Agence France-Presse - Getty Images
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Incêndios na Bolívia expõem problemas políticos para Evo Morales

Adversários de Morales atribuem incêndios à campanha do governo de distribuição de terras gratuitamente para camponeses

Anatoly Kurmanaev e Monica Machicao, The New York Times

28 de agosto de 2019 | 06h00

LA PAZ, BOLÍVIA - Em meio ao alarme internacional diante dos incêndios na Amazônia brasileira, a Bolívia enfrenta os próprios incêndios devastadores. Para enfrentar a calamidade, o presidente Evo Morales aceitou a ajuda internacional. “Toda a cooperação oferecida é bem-vinda, independentemente de ser oferecida por organizações internacionais, celebridades ou pelos presidentes que prometeram ajudar", disse Morales na cidade de Cochabamba, onde faz campanha pelo quarto mandato.

Os incêndios são uma característica regular da temporada de seca no norte da América do Sul. Mas esse ano foi diferente. Os incêndios na floresta de Chiquitano, Bolívia, e na região amazônica do Brasil foram muito maiores e mais espalhados do que nas temporadas anteriores. Isso despertou a preocupação internacional e, no caso do Brasil, indignação diante do pouco caso do presidente Jair Bolsonaro em relação à gravidade do problema.

Morales disse ter recebido telefonemas dos presidentes da Espanha, Chile e Paraguai nos dias mais recentes, todos oferecendo ajuda. A recuperação será lenta. Podem ser necessários até 200 anos para que as florestas da Bolívia se recuperem, disse Miguel Crespo, diretor do grupo ambiental sem fins lucrativos Probioma. “Nunca vi uma tragédia ambiental nessa escala", disse ele. No início, Morales tentou reduzir a importância do incêndio, que se espalha por quatro estados desde o início de agosto.

Mas, em um país já galvanizado pela controversa tentativa de reeleição de Morales, a reação ao incêndio assumiu fortes tonalidades políticas. A constituição da Bolívia impede Morales de se candidatar novamente, e ele foi derrotado em um referendo que teria permitido o quarto mandato. Quando recorreu aos tribunais para eliminar o limite à reeleição, a resposta foi o protesto nas ruas. Agora, muitos criticam Morales pela lentidão na resposta aos incêndios.

Já em 24 de agosto, o fogo tinha destruído quase 2,5 milhões de acres de floresta no estado oriental de Santa Cruz, o dobro da área incendiada na semana anterior. As chamas estavam se aproximando da cidade de Santa Cruz. Especialistas ambientais dizem que o fogo ameaça cerca de 500 tipos de animais, incluindo onças, antas e 35 espécies ameaçadas. E a câmara do comércio da Bolívia previu que o fogo reduzirá pela metade o produto interno bruto do país este ano. 

Os adversários de Morales atribuem os incêndios descontrolados à campanha do governo de distribuição de terras gratuitamente para camponeses, abrindo novas áreas para o agronegócio. Essas políticas garantiram a Morales um amplo apoio entre os pobres, ao mesmo tempo satisfazendo os apetites dos grupos empresariais conservadores do país. Mas o custo foi a exposição de vastas áreas à exploração, terras que são limpas com a queimada, dizem os críticos.

A autoridade de gestão de terras da Bolívia calcula que 87% dos incêndios tenham começado como queimadas ilegais iniciadas pelos agricultores. Depois de ignorar os incêndios inicialmente, Morales enviou soldados e três helicópteros para combatê-los agora. Mas a maior parte do trabalho de controle das chamas é realizado por voluntários e estudantes.

Em seus 13 anos de governo, Morales lutou para equilibrar suas supostas prioridades ambientais e a necessidade política de produzir rápidos resultados econômicos. O governo dele aprovou pelo menos quatro leis e seis decretos ampliando o uso agrícola de áreas florestais frágeis desde 2013, por exemplo.

A autoridade de gestão de terras da Bolívia disse que o desmatamento teve alta de 200% depois que o governo quadruplicou a área de desmatamento permitida para os pequenos produtores em 2015. “O governo desencadeou um desastre ambiental", disse Crespo. “Em grande medida, essa tragédia é o resultado do populismo do governo e uma visão de desenvolvimento com base no agrobusiness.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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