Victor Moriyama para The New York Times
Victor Moriyama para The New York Times

A terra está aquecendo, e os incêndios florestais castigam o globo

No Ártico as temperaturas sobem, e as geleiras derretem mais rapidamente

Kendra Pierre-Louis, The New York Times

06 de setembro de 2019 | 06h00

Na América do Sul, a bacia do Amazonas está em chamas. Do outro lado do oceano, na África Central, vastos trechos da savana estão sendo consumidos pelas chamas. E regiões do Ártico, na Sibéria, queimam a um ritmo histórico.

Os incêndios no Brasil motivaram uma crise internacional, entretanto, eles representam apenas uma das áreas importantes em que o fogo atualmente queima no mundo todo. Sua gravidade aumenta, e o fato de chegarem a lugares em que as chamas raramente eram vistas suscita o temor de que a mudança climática esteja se tornando um perigo cada vez mais ameaçador.

As temperaturas mais quentes, mais secas, “continuarão alimentando o potencial para incêndios”, afirmou John Abatzoglu, professor adjunto do Departamento de Geografia da Universidade de Idaho, descrevendo o risco de “enormes fogaréus incontroláveis no globo todo”, a persistir a tendência ao aquecimento.

Os incêndios florestais contribuem para a mudança climática porque não só lançam na atmosfera dióxido de carbono, um dos principais gases do efeito estufa, como também podem matar as árvores e a vegetação que retira do ar as emissões causadoras do aquecimento do clima.

Desde julho, o fogo reduziu a cinzas cerca de 2,4 milhões de hectares da tundra siberiana. No Alasca, consumiu mais de um milhão de hectares de florestas de clima polar, levando os pesquisadores a sugerir que a combinação de mudança climática e incêndios poderá alterar de maneira permanente as próprias florestas da região.

O Ártico está aquecendo duas vezes mais rapidamente do que o restante do planeta, e alguns estudos observaram que, à medida que a região aquece, “prevê-se que haverá também maior formação de raios”, afirmou o dr. Abatzoglou. Em áreas remotas, os raios são uma causa significativa do fogo.

E embora a Amazônia seja definida como o pulmão do mundo, uma referência à capacidade da floresta de produzir oxigênio armazenando ao mesmo tempo dióxido de carbono, florestas como as da Sibéria são tão importantes para o sistema do clima global quanto as do clima tropical.

Um dos motivos pelos quais os incêndios no Ártico são particularmente preocupantes é o fato de queimarem, além das árvores e da vegetação rasteira, também a turfa. A turfa é um material semelhante à terra que, quando queima, emite muito mais dióxido de carbono por hectare do que as árvores. No passado, os incêndios da turfa nos climas setentrionais eram raros por causa da umidade que hoje está desaparecendo, enquanto a região se torna mais quente e mais seca.

Não há uma maneira simples de catalogar os incêndios. Cada um é diferente do outro, e pode representar uma mescla de causas fundamentais.

A crise na Amazônia é um exemplo de incêndios provocados deliberadamente para limpar as florestas para o manejo ou para o cultivo. No caso do Brasil, esta prática é uma decorrência da demanda global de soja e carne bovina.

Entre 2004 e 2012, houve um declínio do desmatamento na região, mas isto mudou em 2012. Jair Bolsonaro, eleito presidente no ano passado, defende a expansão da indústria agrícola e minimizou a ideia de ampliar as proteções aos grupos indígenas que vivem na floresta, provocando o temor de que o desmatamento possa aumentar ainda mais.

Os informes iniciais sugerem que os incêndios deste ano, que coincidem com a seca na Amazônia, deverão se agravar, em parte, porque a guerra comercial dos Estados Unidos com a China - uma das maiores consumidoras de soja do mundo - levou Pequim a procurar novos fornecedores para substituir os produtores americanos. No entanto, “Ainda não conhecemos as dimensões da área que queimou de fato”, afirmou Laura C. Schneider, professora adjunta do Departamento de Geografia da Rutgers University, em Nova Jersey.

As comunidades indígenas da Amazônia usam há gerações o fogo na floresta, embora costumem cultivar áreas muito menores, para plantar culturas diversificadas e mudam para outro terreno após alguns anos, a fim de que a floresta possa se recuperar. “É importante mencionar que os indígenas sabem controlar estes incêndios”, acrescentou a dra. Schneider.

O que é diferente do que está acontecendo agora na Amazônia, onde a agricultura mais industrializada dos tempos atuais implica que a área desmatada terá de ser mantida permanentemente limpa. Entretanto, esta terra às vezes continua queimando: os agricultores muitas vezes limpam um campo para uma nova safra queimando os restolhos da safra anterior, e isto explica os vários incêndios que ocorrem neste momento.

Um método semelhante está sendo adotado no Sudeste Asiático, onde 71% da floresta de turfa foram perdidos em Sumatra e Borneu, na Indonésia, e na Malásia peninsular entre 1990 e 2015. Em muitos casos, as florestas foram substituídas por fazendas de produção de óleo de palma, usado na culinária e até na perfumaria.

Em 2015, a fumaça e a névoa provocadas pela queima da turfa foram tão intensas que podem ter provocado a morte de 100 mil pessoas, segundo um estudo. A partir daí, o governo indonésio adotou medidas destinadas a reduzir o número de incêndios, mas este ano, a névoa voltou.

Embora ambos os problemas digam respeito à queima da turfa, os fogos na Indonésia são bastante diferentes do que acontece nas regiões setentrionais do globo, inclusive no Ártico. Neste verão, os incêndios irromperam em toda a região - no Alasca, na Groenlândia e na Sibéria - em lugares onde não queimavam no passado.

Entre suas causas está a elevação das temperaturas, que seca a vegetação e a torna mais propensa a pegar fogo. Vários pesquisadores descrevem  o calor como sinal de mudança climática em uma região do mundo que aqueceu mais rapidamente do que o restante do planeta. Neste verão, partes do Alasca quebraram recordes: Anchorage chegou a marcar 32º C no dia 4 de julho, quando as temperaturas médias naquela data costumam marcar 24º.

Assim como estes incêndios se alastraram, o mesmo aconteceu com as emissões de dióxido de carbono.

Somente nos primeiros 18 dias de agosto, os incêndios no Ártico emitiram 42 megatons de dióxido de carbono. O que elevou o total para o período de junho, julho e a primeira parte de agosto para mais de 180 megatons, cerca de três vezes e meia mais do que a Suécia emite em um ano.

Os fogos também podem exacerbar o aquecimento por causa da fuligem  produzida pela queima da turfa, que é rica em carbono. Quando a fuligem se deposita nas geleiras próximas, o gelo absorve a energia solar em vez de refleti-la, acelerando o derretimento dos glaciares.

Em alguns lugares, há um ciclo sazonal de incêndios que desempenha um papel fundamental. O oeste americano é um exemplo disso.

No mundo todo é sabido que o ser humano é o causador da maioria dos incêndios florestais, acidentais ou intencionais. Entretanto, um dos motivos pelos quais lugares como a Califórnia aparentemente têm incêndios anuais é o fato de que o estado, juntamente com grande parte da região oeste e sudeste dos EUA, tem o que os pesquisadores chamam de ecossistema adaptado ao fogo.

Em outras palavras, algumas paisagens evoluíram ao longo do tempo a fim de não apenas tolerar o fogo, mas, na realidade, necessitá-lo. Por exemplo, os pinheiros da espécie Pinus Contorta, típicos do oeste do país, precisam do calor dos incêndios florestais para liberarem as sementes.

Um esquema semelhante pode ser visto em alguns incêndios da África Sub-saariana que recentemente chamaram a atenção mundial. Segundo o dr. Abatzoblou, os ecossistemas da savana ao norte e ao sul das florestas tropicais da África queimam de maneira bastante previsível a cada dois ou três anos.

“Este é de fato o ecossistema mais propenso a incêndios do globo”, afirmou. “É a combinação exata do fato de estar suficientemente úmido para ter bastante combustível e suficientemente seco para queimar”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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