Lianne Milton para The New York Times
Lianne Milton para The New York Times

Indígenas lamentam perda de documentos históricos em incêndio no Museu Nacional

'É como um novo genocídio', disse integrante da tribo Tenetehára-Guajajara

Manuela Andreoni e Ernesto Londoño, The New York Times

20 Setembro 2018 | 15h00

RIO DE JANEIRO - Ativistas indígenas comemoravam um aniversário com alguns pesquisadores quando viram as chamas devorando o edifício a alguns metros de distância.

"O museu está pegando fogo!", disse José Urutau Guajajara, da tribo Tenetehára-Guajajara, que estava pesquisando a herança de seu povo nos arquivos do Museu Nacional. Quando eles chegaram ao palácio secular, que guardava o maior arquivo do mundo sobre a cultura e a história dos índios brasileiros, as chamas o haviam engolido.

José Urutau quis entrar correndo no edifício, mas foi impedido pelos guardas. Ele ficou observando enquanto centenas de milhares de documentos, artefatos e obras de arte eram reduzidas a cinzas naquela noite de 2 de setembro.

Foi uma perda monumental para os historiadores brasileiros. Mas a destruição dos artefatos indígenas representou um golpe mais pessoal para os descendentes dos mais antigos habitantes do Brasil. 

"É como um novo genocídio, como se eles tivessem assassinado mais uma vez todas estas comunidades indígenas. Era ali que se encontrava a nossa memória", lamentou José Urutau.

O Brasil tem se esforçado para apresentar-se como um país que olha para o futuro. Para hospedar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o governo investiu bilhões em projetos públicos que o mostravam como uma nação moderna, em pé de igualdade com as potências globais. Talvez nada ilustre melhor este ímpeto para alcançar o futuro - frequentemente em detrimento do passado - do que o contraste entre o Museu do Amanhã, projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, e os locais históricos do Rio.

A criação de Calatrava, como uma nave espacial suspensa sobre a baía no Rio de Janeiro, começou a ser construída em 2015 e custou R$ 215 milhões. Ela fica a apenas alguns quarteirões de espaços fundamentais para as origens do Brasil, como o cais, outrora um dos portos de escravos mais movimentados das Américas. Esses locais receberam pouca atenção do governo: o terreno do cais, considerado Patrimônio Mundial pela Unesco, está sujo e abandonado.

Quando José Urutau e seus amigos viram o fogo consumir o Museu Nacional, estavam reunidos na casca do que havia sido outrora o Museu do Índio do Brasil, abandonado há dezenas de anos. O edifício dos Arquivos Nacionais, que, segundo os bombeiros haviam declarado há tempos, poderia pegar fogo a qualquer momento, fica ali próximo. Mas a negligência do Museu Nacional, antiga residência de imperadores, destacou-se como algo singularmente ultrajante para os pesquisadores que trabalhavam ali.

A falta crônica de recursos expôs ligações elétricas improvisadas em seus corredores e salões, tetos danificados e excrementos de morcegos escorrendo pelas paredes. Uma infestação de cupins obrigou ao fechamento da exposição dos dinossauros, no ano passado.

Historiador do museu, Antônio Carlos de Souza Lima disse que as lideranças do Brasil investiram em áreas que poderiam tornar-se lucrativas. “Eles consideram a cultura um negócio, não a alma de uma nação", disse.

A coleção de artefatos indígenas do Museu Nacional incluía 40 mil itens que pertenceram a mais de 100 grupos étnicos. Uma máscara feita por membros da tribo Tikuna, que foi doada ao imperador Dom Pedro I, era muito provavelmente o item mais antigo. Havia também um enfeite de cabeça feito por membros da tribo Munduruku, exposto pela primeira vez em 1882.

Mas a perda mais grave talvez tenha sido a coleção do etnólogo alemão Curt Nimuendaju. Nascido Curt Unckel, foi adotado por membros de uma tribo guarani no estado de São Paulo. Ali ele recebeu um novo nome, que significa "aquele que criou seu próprio lugar". Unckel morreu entre o povo Tikuna em 1945, deixando para trás um tesouro de notas, cartas, diários de expedições e um mapa detalhando a localização e as línguas dos grupos que ele contatou.

"Todos os anos de sua vida, ele fazia uma nova expedição", contou João Pacheco, curador da exposição etnológica nos últimos 20 anos. "Ele foi o principal etnógrafo brasileiro".

O Museu Nacional vinha lutando comntra as dificuldades financeiras ao longo das últimas décadas, e em 1995, uma inundação encharcou as múmias egípcias. O BNDES havia prometido o financiamento de uma reforma no valor de US$ 5 milhões, que incluiria a instalação de um sistema contra incêndios. As obras se iniciariam no final deste ano.

Depois do incêndio, Daniela Alarcon, uma antropóloga do Museu Nacional que estudou o povo Tupinambá da Bahia, reuniu as declarações dos líderes da tribo sobre sua perda.

"Aquele lugar era como uma memória, a memória de um computador que a qualquer momento, qualquer grupo étnico do meu povo poderia acessar para obter informações, para saber o que nós somos, para não nos sentirmos perdidos", afirmou Glicéria Jesus Silva, uma das atuais líderes dos tupinambás.

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