Atul Loke para The New York Times
Atul Loke para The New York Times
Jeffrey Gettleman e Maria Abi-Habib, The New York Times

06 de março de 2020 | 06h00

NOVA DELHI — Enquanto bairros da capital da Índia ardiam em chamas e o derramamento de sangue consumia mais de 40 vidas, a maioria delas de muçulmanos, o governo indiano se apressou em dizer que a violência no fim de fevereiro foi espontânea. Mas os críticos dizem que as mortes eram inevitáveis. De acordo com eles, passo a passo, as políticas adotadas pelo primeiro ministro Narendra Modi concederam impunidade e fomentaram o ódio religioso — dando margem a um perigoso ecossistema do nacionalismo hindu. Era apenas questão de tempo para que a violência eclodisse.

“Os defensores do governo têm a sensação de que podem cometer crimes de todo tipo, pois acreditam gozar de proteção política”, disse Meenakshi Ganguly, diretor da Human Rights Watch para o Sul da Ásia. Bairros onde hindus e muçulmanos conviviam normalmente estão se desfazendo. 

A pergunta é se o banho de sangue vai fazer Modi mudar de direção — sua primeira campanha para o cargo de primeiro-ministro tinha o slogan “Juntos por todos, desenvolvimento para todos", apresentando-o como um reformista econômico e fazendo pouco do histórico de nacionalismo hindu do partido dele, Bharatiya Janata. Pairavam contra Modi acusações de cumplicidade no massacre de muçulmanos em Gujarat em 2002, quando ele era governador do estado. Mas o eleitorado indiano moderado votou nele, na esperança que tivesse mudado.

Então começaram a aparecer as turbas de linchadores, que deixaram muitas vítimas, em sua maioria muçulmanos. Modi indicou extremistas hindus para cargos importantes. Nomes de lugares e livros escolares foram alterados para diminuir a ênfase na contribuição dos muçulmanos indianos. Esses, que chegam a 200 milhões, dizem nunca ter se sentido tão marginalizados.

Em um país de população 80% hindu, Modi e seu partido obtiveram uma vitória esmagadora, e o ritmo das políticas nacionalistas hindus se acelerou. Em agosto, a autonomia do único estado de maioria muçulmana, Jammu e Caxemira, foi revogada. Em dezembro, o governo aprovou uma lei que abre caminho para a cidadania de imigrantes das principais religiões do Sul da Ásia, com exceção de uma: o Islã.

Muitos indianos progressistas enxergam nisso uma ameaça à fundação da Índia enquanto estado secular e inclusivo. Lideranças do PBJ denunciaram os manifestantes como agentes do Paquistão, arqui-rival. Um ministro, Anurag Thakur, comandou uma multidão gritando “Fuzilem os traidores!” em um comício.

“Sinceramente, não entendo como se chega de ‘Juntos por todos, desenvolvimento para todos’ a multidões gritando ‘Fuzilem os traidores!’”, disse Alyssa Ayres, pesquisadora do Conselho de Relações Estrangeiras. “Muitos indianos estão se perguntando como as coisas chegaram a esse ponto.”

Em Delhi, as tensões se tornaram explosivas. No dia 23 de fevereiro, Kapil Mishra, membro do partido de Modi, acendeu a faísca com a ameaça de rechaçar manifestantes muçulmanos pacíficos. Hindus e muçulmanos começaram a jogar pedras uns nos outros e a multidão enfurecida cresceu.

O governo não agiu com a rapidez necessária. Alguns especularam que isso estaria relacionado à visita do presidente Donald Trump. Testemunhas relatam outra cena: turbas varrendo bairros, incendiando casas e matando pessoas, com a polícia apenas observando nos casos em que a multidão era hindu. Nacionalistas hindus negam que suas políticas tenham alimentado a violência. No quarto dia, depois de 20 mortes, Modi pediu a seus “irmãos e irmãs que mantenham a paz".

Ainda não se sabe se ele vai mudar de rumo. Hoje em dia, o primeiro-ministro fala menos no desenvolvimento prometido. A economia vai mal, com o mais alto desemprego dos 45 anos mais recentes. “Para construir a nação hindu, o controle é tudo", disse Shivshankar Menon, ex- conselheiro de segurança nacional. “Talvez eles continuem a estimular as tensões domésticas. Precisam da violência como distração para esses fracassos.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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