Ulet Ifansasti/The New York Times
Ulet Ifansasti/The New York Times

Na Indonésia, estudantes sobem em árvores e viajam quilômetros por um sinal de celular

Educação remota é especialmente difícil para os mais pobres, que muitas vezes não têm acesso a smartphones e Internet

Richard C. Paddock e Dera Menra Sijibat, The New York Times - Life/Style

15 de setembro de 2020 | 05h00

Nos dias em que há aula, as três adolescentes pegam a moto e viajam até o lugar onde costumam estudar ao longo de uma estrada estreita nos arredores da aldeia indonésia de Kenalan, onde é possível encontrar um sinal de celular estável. Sentadas na beira da estrada, elas fazem suas lições nos smartphones e em um único laptop, enquanto carros e motocicletas passam velozes ao seu lado. É dessa maneira que as três meninas - duas irmãs e sua tia de 15 anos - estudam na ilha de Java desde março, quando a Indonésia fechou escolas e universidades para conter o coronavírus.

“Quando a escola ordenou que estudássemos em casa, fiquei confusa porque não temos sinal em casa”, disse uma das meninas, Siti Salma Putri Salsabila, 13.

Os sacrifícios dessas estudantes, e de outros como elas, simbolizam as dificuldades que milhões de crianças enfrentam em todo o arquipélago indonésio para estudar. As autoridades fecharam as escolas e implementaram o ensino remoto, mas a internet e o serviço de celulares é limitado e muitos alunos não têm smartphones e computadores.

No norte de Sumatra, as estudantes sobem até o topo das árvores a mais de quatro quilômetros de distância de sua aldeia nas montanhas. Encarapitadas nos galhos bem acima do solo, elas esperam um sinal de celular suficientemente forte para concluir as tarefas.

Em todo o globo, até mesmo em alguns dos países mais ricos do mundo, os educadores lutam para tornar viável o aprendizado a distância durante a pandemia. Mas nos países mais pobres, como a Indonésia, o desafio é particularmente árduo.

Mais de 33% dos estudantes indonésios têm acesso limitado ou mesmo não têm acesso à Internet, segundo o Ministério da Educação, e os especialistas temem que muitos estudantes acabem se prejudicando, especialmente nas áreas remotas onde o estudo on-line continua sendo uma novidade.

Os esforços da Indonésia na tentativa de frear o contágio do vírus conseguem resultados irregulares. Os testes são limitados, e especialistas independentes afirmam que o número real de casos é muito maior que os números oficiais.

Com o início do novo ano acadêmico em julho, as escolas nas zonas livres do vírus tiveram permissão para reabrir, mas elas só atendem a uma fração dos estudantes da nação. Em agosto, comunidades em áreas de baixo risco puderam decidir se reabririam as escolas, poucas o fizeram.

Alguns professores dedicados de áreas remotas percorrem longas distâncias para dar aulas presenciais a pequenos grupos de estudantes nas casas. E, desde abril, o rádio e as redes de televisão públicas do país transmitem programas educativos durante várias horas por dia.

Mas a  maioria dos alunos que estudam on-line usando celulares, em geral, compram pacotes que dão quantidades escassas de dados. Algumas famílias só têm um telefone e este é compartilhado por várias crianças, que frequentemente esperam a volta dos pais para baixar suas tarefas.

O ensino on-line é novo para muitos professores, principalmente nas regiões rurais. Os alunos muitas vezes se confundem com as lições, e os pais - que frequentemente só cursaram o primário - podem estar despreparados na maioria das vezes para acompanhá-los nas lições de casa.

“Os alunos não sabem o que fazer e os pais acham que estão apenas de férias”, disse Itje Chodidjajh, educador e professor do magistério em Jacarta, a capital da Indonésia. “Nós ainda temos muitas regiões sem acesso à Internet. Em algumas áreas, há até mesmo dificuldade para conseguir eletricidade”.

As dificuldades que os estudantes das zonas rurais enfrentam hoje contribuirão para aumentar a desigualdade na Indonésia, o quarto país mais populoso do mundo, disse Luhur Bima, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa Smeru, um centro de políticas públicas em Jacarta.

“Mesmo sem a pandemia, existe um enorme fosso entre a zona rural e a urbana,” ele disse. “Os estudantes já aprendem muito pouco em tempos normais. Com a chegada da pandemia, eles simplesmente pararam suas atividades escolares”.

O ministro da Educação, Nadiem Makarim, fundador da empresa de tecnologia Go-Jek antes de ingressar na política, lutou para equilibrar saúde e educação entre os estudantes. O fechamento das escolas poderá fazê-los retroceder em termos acadêmicos, e levá-los à solidão e à depressão.

“A questão é como estabelecer um equilíbrio entre os riscos para a saúde e a perda permanente de aprendizado em regiões da Indonésia que simplesmente não têm condições ou acham extremamente difícil implantar o aprendizado à distância”, ele acrescentou.

“O que está acontecendo nesse momento na Indonésia e em outros países não é apenas a perda do aprendizado”, afirmou. “O grau de estresse, solidão e tensão são sentidos pelos pais e pelos estudantes, sem falar nos professores. São questões graves”.

O ministério, disse Nadiem, simplificou os currículos, abandonou o exame nacional padrão a fim de usar fundos operacionais para pagar o acesso à internet dos alunos”.

Hoje, cerca de 13 milhões de pessoas em 12.500 aldeias remotas não têm acesso à Internet, explicou Setyanto Hantoro, diretor presidente da Telkomsel, a maior companhia de telecomunicações do país, que coopera com o governo para oferecer serviços em regiões muito distantes.

Entre as áreas em que a Telkomsel está trabalhando para levar o acesso estão Kenalan, onde as três meninas têm aula ao longo da estrada, e a aldeia de Bah Pasungsang, onde 20 estudantes por dia sobem em árvores para estudar. Mas estas iniciativas só estarão concluídas em 2022, segundo Setyanto.

Kenalan fica em uma região montanhosa a cerca de 24 quilômetros a noroeste da cidade e Yogyakarta, e próxima do maior templo budista do mundo, Borobudur.

A maioria dos aldeões são lavradores, que plantam milho e mandioca com a qual produzem o slondok, um lanche popular.

As três meninas, as irmãs Siti e Teara Noviyani, 19, e sua tia, Fitri Zahrotul Mufidah, são muito aplicadas. Mas estudar fora de casa é particularmente difícil, principalmente quando chove. Há alguns dias, Noviyani foi estudar com a sua classe apesar do chuvisco persistente.

“Com uma mão segurava o celular no Zoom e com a outra segurava o guarda-chuva”, contou. “O professor e minhas amigas viam os carros e as pessoas que passavam, que me cumprimentavam”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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