Matt Stirn via The New York Times
Matt Stirn via The New York Times

Na selva da Indonésia, a busca pela coexistência entre humanos e animais

Na ilha de Sumatra, um grupo dedicado de conservacionistas procura uma solução que beneficie ambos

Matt Stirn, New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2021 | 05h00

Assistimos em silêncio enquanto dois orangotangos, uma mãe e sua filha, se preparavam para uma tempestade invasiva. Enquanto o ar ficava mais denso, a mãe - a quem os guias locais chamaram de Minah - levou a filha em direção ao dossel e para um ninho que ela havia construído naquele dia. Então, recolhendo plantas e folhas, ela teceu um guarda-chuva e o segurou sobre sua filha.

Um trovão abalou o chão, assustando um par de calaus gigantes, que gritaram indignados. O chamado assustador dos gibões ecoou pelo dossel.

O Ecossistema Leuser, que engloba um parque nacional e uma reserva da biosfera na ilha indonésia de Sumatra, é o único lugar no mundo onde coexistem grandes símios, elefantes, rinocerontes e tigres. Seus 2,4 milhões de hectares de densa floresta tropical são o lar de 389 espécies de pássaros e 130 espécies de mamíferos, incluindo a maior população selvagem de orangotangos de Sumatra.

Embora já tenham prosperado em selvas saudáveis da Indonésia à China, os orangotangos selvagens, que estão entre os mais raros e inteligentes dos grandes símios, agora estão limitados às florestas tropicais de duas ilhas do sudeste asiático: Bornéu e Sumatra. Principalmente por causa da destruição do habitat – por conta da mineração, desmatamento e indústria do óleo de palma - suas populações diminuíram.

O orangotango de Bornéu foi declarado ameaçado de extinção de forma crítica em 2016; desde meados do século 20, sua população diminuiu em mais de 80%. Populações do orangotango de Sumatra e do orangotango Tapanuli, ambos criticamente ameaçados, também diminuíram. Em resposta, um grupo de cuidadores está tentando desvendar as complexidades da conservação em Sumatra, buscando uma solução que beneficie tanto sua vida selvagem quanto as pessoas.

Em 2017, agarrei uma oportunidade de viajar para Sumatra com a Photographers Without Borders, uma organização sem fins lucrativos que estava cobrindo a vida selvagem da ilha. Viajamos pela Sumatra do Norte sob a orientação do Orangutan Information Centre (O.I.C.), um grupo que visa resgatar orangotangos feridos e traficados, reabilitar florestas tropicais e ajudar a contornar o conflito entre humanos e animais através educação.

Panut Hadisiswoyo, que fundou o O.I.C. em 2001, disse que seu objetivo é dar aos orangotangos um lugar para prosperarem. Ele também espera que, através do desenvolvimento da comunidade, possa inspirar orgulho e consciência sobre os animais nas comunidades rurais. O epicentro dos esforços está no Ecossistema Leuser, cujas florestas tropicais fornecem meios de subsistência e água potável para mais de quatro milhões de pessoas - e cujas fronteiras são continuamente ameaçadas pelas plantações para extração de óleo de palma.

Com a ajuda de Nayla Azmi, uma indígena conservacionista de 32 anos, passamos vários dias caminhando pela floresta montanhosa para observar e fotografar famílias de orangotangos nos arredores de Bukit Lawang, uma pequena vila cuja economia impulsionada pelo ecoturismo fornece um estudo de caso sobre como empregos sustentáveis e preservação florestal podem coexistir.

O destino da conservação de Sumatra será amplamente determinado pelo que acontecer nos próximos anos. Enquanto a taxa de destruição da floresta continua a crescer, o trabalho dos ativistas traz lampejos de esperança.

Azmi disse: “Meu sonho é ver os povos indígenas recuperarem seu orgulho e começarem a liderar programas de conservação”. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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