Atul Loke para The New York Times
Atul Loke para The New York Times

Indianos usam WhatsApp para salvar tradições agrícolas e culinárias

Em um país onde as tradições muitas vezes não são escritas, a ferramenta serve como um fórum aberto e democrático para compartilhar informações

Priya Krishna, The New York Times

23 de dezembro de 2018 | 06h00

Anil Bandawane, lavrador que mora perto de Pune, na Índia, estava cansado dos maus conselhos do serviço nacional de atendimento a dúvidas agrícolas. A vida de lavrador na Índia pode ser bem solitária, e ele se sentia isolado de seus pares. Então, começou um grupo de WhatsApp chamado Baliraja (que significa “rei agricultor” na língua marathi). O grupo, que permite que agricultores de todo o país troquem conhecimentos e apoio na popular plataforma de mensagens, ganhou tanta força que Bandawane criou mais de uma dúzia de subgrupos diferentes para vários distritos.

No Estado de Kerala, a dona de casa Bharathy Gopalakrishnan fez cupcakes e ficou com alguns de sobra. Foi o suficiente para a criação do PB Kitchen, um grupo de WhatsApp que ela fundou para possibilitar que as mulheres de seu complexo de apartamentos comprassem e vendessem pratos caseiros umas das outras.

Na mesma época, Krishna Prasad, diretor de um grupo de defesa da agricultura orgânica, e o cientista Abhishek Naik queriam compartilhar receitas saudáveis e informações sobre alimentos orgânicos. Então criaram um grupo de WhatsApp, o Anna Arogya (“comida para a boa saúde”, em kannada).

Já se passaram três anos desde que o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, lançou uma iniciativa para aumentar a conectividade dos indianos, especialmente nas áreas rurais. O WhatsApp, que é propriedade do Facebook, tornou-se o meio preferencial: é gratuito, requer apenas uma conexão com a internet e geralmente já vem instalado nos telefones. Como resultado, a Índia agora tem mais usuários de WhatsApp - mais de 200 milhões, ou um em cada seis indianos - do que qualquer outro país, disse uma porta-voz da empresa.

Vários grupos usaram o WhatsApp para espalhar notícias falsas e incitar a violência das massas. Mas, entre os indianos que gostam de comer bem, o aplicativo tem sido uma dádiva de Deus. Em um país onde as tradições muitas vezes não são escritas, o WhatsApp serve como um fórum aberto e democrático para compartilhar informações.

Aysha Tanya, 29 anos, fundadora da The Goya Journal, publicação sobre estilo de vida, disse que usa o aplicativo para pegar receitas da mãe, porque é a única plataforma digital em que as pessoas de mais idade se sentem confiantes. 

"Ela nos envia aquelas mensagens de áudio, o que permite que ela dê detalhes bem minuciosos sobre as receitas", disse Tanya. " muito mais pessoal".

Noshirwan Mistry, 44, cultiva mangas em Ladghar. Ele usa o WhatsApp para enviar fotos das frutas para potenciais compradores em todo o país. E também o utiliza para transmitir conhecimentos tradicionais, como saber se as mangas estão no ponto (o cheiro tem de ser sentido a pelo menos 4 metros de distância).

No ramo de restaurantes da Índia, repleto de jovens trabalhadores horistas, o WhatsApp se tornou o principal meio de comunicação. Thomas Zacharias, 32 anos, chef executivo e sócio do restaurante Mumbai Bombay Canteen, disse que usa mais de 20 grupos para treinar novos funcionários. 

"Tenho muitas pessoas que ainda não se formaram no Ensino Médio, mas se sentem muito confortáveis usando o WhatsApp", disse ele. "O WhatsApp quebra essa barreira e não julga com base na origem ou na formação".

A acessibilidade do WhatsApp permite que ele funcione como um banco de dados para indianos de várias gerações compartilharem seus conhecimentos sobre alimentos - quase sempre pela primeira vez. A consultora culinária Saee Koranne-Khandekar, 36, que vive em Mumbai, criou um grupo de WhatsApp para a família, com cerca de 50 membros. Os parentes trocavam tantas receitas, sobretudo os mais velhos, que ela transformou as fotos e mensagens em um livro de receitas da família, em 2014. O que ela mais gostava era que o aplicativo possibilitava "um debate ativo sobre as receitas", disse ela. "Se alguém dissesse, 'tal parente costumava fazer pakoras com cebolas raladas', outra pessoa vinha e dizia, ‘Não, ela não ralava, mas cortava bem fininho'".

Ser dona de casa, segundo Gopalakrishnan, é um trabalho ingrato. Com o PB Kitchen, "as pessoas sentem que sua comida é desejada e ainda ganham algo a mais". Depois das enchentes em Kerala, em agosto, Gopalakrishnan enviou uma mensagem aos membros do PB Kitchen pedindo doações de chapati, um pão indiano.

"Colocamos a mensagem à noite e, às 10h da manhã, já tínhamos entre 2 mil e 2.500 chapatis que nós mesmas embalamos e enviamos", contou ela. "Fiquei muito orgulhosa com o grupo".

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