Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

Índia sofre com a crise hídrica

Esse ano, a Índia teve o mês de setembro mais úmido em um século; mais de 1,6 mil pessoas morreram nas enchentes

Bryan Denton e Somini Sengupta, The New York Times

08 de dezembro de 2019 | 06h00

A monção é central para a vida e o folclore da Índia. Ela aparece na poesia antiga em sânscrito e nos filmes de Bollywood. Define a sorte de milhões de agricultores que dependem das chuvas para a nutrição de seus campos. Ela governa o que comemos, e tem até sua própria música. A mudança climática está agora afetando as monções, tornando a chuva sazonal mais intensa e menos previsível. Pior: políticas míopes do governo estão deixando milhões de pessoas sem defesa na era das perturbações climáticas, especialmente os pobres.

Após anos de seca, Fakir Mohammed, um agricultor em dificuldade, olha fixamente para um milharal arruinado pelas pragas e pela chuva tardia. A costureira Rajeshree Chavan, de Mumbai, teve que tirar a lama do apartamento alagado duas vezes durante a violenta monção desse ano. Os lagos que antes continham as chuvas na movimentada cidade de Bangalore estão entupidos de lixo e esgoto.

As pessoas se contentam com a água que conseguem encontrar. Em um vilarejo afetado pela seca, elas se reúnem em torno de um córrego fétido, pois é o que têm à disposição. Em Delhi, elas fazem suas preces em um rio que consideram sagrado, mesmo quando está coberto por espuma tóxica do lixo industrial. Em Chennai, onde as torneiras estão secas há meses, mulheres correm escada abaixo com potes de plástico coloridos sob os braços quando ouvem a aproximação do caminhão-pipa.

A chuva é mais imprevisível hoje em dia. Esse ano, a Índia teve o mês de setembro mais úmido em um século; mais de 1,6 mil pessoas foram mortas nas enchentes; e, quando os festivais da colheita tiveram início, em outubro, parte do país continuava inundada. Ainda mais preocupante é o fato de episódios extremos de precipitação estarem se tornando mais comuns e mais extremos.

Ao longo dos cem anos mais recentes, o número de dias com chuva muito pesada aumentou, intercalados por períodos mais longos de seca. A chuva constante capaz de penetrar e fertilizar o solo se tornou menos comum. Isso é péssimo para um país que obtém a maior parte de sua água das nuvens.

O problema é mais grave no cinturão central indiano, região pobre que se estende do estado de Maharashtra até a Baía de Bengala, de oeste a leste: nos 70 anos mais recentes, os episódios de precipitação extrema se tornaram três vezes mais frequentes na região, de acordo com estudo científico recente, enquanto a precipitação total anual diminuiu de maneira palpável.

“O aquecimento global destruiu o que chamamos de monção", disse o cientista Raghu Murtugudde, da Universidade de Maryland, um dos autores do estudo. “Temos que descartar a prosa e a poesia de milênios e reescrever tudo!” O Himalaia, a garantia da Índia contra as secas, também corre risco. As majestosas montanhas devem perder um terço do seu gelo até o fim do século se as emissões de gases-estufa seguirem aumentando no ritmo atual.

Mas, como dizem os cientistas, nem tudo é consequência da mudança climática. Décadas de ganância e má administração são responsáveis mais diretas. As exuberantes florestas que ajudam a reter a chuva continuam sendo arrasadas. Construtoras pavimentam riachos e lagos.

Subsídios do governo incentivam a extração insustentável da água do solo. O futuro é sombrio para o 1,3 bilhão de habitantes da Índia. De acordo com estimativas do Banco Mundial, já em 2050 a chuva errática e a alta da temperatura devem se combinar para “rebaixar o padrão de vida de quase metade da população do país".

Verões quentes e cruéis

A região de Marathwada, no oeste da Índia, é conhecida pelos verões quentes e cruéis. Quase não há rios cruzando a área, de modo que os habitantes de Marathwada dependem quase inteiramente da monção para encher seus poços e umedecer o solo escuro. Marathwada é também um exemplo de como decisões do governo que nada têm a ver com a mudança climática podem trazer consequências dolorosas na era da mudança climática.

Em outubro, semanas antes da tradicional temporada da colheita, Fakir Mohammed, 60 anos, mostrou o pequeno terreno de sua família. Um pé de nim se erguia no meio do campo. Quem se deita à sua sombra nunca adoece, disse Mohammed com orgulho. Mas o mesmo não poderia ser dito de suas terras.

As chuvas foram insuficientes na maior parte dos nove anos anteriores. Esse ano, as chuvas chegaram tarde, e o solo sedento absorveu tudo. Então, o milho de Mohammed foi atacado por uma infestação de lagartas. O painço foi devastado por uma mosca.  “Trabalhamos duro", disse ele. “Mas não recebemos nada em troca.”

Pior, a chuva desse ano nada fez para aliviar a falta de água potável na comunidade. Mesmo no fim da monção, o poço de Mohammed estava vazio. Uma represa próxima, construída para fornecer água potável a esse vilarejo e 20 outros semelhantes a ele, foi transformada em pasto, recebendo apenas um punhado de vacas magras.

A água é tão preciosa que as mulheres dessa família disseram beber meio copo quando desejam um copo cheio. Ficam sem o banho diário pra que os filhos possam ir à escola limpos. Quando estavam com os nervos à flor da pele, chegaram a bater em uma criança de derrubou um copo por acidente. Todos os dias, quatro caminhões do governo percorriam a estrada enlameada para encher o tanque d’água do vilarejo, que atende apenas a uma fração das necessidades dos habitantes.

Desde 1950, a precipitação anual teve queda de 15% em Marathwada. No mesmo período, as trombas d’água, que depositam grandes quantidades de água em intervalos curtos, se tornaram três vezes mais frequentes. Durante o mesmo período, Marathwada e o restante da Índia viram uma explosão na produção de uma das colheitas mais sedentas do planeta: a cana de açúcar.

Seguindo a estrada que leva ao vilarejo de Mohammed, passando por terras que recebem água de uma represa rio acima, os agricultores tinham plantado muitos acres com cana de açúcar. Engenhos surgiram em todo o estado, alguns deles pertencentes a políticos e seus amigos. Estavam preparados para pagar generosamente pela cana.

O governo subsidia a eletricidade, incentivando os agricultores a extraírem água dos lençóis freáticos para irrigar os canaviais. Bancos estatais oferecem crédito barato em empréstimos que às vezes nunca são quitados, especialmente quando os políticos estão à caça de votos.

Esse ano, o governo aprovou quase US$ 880 milhões em subsídios à exportação destinados aos engenhos de açúcar. A produção de cana de açúcar cresceu mais rápido que a de qualquer outro gênero desde a independência da Índia do governo britânico em 1947, fazendo do país o maior produtor mundial. 

Os problemas do Rio Mithi

A imagem do deus hindu, Ganesha, pendurada acima da estreita porta de Savita Vilas Kasurde tem como objetivo manter afastados os obstáculos do rumo de sua família. O mesmo não pode ser dito a respeito do Rio Mithi, que corre a poucos metros da ports de Savita. Seu curso é constantemente bloqueado enquanto serpenteia por Mumbai, cidade de 13 milhões de habitantes.

Esgoto e lixo são jogados no Mithi. Uma vasta área de arranha-céus foi construída em terras recuperadas do curso do Mithi, bem como enclaves improvisados de classe trabalhadora como este, perigosamente equilibrado no limiar da margem. Esses são os primeiros a inundar após uma chuva pesada. Savita já é veterana. Quando a água sobe, ela ergue a geladeira sobre a mesa mais alta, tira a televisão da tomada, envolve os livros escolares dos filhos com plástico. Quando a água chega aos joelhos, ela lev tudo para o quarto no segundo andar.

Mumbai recebeu esse ano mais chuva do que nos 65 anos anteriores, que caiu em tempestades mais pesadas de frequentes nessa temporada. O sistema de drenagem foi sobrecarregado. As ruas ficaram cheias de porcaria. Trens do sistema de transporte foram afetados. Voos foram desviados. No bairro de Savita, as escolas foram convertidas em abrigos contra enchente várias vezes.

Depois de cada enchente, quando as águas começam a recuar, eles voltam cobrindo o nariz para varrer a lama de suas casas. Mosquitos se reproduzem nas poças de água suja. Havia a ameaça de uma epidemia de dengue. Essa era a maior preocupação de Rajeshree Chavan no meio da monção. Em duas ocasiões esse ano, ela conseguiu salvar a máquina de costura, sua fonte de renda, quando o andar de baixo de sua casa foi inundado. Teve de jogar fora um saco de arroz e as roupas dos filhos.

Ela se disse furiosa com os políticos que só visitam a região em busca de votos. Até o principal político do estado esteve lá esse ano, disse ela. Ele queria o apoio do bairro para o Partido Bharatiya Janata, da situação, de acordo com a costureira. Ele prometeu novas casas para as pessoas, em terras mais altas, nos subúrbios ao norte da cidade. Foi embora depois de entregar chaves simbólicas de plástico a cinco famílias. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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