Rebecca Conway para The New York Times
Rebecca Conway para The New York Times

Com apelo à guerra religiosa, pop indiano amplifica onda de nacionalismo hindu

Minorias religiosas temem que alguns dos partidários nacionalistas hindus do primeiro-ministro tornem a vida perigosa para os que não mostram patriotismo ou fervor religioso hindu

Kai Schultz, The New York Times

14 de novembro de 2019 | 06h00

RAIPUR, ÍNDIA - A estrela da música pop indiana subiu no palco em um show na cidade. “Todas as casas se tingirão de açafrão!” gritou no microfone a cantora Laxmi Dubey referindo-se à cor que representa o hinduísmo. “Precisamos pôr os terroristas a correr da nossa terra abençoada!” A multidão aplaudiu quando ela acrescentou com a mão o gesto de cortar a garganta.

Laxmi é uma das maiores estrelas que, nos últimos anos, lidera a ascensão da música pop hindutva na Índia. Hindutva é uma palavra que define a cultura dos devotos hindus, e a música que traz o seu nome combina histórias religiosas tradicionais do hinduísmo ou clips de Bollywood com ritmos de dança - cujas letras em alguns casos pedem abertamente o assassinato de infiéis, conversões forçadas ou ataques ao Paquistão.

É a música dos tempos na Índia do primeiro-ministro Narendra Modi. Os muçulmanos e outras minorias temem que alguns dos partidários nacionalistas hindus de Modi ameacem os alicerces seculares da nação e tornem a vida perigosa para os que não mostram patriotismo ou fervor religioso hindu.

Durante as festividades hindus, as procissões começam a tocar no tom mais alto suas músicas nos bairros muçulmanos como uma demonstração de intimidação. A maioria das canções usa insistentemente o apelo “Jai Shri Ram!” Significando Salve Senhor Ram, um importante deus hindu, ele se tornou o grito de guerra dos nacionalistas hindus. As multidões atacam os muçulmanos que se recusam a acompanhar a sua invocação.

“Hoje, o ódio associado à suposta fé foi assimilado como algo normal”, disse T. M. Krishna, um dos cantores tradicionais mais famosos da Índia. “As máscaras caíram, e o que estamos vendo preocupa profundamente”. Laxmi, 30, disse em uma entrevista ao The New York Times que o seu objetivo é recrutar soldados para que a Índia se torne uma nação hindu. O governo de pelo menos um estado dominado pelo Partido Bharatiya Janata de Modi usou dinheiro público para financiar os espetáculos da estrela.

Algumas das expressões mais violentas do pop hindutva focalizam a Caxemira, o território de maioria muçulmana que é disputado pelo Paquistão e que, em agosto, perdeu sua autonomia por uma ordem emanada pelo governo de Modi. Para alguns dos milhões de muçulmanos indianos estas expressões hiper patrióticas são vistas como uma amaça pessoal. Uma música de outro artista pop hindutva popular, Sanjay Faizabadi, intitula-se A Caxemira é a nossa vida.

“Irei ao Paquistão e farei dos teus olhos bolinhas de gude para jogar!” ele canta, gabando em seguida em outro verso sua campanha de conquistas sexuais naquele país. Em uma entrevista, Faizabadi reconheceu que as suas letras dão a impressão de que ele defende a violência. Mas o cantor insistiu que não tem nada contra os muçulmanos, só contra os que espalham o terrorismo.

A extrema direita nunca se sentiu mais encorajada na Índia do que agora. Alguns dos principais expoentes no governo de Modi têm se referido repetidamente aos imigrantes como cupins, ameaçou com a privação da cidadania centenas de milhares de muçulmanos e encorajou à violência bandos que agem contra pessoas acusadas de abaterem as vacas, animal sagrado para os hindus. (A maioria dos açougueiros na Índia é muçulmana ou pertence às castas inferiores.) As apresentações de Laxmi atraem milhares de pessoas.

Em um espetáculo recente, ela cantou uma das suas canções mais famosas, Todas as casas se tingirão de açafrão! Com o braço dobrado para trás, Laxmi fez o gesto de atirar uma flecha imaginária. “Só governarão pessoas da cor do açafrão!” gritou. “Um só slogan, um só nome: Jai Shri Ram! Jai Shri Ram!”. Sophia Kishkovski contribuiu para a reportagem. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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