Estrada-Belli/PACUNAM
Estrada-Belli/PACUNAM

'Guerra total' é mencionada no incêndio de uma cidade Maya

Pesquisadores relatam que a queima de Bahlam Jol foi uma "guerra total", e não um conflito que se concentrava em fazer prisioneiros personagens importantes, como se acreditava antes

James Gorman, The New York Times

17 de agosto de 2019 | 06h00

No dia 21 de maio de 697, segundo hieróglifos mayas, a cidade de Bahlam Jol “queimou pela segunda vez”. Mas como grande parte da escrita e da história maya, o registro permanecia um mistério para os modernos pesquisadores desses povos. Onde se localizava Bahlam Jol? O que os mayas descreviam com o hieróglifo que é traduzido como “queimar”? Uma equipe de pesquisadores que começou o seu trabalho estudando sedimentos lacustres no norte da Guatemala descobriu que Bahlam Jol  é o nome maya de um conjunto de ruínas que os arqueólogos chamam de Witzna, e concluíram que o incêndio foi devastador.

Recentemente, eles relataram na revista Nature Human Behaviour que o incêndio de Bahlam Jol foi um exemplo de guerra total, e não um conflito regido por normas, que se concentrava em fazer prisioneiros personagens importantes, como se acreditava que fosse a forma predominante da guerra na época.

“Foi um incêndio total”, confirma David Wahl, geógrafo da United States Geological Survey e um dos autores.

Wahl, que procura reconstruir o impacto do ser humano no clima e no meio ambiente nos tempos antigos, disse que uma espessa camada de carvão encontrada nos sedimentos de um lago nas proximidades da cidade  indica a intensidade e a escala da conflagração. “Era algo diferente de tudo o que eu vi nestes 20 anos de estudo do fenômeno”, acrescenta. Ele e colegas pesquisadores afirmam que as suas descobertas  contestam a ideia da natureza da guerra maya anterior ao ano 800, quando uma violência mais extrema acompanhou o colapso da chamada civilização maya clássica. Outros arqueólogos elogiaram a descoberta, mas, na sua opinião, há outros exemplos de violência extrema em diferentes períodos da história desta civilização.

Contudo, afirmou David Freidel, professor de arqueologia da Washington University em St. Louis e especialista em arqueologia maya, que não participou do estudo, os alvos eram pessoas comuns na cidade. “O incêndio de Witzna mostra que a guerra total já existia”, diz. Mas notou que houve outros casos de extrema violência, inclusive a destruição maciça de Tikal, em um período de 100 -250.

Em alguns lagos, disse Wahl, a taxa de acumulação dos sedimentos varia, por isso um centímetro de perfuração do leito de um lago explorado pode representar a passagem de aproximadamente uma década a vários séculos. Mas no lago, nas proximidades de Witzna, os sedimentos se depositaram tão rapidamente que um centímetro representou menos de dez anos, talvez até perto de um ano.

Incêndio

Nas perfurações realizadas, ele encontrou uma camada de carvão de três centímetros de espessura, com pedaços de carvão de quase um centímetro de em um lado. Wahl e sua equipe concluíram que esta seria a indicação de um incêndio maciço, que se depositou todo de uma vez, embora em parte possa ter se originado do deflúvio em uma estação depois do incêndio.

Além disso, outras indicações químicas de atividade humana desapareceram rapidamente logo depois do evento, indicando que a população humana de repente decresceu. O incêndio ocorreu, segundo julgam, entre 690 e 700. A outra evidência foi apresentada por Francisco Estrada-Belli, arqueólogo da Universidade de Tulane e coautor  que realizou escavações em Witzna. Além da destruição dos edifícios, ele encontrou uma coluna de pedra, ou estela, que identificou a cidade com o nome que lhe foi dado pelos mayas, Bahlam Jol.

Alexander Tokovinine, outro autor e especialista em escrita maya da Universidade de Alabama, em Tuscaloosa, vasculhou arquivos de textos mayas a respeito do nome da cidade. Ele descobriu que na vizinha cidade de Naranjo uma coluna de pedra especificava quando Bahlam Jol foi incendiada pela segunda vez. A palavra ou hieróglifo de “queimada”, escreveu o autor, é “puluuy”, que acreditam significar o tipo de incêndio que ocorreu em Bahlam Jol.

Pelo que ele sabe, afirmou Wahl, usar dados ambientais para ligar as provas contidas nos registros escritos e nas escavações é algo único nos estudos mayas.

Se for a primeira, provavelmente não será a última. E referindo-se ao enfoque multidisciplinar do grupo,  Freidel observou  que “é deste modo que deveríamos proceder”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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