Rebecca Conway / The New York Times
Rebecca Conway / The New York Times

Soldados da Índia e do Paquistão 'celebram' inimizade na fronteira

Com cerimônia coreografada, guardas exaltam o nacionalismo, sentimento que é 'espinha dorsal' da crise no relacionamento entre as nações; 'está se tornando uma atração turística', diz um oficial

Jeffrey Gettleman, The New York Times

02 de fevereiro de 2020 | 06h00

FRONTEIRA ENTRE ÍNDIA E PAQUISTÃO – Muito antes do início da cerimônia, a multidão vai crescendo, milhares de pessoas se aproximam de ambas as direções – crianças nos ombros dos pais, jovens mães caminhando rapidamente atrás deles, idosos esforçando-se para acompanhá-los. Os alto-falantes berram: “Vocês... estão ...preparados?”. As pessoas gritam ao passar diante dos fossos com as metralhadoras instaladas e dos homens que vendem pipoca fresca, fragrante. Mas os negócios não são muito bons. Ninguém para, ninguém quer perder um segundo do que está prestes a acontecer.

Todas as tardes, no posto da fronteira Wagah-Attari, ao longo da zona militarizada entre Índia e Paquistão, desenrola-se uma cena forte e impressionante, uma homenagem a uma força poderosa: o nacionalismo.

Cidadãos de dois países essencialmente opostos invadem as arquibancadas que foram construídas na fronteira, a poucos metros uns dos outros, e realizam encontros enormes. As multidões são como imagens em um espelho – aproximando-se uma da outra, alimentadas uma pela outra. Não são reuniões para cruzar a fronteira, mas para uma massa se defrontar. “Viva o Paquistão!”, gritam de um lado. “Viva a Índia!”, berram do outro.

A atmosfera é eletrizante, e um pouco ameaçadora. O nacionalismo precisa de um inimigo, e as duas nações construíram estes locais para estimulá-lo. Com a nova crise nas relações entre Índia e Paquistão, estas cerimônias estão assumindo um novo aspecto.

A tensão chega ao ápice quando guardas de fronteira indianos marcham na direção dos portões que separam os dois países, e os soldados paquistaneses fazem o mesmo. As multidões têm um sobressalto. Está na hora da correria.

Exatamente no mesmo instante, as forças indianas e paquistanesas escancaram os seus portões. Os soldados mais altos, mais imponentes de cada lado  marcham na frente. Estão cada vez mais próximos. Mas quando estão prestes a se tocar, param repentinamente.

Os soldados se encaram. Levantam a perna direita e a batem violentamente no chão, cada lado imitando os movimentos do outro. Os soldados usam o mesmo tipo de barrete com o leque.

Tudo é coreografado, o que é quase impossível avaliar, considerando que as duas nações não gostam uma da outra, não confiam uma na outra, e não podem cooperar em muitas outras coisas. No ano passado, quando Índia e Paquistão quase entraram em guerra, o espetáculo continuou sendo encenado.

As origens da cerimônia na fronteira remontam aos anos 40, quando esta foi demarcada pela primeira vez por oficiais indianos e paquistanesas que haviam servido no mesmo regimento no exército colonial. Os dois lados decidiram que iriam abaixar as suas bandeiras ao mesmo tempo.

Os oficiais contaram que, quando ensaiam o exercício, os soldados falam uns com os outros através dos portões: “baixar no mesmo segundo”, dizem, para que o espetáculo seja perfeito. “A ideia disto é: ‘Eu compreendo você e você me compreende’. Não é um confronto. É uma manifestação dos melhores sentimentos de cada lado'", explicou N.K. Singh, um oficial de fronteira indiano da reserva. E admitiu: “Além disso, está se tornando  uma atração turística”.

À medida que a multidão vai crescendo, vai ficando turbulenta. Alguns berram vulgaridades. Do lado indiano, as pessoas dançam desenfreadamente. Do lado paquistanês, que tem arquibancadas menores, as pessoas batem palmas; ninguém dança.

A Índia está às voltas com uma onda de nacionalismo, cuidadosamente orquestrado por seu governo nacionalista hindu, liderado pelo primeiro-ministro Narendra Modi. Mas o Paquistão está com problemas. Mohsin Hamid, um romancista paquistanês, participou da cerimônia no inverno passado, e disse que estava muito perturbado com a intolerância. “Fiquei realmente assustado com a coisa toda”, disse. / Salman Masood, Hari Kumar e Suhasini Raj contribuíram para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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