Max Whittaker/The New York Times
Max Whittaker/The New York Times

Elas são uma das coisas mais antigas do mundo. E a crise do clima está matando-as

As sequoias e as árvores de Josué, da Califórnia, definem o oeste americano e a resiliência da natureza através dos tempos. Os incêndios florestais de 2020 foram o teste mais mortal

John Branch, The New York Times - Life/Style

13 de fevereiro de 2021 | 05h00

Eles são o que os cientistas chamam de megaflora carismática, e há poucas árvores mais carismáticas do que as três mais famosas da Califórnia. As pessoas vêm do mundo todo simplesmente para admirá-las.

A sequoia gigante. A árvore de Josué. A sequoia vermelha.

São as três espécies de árvores da Califórnia, em parques nacionais distintos que têm o seu nome para homenageá-las e protegê-las.

Os cientistas já temiam por seu futuro, quando veio o ano de 2020.

Os incêndios florestais, que queimaram mais de 4 milhões de acres na Califórnia, foram um evento histórico, e profético, prenunciando um futuro de calor mais intenso, mais incêndios e maior destruição. Entre as vítimas, em 2020 e nos próximos, há muitas das mais antigas e mais majestosas árvores de número já muito reduzido.

Em diferentes regiões do estado, em ecossistemas não relacionados entre si, separados por centenas de quilômetros, os cientistas estão chegando à mesma conclusão: se os últimos anos de incêndios constituíram um aviso a respeito da mudança climática, 2020 foi o ponto de exclamação.

No verão passado do hemisfério norte, na Sierra Nevada, uma ecologista especializada em incêndios, Kristen Shave acampou em um dos poucos antigos bosques remanescentes de sequoias gigantes, entre árvores tão antigas quanto a Bíblia. Meses depois, ela revisitou o bosque, e constatou tristemente a destruição.

“Ao longo de sua vida, elas sobreviveram a centenas de incêndios”, disse Shive. “Agora, elas foram mortas em uma única investida”.

No sul, o botânico Drew Kaiser, caminhou no que havia sido um dos maiores grupos de árvores de Josué, a extraordinária yucca, na Reserva Nacional do Mojave.

Em termos históricos, o deserto não é um lugar predisposto a incêndios devastadores. No entanto, Kaiser observou uma paisagem lunar de árvores de Josué esqueléticas caídas. Ele calculou que mais de 1,3 milhão delas foi destruído em um único incêndio, em agosto.

“Amo as árvores de Josué”, ele disse. “Não suporto vê-las desaparecer”.

Muito distante, ao norte, perto do Oceano Pacífico, Joan Kerbavaz, cientista ambiental, inspecionava antigas sequoias vermelhas, as maiores árvores da Terra.  Ela frequentava o Parque estadual de Sequoias Vermelhas da Grande Bacia desde que era menina, percorrendo as florestas.

“O perfume da sequoia vermelha no verão foi o aroma da minha juventude”, ela disse.

Em agosto, o fogo incinerou 97% do parque, onde de antigas sequoias vermelhas cobriam 4.400 acres. Quando Joan retornou em novembro, se deparou com uma paisagem de destruição, e constatou que toda sensação de atemporalidade e de continuidade havia sido subvertida.

“A floresta que eu via quando criança não voltará por muito tempo”, observou.

O encantamento que as florestas da Califórnia provocam é científico ou mesmo espiritual. Estas três famosas árvores do estado, provavelmente, suscitam ambas as sensações. A sedução nasce da mistura única das três, do seu tamanho, forma e idade. Por seu peso, sua altura, sua persistência. Por sua impressionante audácia.

Elas nunca são encontradas juntas. No entanto, compartilham de uma capacidade descomunal de crescerem silenciosamente nesse lugar e provocam alguma reação – suspiros, sorrisos, memórias. Quantas outras árvores atraem uma multidão?

A capacidade de resistência é o segredo do seu magnetismo. Elas guardam o seu terreno, com brio. As sequoias e as sequoias vermelhas podem viver milhares de anos enquanto a maior parte da vegetação ao seu redor parece diminuir de tamanho. As árvores de Josué são as mais bem-humoradas das plantas do deserto, congeladas em poses de dança enquanto suportam com charme o mais áspero dos ambientes.

Elas têm uma qualidade atemporal que pode levar o observador a sentir-se pequeno e não permanente em comparação, como acontece com o céu à noite.

É por isso que 2020 foi particularmente alarmante. Cada uma destas espécies já enfrentou ameaças violentas à sua capacidade de sobreviver a longo prazo, da seca ao desenvolvimento, envoltas nos desconhecidos efeitos futuros da mudança climática.

Embora não haja uma enorme preocupação a respeito destas espécies e de sua extinção – 2020 injetou um sentimento de urgência.

“As galinhas apocalípticas estão voltando para casa para empoleirar-se, mais cedo do que imaginávamos”, observou Christy Brigham, gerente de recursos dos Parque Sequoia e Kings Canyon National, habitados por dezenas de bosques remanescentes de sequoias e de muitas das maiores árvores do mundo. “Neste momento, estamos vendo consequências que achávamos chegar a ver daqui a 50 anos”.

SEQUOIAS

SEQUOIA CREST, CALIFÓRNIA – Até alguns anos atrás, a única coisa que matava uma antiga sequoia gigante era a idade avançada. Não só elas são as maiores árvores do mundo, em termos de volume – a árvore do General Sherman, considerada a maior, tem um diâmetro de quase 11 metros na base e mede cerca de 84 metros de altura – como são também as mais antigas. Pelo menos uma sequoia gigante caída tinha mais de 3.200 anos, segundo estimativas.

Elas duram tanto que historicamente, apenas uma ou duas a cada mil árvores vetustas morre anualmente, segundo Nate Stephenson, ecologista pesquisador para a U.S. Geological Survey.

O fogo sempre foi um visitante frequente nos bosques de sequoias, mas raramente uma ameaça. As sequoias maduras são praticamente à prova de fogo porque a sua casca pode ter vários centímetros de espessura. As copas, o cume onde há galhos e agulhas, é tão alta que elas ficavam acima das chamas, fora do perigo.

Até agora.

Desde 2015, queimaram cerca de dois terços dos 19 mil hectares de bosques de sequoias gigantes – e cerca da metade desta área desde agosto de 2019. A quantidade que queimou nos últimos cinco anos é o dobro do que queimou em todo o século anterior.

Mas não é apenas o número de incêndios ou de hectares que eles consomem. Os incêndios estão ficando maiores, mais quentes e mais altos do que nunca. Uma seca histórica de 2012 a 2016 e enormes infestações de besouros da casca mataram milhões de árvores  nas florestas mistas de coníferas da Sierra Nevada, deixando-as para trás quase gravetos.

E os danos aumentam.

O exemplo mais impressionante em 2020 é talvez o do Alder Creek Grove, um dos 19 bosques que queimaram em 2020. Ele tem 483 sequoias com tronco de quase dois metros ou mais, entre elas a Stagg Tree, considerada a quinta maior do mundo.

Em setembro, o Castle Fire chegou bem perto dela, parou em uma crista, e a ultrapassou em questão de horas.

Em outubro, Shive andou por montículos enegrecidos para contar as antigas sequoias mortas. Eram pelo menos 80, e algumas áreas  ainda não haviam sido examinadas. Em 2020, morreram talvez milhares de todas as sequoias gigantes

A Stag Tree sobreviveu, em parte talvez porque os bombeiros correram rapidamente com as mangueiras mirando a sua base. Mas será necessária uma quantidade muito maior de água para evitar a provável destruição das sequoias gigantes.

“Elas são literalmente insubstituíveis”, afirmou Shive. “A não ser que esperemos dois mil anos”.

AS ÁRVORES DE JOSUÉ

MOJAVE NATIONAL PRESERVE, CALIFÓRNIA – As árvores de Josué – uma yucca, não uma árvore, como foi batizada por colonos mórmons – já estão ameaçadas. A sua variedade está se reduzindo, e elas não estão bem adaptadas  para superar o ritmo acelerado da mudança climática. Os cientistas temem que os futuros visitantes não encontrem nenhuma arvore de Josué no Parque Nacional que tem o seu nome, assim como alguns temem que o Parque Nacional das Geleiras não tenha mais gelo o ano todo.

“É uma possibilidade”, disse Todd Esque, um ecologista do deserto da Geological Survey dos EUA.

Agora, os incêndios florestais, que anteriormente não constituíam uma ameaça, estão destruindo amplas áreas simultaneamente, ajudados pela mudança climática e as gramíneas invasoras.

O Incêndio de Dome consumiu 17,5 hectares e queimou a maioria das cerca de 1,3 milhão de árvores de Josué, segundo Kaiser, a gerente do programa de vegetação da Reserva Nacional do Mojave.

“O Cima Dome era o modelo no qual nos baseávamos em nossa busca das árvores de Josué que poderiam persistir nos próximos 100 anos”, disse Kaiser. “Era uma maravilhosa, luxuriante floresta de árvores de Josué já em declínio. Mas foram simplesmente varridas”.

Embora existam projetos para replantar os milhões que queimaram com milhares de novas árvores de Josué, “nunca voltará a ser como era antes,” acrescentou Kaiser. “Não com a mudança climática”.

AS SEQUOIAS VERMELHAS

PARQUE ESTADUAL BIG BASIN REDWOODS, CALIFÓRNIA –As sequoias vermelhas, as árvores mais altas da Terra, são as raras coníferas que podem voltar a brotar depois de eventos catastróficos, uma arma secreta para a longevidade. Matar uma delas com fogo é difícil.

Mas não impossível.

Aqui e acolá, durante uma excursão em um dia ensolarado de novembro, o verde esmeralda das que cresceram recentemente despontava do solo na base das árvores enegrecidas que, de outro modo, seriam consideradas  mortas. Em alguns casos, era preciso olhar para cima para os galhos mais altos já cobertos de brotos verdes, como os Chia Pets.

Kerbavaz encontrou um gigante chamado “Pai da Floresta”. As sequoias vermelhas podem viver 2 mil anos  e esta era negra até o topo. Mas cerca de 60 metros mais acima, havia sinais de vida.

“Está ficando verde”, ela disse aos que subiam pelo matagal atrás dela. “Ainda não morreu”.

Muitas árvores imponentes apresentavam o mesmo sinal. A esperança é que cerca de 90% das árvores antigas consiga viver. Mesmo assim, isto significa que 10% delas estão perdidas.

“Se alguma árvore está programada para sobreviver, é a sequoia vermelha da costa,” disse Kerbavaz. “Mas eu sempre volto à mudança climática. Acho que ela muda significativamente as regras básicas”.

É difícil imaginar a extinção das sequoias vermelhas, que crescem em uma área calculada ainda em milhões de hectares. O medo é quanto às árvores mais antigas, que hoje são relativamente poucas.

Quando Kerbavaz pesquisou o coração do parque, recentemente, trepando sobre as árvores mortas e explorando praticamente os tocos que ainda queimavam, o ruído distante das motosserras era pontuado pelo baque surdo ocasional das que caíam, condenadas por serem fracas demais para permanecer de pé, perto da rodovia 236, a bela estrada de duas faixas que corta o parque.

Perto da sede do parque Big Basin, totalmente destruída pelo fogo, há uma trilha que passa entre algumas das sequoias vermelhas do parque, desenhando um caminho agora em grande parte impenetrável por causa das árvores caídas.

Uma placa no começo da trilha conseguiu sobreviver.

“A Extraordinária Sequoia Vermelha Perene”, diz a placa.

A árvore atrás dela queimou e tombou.

“Quase à prova de fogo!” afirmava a placa.

Quase.

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