Esteban Felix/Associated Press
Esteban Felix/Associated Press

Indígenas do Chile estão revoltados com morte de jovem

Forças de elite mostram envolvimento na disputa por terras ancestrais

Pascale Bonnefoy, The New York Times

28 de novembro de 2018 | 06h00

SANTIAGO, CHILE - A morte de um jovem indígena nas mãos de um esquadrão policial de combate ao terrorismo intensificou as críticas ao tratamento dispensado pelo governo do Chile às comunidades nativas do sul do país.

A disputa envolvendo terras ancestrais, que os Mapuche consideram suas, levou líderes chilenos a tratar alguns ativistas dos direitos indígenas como terroristas. No dia 14 de novembro, Camilo Catrillanca, um Mapuche de 24 anos, pilotava seu trator quando um esquadrão policial antiterrorismo o abordou, aparentemente suspeitando da sua participação num roubo de carro.

De acordo com um rapaz de 15 anos que estava no trator, Catrillanca começou a levar o trator para longe dos policiais quando membros dos Comandos da Selva o balearam na nuca. O adolescente, detido e espancado pela polícia, disse que o oficial que fez o disparo mortal estava usando uma câmera, da qual removeu o cartão de memória.

Inicialmente, os policiais alegaram que não estavam usando câmeras, mas, posteriormente, admitiram ter apagado o vídeo. O presidente chileno, Sebastián Piñera, prometeu “esgotar todos os meios” para determinar o que ocorreu. Mas disse defender o direito da polícia de “reagir quando atacada".

Depois que o promotor público deu início a uma investigação, dois oficiais de alta patente deixaram seus postos e quatro oficiais diretamente envolvidos na morte foram expulsos da corporação. O governador regional também renunciou.

O Instituto Nacional de Direitos Humanos deu entrada num processo criminal, pedindo que a polícia seja acusada de assassinato. Em sete anos, o instituto apresentou mais de 30 queixas ligadas a operações policiais abusivas contra os Mapuche.

A morte de Catrillanca motivou protestos em várias cidades e regiões rurais. Congressistas, lideranças da oposição e grupos de defesa dos direitos estão questionando a estratégia do governo para o que é frequentemente chamado de “conflito Mapuche".

Os Mapuche afirmam que perderam boa parte do seu território ancestral, que engloba a região da fronteira entre Chile e Argentina, quando o governo assumiu o controle de terras que não lhe pertencem formalmente. Algumas comunidades Mapuche ocuparam parte dessas terras. 

Um número pequeno recorreu a ações violentas, como incêndios criminosos contra a infraestrutura corporativa. Piñera, que assumiu a presidência em março, despachou os Comandos da Selva para as áreas indígenas mais rebeldes no sul do Chile, a partir de junho.

Catrillanca vivia na comunidade Mapuche de Temucuicui, que declarou seu controle autônomo de terras ditas ancestrais há mais de 15 anos. A comunidade tem cerca de 150 famílias habitando uma área de 5 mil acres. 

Jaime Huenchullan, porta-voz dos Temucuicui, disse que a militarização da região promovida pelo governo teve início mais ou menos na mesma época. “Nos dois meses mais recentes, os comandos fizeram operações abusivas em nossas comunidades praticamente todos os dias", disse ele.

Catrillanca é o quarto Mapuche morto pela polícia desde 2002. Era pai de uma filha de 6 anos, e a viúva espera outro bebê. Estudou no colégio politécnico de Pailahueque, hoje transformado num quartel-general do Comando da Selva, deixando sem escola os estudantes da região.

“As demandas legítimas e históricas dos Mapuche por terra e autonomia não podem ser resolvidas pela militarização", disse Huenchullan. “Acredito que o problema seja o racismo, a discriminação e o ódio contra os Mapuche.”

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