.

Paul, republicano por Kentucky, é um dos muitos que, cansados de lockdowns e prejuízos econômicos, elogiaram os benefícios para uma pessoa em contrair o coronavírus. O senador recebeu o diagnóstico da doença ano passado, e afirmou que sobreviver a um surto de covid-19 confere maior proteção, e comporta riscos menores do que tomar a vacina.

O problema desta lógica é a dificuldade de prever quem sobreviverá incólume a uma infecção, observou Jennifer Gommerman, imunologista da Universidade de Toronto. Considerando todas as incógnitas – como a capacidade dos hospitais de uma região, ou a potência da resposta imunológica de uma pessoa – optar pela doença e não pela vacina é “uma péssima decisão”, acrescentou. 

A principal vantagem de uma vacina está no fato de ser previsível e segura, prosseguiu. “Ela foi perfeitamente adequada para gerar uma resposta imunológica eficaz”. 

Mas o que sabemos nós a respeito de como a imunidade contra uma infecção anterior pode ser comparada com a proteção proporcionada pelas novas vacinas? E se nós já tivemos a covid – será seguro sermos vacinados? Pedimos a especialistas que opinassem sobre a mais recente evidência.

O que produz uma forte resposta imunológica: uma infecção natural ou uma vacina?

Resposta: Não sabemos. Mas supõe-se que as vacinas contra a covid-19 tenham prevenido a doença, e elas são uma aposta de longe mais segura, segundo os especialistas.

As vacinas contra alguns patógenos, como a bactéria pneumococo, induzem uma imunidade melhor do que a infecção natural. A primeira evidência  sugere que as vacinas contra a covid-19 podem entrar nesta categoria. Os voluntários que receberam a Moderna tinham mais anticorpos – um marcador da resposta imunológica – no sangue do que as pessoas que ficaram doentes com a covid-19.

No entanto, em outros casos, uma infecção natural é mais potente do que uma vacina. Por exemplo, ter tido caxumba – que pode causar esterilidade nos homens – gera imunidade para toda a vida, mas algumas pessoas que receberam uma ou duas doses da vacina ainda poderão pegar a doença.

Segundo Paul: a imunidade natural contra o coronavírus felizmente é bastante forte. A grande maioria das pessoas infectadas produz pelo menos alguns anticorpos e células imunitárias que podem combater a infecção. E a evidência sugere, até o momento, que esta proteção persistirá durante anos, prevenindo uma doença grave, quando não uma reinfecção.

Mas há uma “maciça gama dinâmica” nessa resposta imunitária, com uma diferença de 200 vezes  nos níveis de anticorpos.

Nas pessoas que ficam apenas ligeiramente doentes, a proteção imunitária que pode prevenir uma segunda infecção  pode desaparecer dentro de alguns meses. “Estas pessoas talvez se beneficiem mais com a vacina do que outras”, segundo Bill Hanage, epidemiologista da Harvard T.H. Chan School of Public Health.

Eu sou jovem, saudável e de baixo risco de covid. Por que não posso arriscar em vez de receber uma vacina produzida às pressas? 

Os especialistas foram unânimes em sua resposta: a covid-19 é sem dúvida a pior opção. “Está claro que uma é menos problemática para a recuperação do organismo delas do que a outra – há mais riscos em uma infecção natural”, disse Marion Pepper, imunologista da Universidade de Washington em Seattle.

Pessoas obesas ou que sofrem de doenças como o diabetes são particularmente suscetíveis a casos graves de covid-19. Em média, o vírus parece menos arriscado para os mais jovens, e as mulheres costumam se sair melhor do que os homens. Mas além destas amplas generalizações, os médicos não sabem por que algumas pessoas ficam muito doentes e morrem, enquanto outras não apresentam nenhum sintoma. 

Por exemplo, as pessoas que apresentam determinadas mutações nos genes imunitários são mais suscetíveis à doença, mostraram vários estudos. “Por isso, há um fator de risco que não tem nada a ver com a idade”, na opinião de Gommerman. Em um estudo realizado com mais de 3 mil pessoas, dos 18 aos 34 anos, que foram hospitalizadas com covid, 20% exigiram cuidados intensivos e 3% morreram.

“É verdade que a maioria das pessoas não precisará ser hospitalizada, a maioria das pessoas não precisará ir para a UTI ou morrer”, afirmou Yvonne Maldonado, que representa a American Academy of Pediatrics nas reuniões do Advisory Committee (federal) on Immunization Practices.

Mas “ninguém é imune a doenças graves”, ela acrescentou. E mesmo que as pessoas não sejam de alto risco de covid, seus amigos ou familiares podem ser.

Uma em cada três pessoas que se recuperam da covid apresentam queixas crônicas, como exaustão, e coração acelerado, durante meses depois. Isto inclui pessoas com menos de 35 anos sem problemas de saúde anteriores. Alguns sobreviventes da covid também apresentaram sinais preocupantes de que o seu organismo se voltou contra si mesmo, com sintomas semelhantes aos do lúpus e da artrite reumatoide.

As vacinas contra a covid, por outro lado, comportam poucos riscos conhecidos. Elas foram testadas em dezenas de milhares de pessoas sem graves efeitos colaterais – pelo menos até o momento. “Quando você começar a vacinar milhões, poderá encontrar eventos extremamente raros”, disse Hanage. “Mas precisamos saber que eles são extremamente raros e muito mais raros do que os eventos adversos associados a uma infecção natural”.

Eu tive covid. Posso tomar uma vacina sem problemas? E neste caso, quando posso tomá-la? 

É seguro, e provavelmente até benéfico, para a pessoa que teve covid tomar a vacina em algum momento, afirmam os especialistas. “Não há nada de deletério em receber um reforço para uma resposta imunitária que você teve com a primeira infecção, proporcionado por uma vacina”.

Na realidade, em uma reunião, Moncef Slaoui, assessor chefe da Operation Warp Speed, disse que 10% dos participantes dos testes clínicos para as vacinas foram infectados com o vírus sem saber. Suas respostas imunológicas estão sendo analisadas, acrescentou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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