Brook Mitchell para The New York Times
Brook Mitchell para The New York Times

Indígenas buscam reconhecimento oficial do governo australiano

Excluído da Constituição da Austrália, Murrumu de Walubara, um aborígine, renunciou à cidadania e formou uma nação soberana do norte do continente

Livia Albeck-Ripka, The New York Times

02 de outubro de 2019 | 06h00

MILLN REEF, AUSTRÁLIA - Murrumu de Walubara e seu filho, Thoyo, remavam nas águas cristalinas da Grande Barreira de Coral. Estavam afastados 60 quilômetros da costa da Austrália - ou, como diz Walubara, do que a maioria das pessoas chama de Austrália. Para ele, a Grande Barreira de Coral é parte do Território Yidinji, uma nação autodeclarada que se espalha por mais de 15.500 quilômetros quadrados na parte noroeste do continente, que ele constituiu em 2014.

Cinco anos atrás, após se dar conta de que não era reconhecido pela Constituição da Austrália enquanto homem indígena, Walubara se demitiu do emprego que tinha, renunciou à cidadania australiana e ao nome anterior, Jeremy Geia. Ele afirmou que devolveu o passaporte, os documentos de identificação no sistema de saúde e a carteira de motorista aos respectivos departamentos governamentais e destruiu seus cartões bancários australianos.

“Eu costumava supor que tinha uma afiliação verdadeira e correta na comunidade da Austrália”, afirmou Walubara, agora com 45 anos, ao falar sobre as cartas que enviou a cada departamento do governo. “Cometi um erro: não estou mais qualificado para os benefícios da sua sociedade. Recebam de volta seus instrumentos.”

Enquanto especialistas afirmam que a Austrália dificilmente reconhecerá as reivindicações de soberania de Walubara, seus argumentos têm valor num país que ainda não reconheceu os indígenas australianos em sua Constituição, nem fez um acordo com as populações marginalizadas, que têm buscado uma voz no Parlamento.

Walubara é ministro de Relações Exteriores e Comércio do Governo Soberano de Yidinji, que possui dez ministros e quase 100 cidadãos. Tratados com governos soberanos indígenas são o único remédio, diz ele, contra a dor imposta a gerações de povos indígenas, que, considera-se, passaram a habitar a Austrália 65 mil anos antes da chegada dos britânicos. “Nós não vamos embora - e não queremos que a Comunidade da Austrália vá embora”, disse ele. Seu governo não quer compensação, e sim reconhecimento enquanto entidade oficial por parte da Austrália.

Walubara nasceu em Cairns, filho de uma mãe aborígene e um pai judeu da Croácia. Ele buscou respostas para seus sentimentos de não pertencimento viajando por dezenas de países, incluindo Cuba (fez uma imersão no comunismo) e México. Posteriormente, entrou no jornalismo, meio pelo qual ele acreditava que poderia cobrar e denunciar os poderosos.

Ele atuou como repórter por duas décadas. Em 2012, foi um dos primeiros a entrevistar Julian Assange na Embaixada do Equador em Londres e se tornou repórter de política em Canberra, a capital australiana. Lá, frustrou-se cada vez mais com as histórias sobre os altos índices de encarceramento e suicídio entre os indígenas da Austrália, além da falta de seriedade dos políticos.

“Eu achava que as pessoas mereciam algo melhor do que isso, e se os povos indígenas estavam depositando suas esperanças nesse tipo de liderança, precisariam de muita sorte”, afirmou Walubara. Ele começou a estudar uma maneira de como avançar com um tratado entre a Austrália e seus povos aborígenes. “Ele desistiu de uma carreira muito sólida”, afirmou Mark Davis, um ex-colega. Mas “ele é um homem com seus próprios princípios”, acrescentou.

Para Walubara, sua missão é simples: o Governo Soberano de Yidinji quer reconhecimento, mas se contenta com a Austrália conduzindo funções administrativas em seu território e representando seus interesses, contanto que os ministros de Yidinji tenham a palavra final em assuntos ambientais e na capacidade de financiamento de projetos em escolas - o que, segundo ele, proporcionaria melhores condições aos jovens aborígenes. Os ministros argumentam que, ao se tornar signatária da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, a Austrália já se comprometeu a permitir-lhes o autogoverno.

Anne Twomey, professora de direito constitucional da Universidade de Sydney, afirmou que é importante o fato de o pedido de reconhecimento ser por soberania política, não soberania legal. Um “grau limitado de controle político ou reconhecimento” pode ser possível, disse ela, caso o governo australiano opte por concedê-lo.

Alguns insistem que Walubara só quer chamar a atenção. Outros discordam. “Ele é um dos grandes anciães de sua terra”, afirmou Isaac Cassady, 19 anos, que tem ascendência Yidinji. Walubara continua convencido de que um tratado será assinado antes da sua morte. Ele afirmou que passou a reconhecer o fato de que não há atalhos no sentido da cura de feridas da história. “A via pacífica é a melhor via”, disse ele, “mesmo que seja a mais longa”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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