Leo Correa / Associated Press
Leo Correa / Associated Press

Incêndio revela lado sombrio dos celeiros de craques do futebol brasileiro

Tragédia que vitimou dez jovens jogadores da base do Flamengo levaram muitos a questionar as linhas de produção do futebol mundial

Tariq Panja e Manuela Andreoni, The New York Times

20 de abril de 2019 | 06h00

RIO DE JANEIRO - Christian Esmério parecia predestinado ao sucesso - sua família tinha certeza disso. Ele tinha 15 anos e bom porte físico, um boleiro de sorriso fácil que disfarçava bem seu talento entre as traves. Já se falava em contratos, e até em comprar uma casa para os pais, que investiram toda a poupança no sonho de transformar o filho no próximo craque do futebol exportado pelo Brasil.

Mas, em fevereiro, seu pai se viu tomado pelo torpor do luto, cercado por advogados. Dias antes, Christian morreu carbonizado em um incêndio nas instalações do Flamengo, um dos times de futebol mais famosos da América do Sul. O jovem estava entre os 10 jogadores mortos naquele dia.

As mortes mostraram um pouco do funcionamento da maior linha de produção do futebol internacional, levando ao questionamento um aparato brutal que tritura incontáveis meninos brasileiros para cada craque produzido. Mas, por enquanto, havia uma pergunta mais imediata: qual era o valor de Christian?

O universo brasileiro do futebol é povoado por uma variedade de atores, quase todos atraídos pela possibilidade de escapar da pobreza e, quem sabe, até enriquecer. Temos os garotos e suas famílias. Temos os investidores, que varrem o país na busca de talentos promissores. E temos os times, muitos deles em tal estado de desordem financeira que dependem da venda de jovens astros para se manterem em funcionamento. O lucro de um investimento certeiro e precoce em um único jogador pode chegar às dezenas de milhões de dólares.

Indústria futebol

Para muitos dos envolvidos nesse jogo, a indústria fugiu ao controle. Um sistema que deveria transformar jovens promissores em jogadores profissionais foi transformado em um mercado internacional que movimenta US$ 7 bilhões por ano, de acordo com a FIFA, organização que administra o futebol no mundo. Jovens talentosos - alguns não passam de crianças - são comprados e vendidos como qualquer outra matéria prima.

Ninguém sabe ao certo quantos meninos estão no sistema do futebol juvenil brasileiro. As estimativas variam entre 12 e 15 mil, mas o número é difícil de confirmar. A federação brasileira de futebol não faz nenhuma tentativa de rastrear os jogadores antes de completarem 16 anos e se tornarem profissionais.

O Flamengo se orgulha de ser o time mais popular. Mas essa adoração e poder talvez tenham permitido que o Flamengo evitasse a responsabilidade pelo tratamento dispensado aos meninos sob seus cuidados. Em 2015, procuradores do estado do Rio processaram o Flamengo por causa das condições no seu centro de treinamento. Os promotores citaram problemas na proteção aos menores de idade, declarando que as condições eram “ainda piores do que aquelas oferecidas a delinquentes juvenis".

As autoridades emitiram uma ordem de fechamento das instalações em 2017, mas a decisão nunca foi cumprida. Nos anos mais recentes, o Flamengo gastou milhões na reforma da sua academia de jovens. Mas o dormitório que abrigava 26 meninos na noite do incêndio, 8 de fevereiro, era uma estrutura improvisada, composta por seis contêineres de aço fundidos. De acordo com as autoridades, o local nunca foi inspecionado.

Entrevistas com sobreviventes e autoridades que investigaram o incêndio indicam que uma série de erros podem ter contribuído para a morte dos jovens. Um menino que estava no quarto de Christian disse que a porta emperrou quando ele tentou sair. O jovem conseguiu escapar pela grade de uma janela. Mas o atlético Christian, de 1,9 metro de altura, não conseguiu passar.

Quando os bombeiros chegaram a ele, seu corpo estava tão queimado que só foi possível identificá-lo pela arcada dentária. Os representantes do Flamengo não responderam aos pedidos de entrevista. Mas, em fevereiro, o presidente da agremiação, Rodolfo Landim, negou ter conhecimento de irregularidades.

O jornalista Sergio Rangel, que trabalha cobrindo o futebol há três décadas, disse que o sistema de treinamento de jovens no Brasil o lembra da mina de ouro em Serra Pelada. Homens pobres de todo o país rumaram para a lavra aberta da mina nos anos 1980, revirando pedras na esperança de encontrar a pepita que mudaria suas vidas.

Caso Neymar

O futebol também é um sonho fugidio para muitas famílias. Alguns enfrentam centenas ou milhares de quilômetros de deslocamento para inscrever os filhos em programas de treinamento que vão classificá-los, analisá-los e, com frequência, rejeitá-los. “Pegam um deles, dão uma boa olhada, e o descartam se não se interessarem por ele", afirmou Rangel.

Menos de 5% dos aspirantes a jogadores no Brasil conseguem se tornar profissionais. É ainda menor a proporção daqueles que ganham um salário decente. Um estudo publicado pela federação brasileira de futebol em 2016 constatou que 82% dos jogadores profissionais do país ganham menos de US$ 265 por mês. Não importa o quanto seja pequena a probabilidade, não importa o tamanho dos obstáculos, há histórias de sucesso no futebol em número suficiente para alimentar as esperanças de jovens que terão poucas alternativas na vida.

Temos o caso de Neymar da Silva Santos Júnior, cujo sucesso é tamanho que mais se assemelha a uma marca internacional, e não a um atleta. Temos Rivaldo Vitor Borba Ferreira, Ronaldo e Romário de Souza Faria, três jogadores que levantaram a taça da Copa do Mundo vestindo a camisa da seleção, premiados com a Bola de Ouro da FIFA na época do seu auge. Mais recentemente, tivemos o caso de Vinicius Junior, ponta que se formou nas categorias de base do Flamengo.

Todos esses jogadores emergiram dos celeiros de craques do Brasil para mostrar seus talentos nos palcos mais prestigiados do mundo. Christian parecia estar se aproximando de sua própria versão dessa história de sucesso com a bola. No dia 5 de março, quando completaria 16 anos, esperava-se que assinasse seu primeiro contrato profissional com o Flamengo. O sonho que ele nutria há anos estava ao alcance. Ele morreu quatro semanas antes desse aniversário.

Dias depois da sua morte, o pai, Cristiano Esmério, estava do lado de fora de um escritório no centro do Rio onde a defensoria pública se reunia com representantes do Flamengo. Um advogado disse a ele que, em se tratando de compensação, Christian valia mais do que o restante: tinha sido convocado para a seleção brasileira na sua categoria. 

Esmério fez um gesto afirmativo com a cabeça. Ele e o filho tinham falado de dinheiro. “Vamos procurar uma casa, pai", teria dito Christian quando soube que estava perto de fechar um contrato profissional. “Com meu primeiro salário, quero dar entrada em uma casa para minha mãe, para que ela não tenha mais que se preocupar com falta de água nem eletricidade”.

Uma semana antes de morrer, o rapaz fez uma homenagem à família no Facebook. Acima de duas fotos de pai e filho tiradas com intervalo de uma década, ele fazia uma promessa: “Todo o sacrifício vai valer a pena, meu velho". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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