Rebecca Conway para The New York Times
Rebecca Conway para The New York Times

Índia ainda espera a prometida revitalização econômica

Crescimento do país não gera empregos suficientes e enfurece população

Peter S. Goodman, The New York Times

10 de junho de 2019 | 06h00

LUNSU VILLAGE, ÍNDIA - Em todo o Vale do Kangra, nas colinas abaixo dos picos cobertos de neve do Himalaia, a promessa de uma ferrovia moderna reverberou como o início de algo vital - acesso a empregos, hospitais, universidades e lojas. Muitos vilarejos estavam conectados ao resto do país por estradas de terra esburacadas e uma frágil ferrovia erguida pelos britânicos um século atrás.

Narendra Modi, então concorrendo ao cargo de primeiro-ministro, chegou à região em 2014 prometendo a libertação. Uma nova linha ferroviária forneceria um serviço de trem rápido e confiável. Mas, cinco anos depois, com a vitória de Modi em maio, os moradores olham para as antigas estradas com uma mistura de nojo e resignação.

"Nada aconteceu aqui", disse Lata Devi, 55 anos. "Quero encontrar Modi imediatamente. Quero que ele veja como nós vivemos".

Agora que a eleição terminou, Modi está enfrentando a fúria de eleitores por seu fracasso em cumprir a promessa que o levou ao cargo - a revitalização econômica.

O primeiro-ministro atraiu elogios pela diminuição da burocracia na Índia. Ele alterou as percepções de que seu país era hostil aos negócios, mas não conseguiu estimular um crescimento econômico significativo, em parte por causa de seu histórico decepcionante em reviver projetos paralisados. Modi tem defendido conexões ferroviárias, rodoviárias e elétricas como um meio de promover o desenvolvimento em um país com 1,3 bilhão de pessoas.

Embora a construção de estradas tenha prosseguido de maneira agressiva, a infraestrutura acima de tudo ficou aquém do esperado. Durante os últimos três meses de 2018, os investimentos em novos projetos caíram para o nível mais baixo durante o mandato de Modi, de acordo com o Centro de Monitoramento da Economia Indiana, uma organização de pesquisa.

"A redução após 2016 foi bastante severa", disse Mahesh Vyas, diretor administrativo do centro. "Ele pensou que poderia resolver todas essas coisas com uma varinha mágica".

A desaceleração do crescimento reduziu as receitas fiscais do governo, forçando Modi a reduzir os gastos com obras públicas. Estradas com pedágio e usinas privadas pararam porque os bancos retiveram o financiamento após perdas em empreendimentos anteriores.

O primeiro-ministro herdou uma condição preocupante que atormenta a Índia há décadas: o crescimento econômico que o país gera não produz empregos suficientes. Ele prometeu criar 10 milhões de empregos por ano.

Como ex-ministro-chefe de seu estado natal de Gujarat - amplamente saudado como o mais empreendedor da Índia -, ele era celebrado como um líder que podia aproveitar os recursos naturais do país, sua capacidade intelectual e sua enorme força de trabalho.

Mas durante seu primeiro mandato como primeiro-ministro, a taxa de desemprego teve a maior alta em 45 anos. Subiu de 2,2%, em 2011, para 6,1%, no ano passado, segundo dados do governo. 

No entanto, Modi foi reeleito ao ganhar o ardor das massas com seus apelos ao nacionalismo hindu e seus confrontos militares com o Paquistão.

Aqui no estado de Himachal Pradesh, no norte do país, o primeiro-ministro goza de um relacionamento especial devido aos seus dias de supervisão da região por sua organização política nacionalista hindu, o Partido Bharatiya Janata, ou B.J.P. Da cidade de Dharamshala - mais conhecida como a sede do líder espiritual exilado do Tibete, o Dalai Lama - para as aldeias do Vale do Kangra, as pessoas lamentam o estado da economia enquanto ainda elogiam Modi.

"Ele não conseguiu nada, mas veremos os resultados (no segundo mandato)", disse Ajai Singh, diretor administrativo da Glenmoor Cottages, grupo de residências particulares em Dharamshala.

Alguns problemas estão além do escopo de qualquer líder nacional. Modi tem governado como o banco central americano, o Federal Reserve, elevou as taxas de juros, provocando um êxodo de dinheiro dos mercados emergentes. Os preços do petróleo subiram, elevando os preços dos combustíveis.

Mas outros problemas decorrem diretamente das ações de Modi, especialmente a desastrosa ação de 2016 de proibir a maioria das notas de rupias indianas, em uma tentativa de interromper o financiamento de terroristas e comerciantes negros. O governo não conseguiu preparar novas notas, criando uma escassez incapacitante em uma economia dominada pelo uso de cédulas.

"O que se fez foi sugar a força vital do sistema de mercado", disse Jayati Ghosh, economista em Nova Délhi.

A crise do desemprego é especialmente aguda entre os jovens. Entre 2011 e 2018, a taxa de desemprego entre jovens de 15 a 29 anos aumentou de 8,1% para 18,7%, de acordo com a pesquisa de emprego. Entre as mulheres jovens, a taxa de desemprego é ainda mais acentuada, subindo de 13,1% para 27,2%.

Na estação de trem, Sapna Devi, 32 anos, senta-se ao lado de sua filha adolescente. Elas estavam indo a uma cerimônia hindu para raspar a cabeça do filho recém-nascido da prima. O vagão balança para frente e para trás.

"É muito lento", diz Devi. "Eu queria que fosse mais rápido". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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