Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Na Indonésia, os jóqueis se aposentam aos dez anos

Prática é uma tradição local, que permite a famílias pobres ganhar 'dinheiro fácil'

Adam Dean, The New York Times

28 de agosto de 2019 | 06h00

BIMA, Indonésia - O menino montou o cavalo de pés descalços, usando apenas um capacete mal ajustado para proteger a cabeça e um talismã debaixo da roupa para lhe dar a coragem dos ancestrais.

A última coisa que o garoto, Firmansyash, 8, mais tarde lembrou da corrida foi ter sido "encaixotado" entre dois cavalos competidores. Ele não conseguiu segurar a crina do seu cavalo e caiu.

Firmansyah não lembra que  bateu a cabeça contra a cerca de madeira que delimitava a pista de corrida ou de cair sobre o ombro quando três cavalos do grupo que vinha atrás passaram com algazarra. Nem que foi apanhado por um policial que o levou a toda velocidade de motocicleta para uma clínica improvisada. Mas quando Firmansyah acordou na manhã seguinte, declarou sem convencer muito, que “se sentia forte” e estava “pronto para competir hoje”.

Horas mais tarde, ele estava de volta na linha de partida de outra corrida preliminar da Taça do Chefe de Polícia Regional de 2019. Na cidade de Bima, na ilha indonésia de Sumbawa, usar crianças jockeys, algumas com apenas 5 anos, nas corridas de cavalo profissionais faz parte de uma antiga tradição de muitas famílias.

“No final dos anos 90, os jockeys costumavam ter de 10 a 14 anos, mas então descobrimos que jockeys mais leves corriam mais, e agora eles têm de 6 a 10 anos”, disse Fahrir M. Noer, o vice-diretor da corrida.

Os defensores das crianças acreditam que a prática constitui um abuso e deveria ser abolida, mas as autoridades afirmam que a prática não infringe a lei indonésia sobre a exploração.

Apesar do apelo para que as corrida sejam proibidas, elas não dão sinal de parar, e a semana da competição em Bima é um destaque do calendário da cidade. Nos finais de semana, as tribunas  lotam de espectadores, e mais ainda nas finais, com fãs animados que torcem pelos seus favoritos e agitam os punhos cheios de rupias indonésias para as apostas.

A soma que os meninos do Sumbawan ganham em uma corrida pode ser significativa para uma família pobre. Para cada uma das mais de 300 corridas durante a semana, os proprietários de cavalos escolhem cerca de 30 jockeys e pagam a cada um de 50 mil a 100 mil rupias por corrida nas primeiras rodadas, ou US$ 3,50 a US$ 7. À medida que eles avançam para as finais, chegam a ganhar o dobro disso, com bônus de um milhão de rupias, ou US$ 70, em um país onde o salário mínimo mensal é apenas o dobro disso.

Os proprietários dos cavalos competem por sua parcela do prêmio de 482 milhões de rupias, ou cerca de US$ 34 mil. O prêmio máximo pela vitória na final de cada categoria é uma motocicleta, no valor de US$ 1.200. O segundo prêmio é uma vaca de US$ 500.

Um dos jockeys, Imam Dudu, estuda no primário, mas às vezes perde a aula para correr, contou o pai. A mãe de Imam, Tiara, 36, disse: “As corridas de cavalos são um dinheiro fácil para a família”.

Asikin Bin H. Mansr, 47, é um treinador de cavalos cujos dois filhos adultos, agora com 25 e 18 anos, já foram jockeys. O seu menor, Adi, de 7, competiu na Copa do Chefe de Polícia deste ano.

“Tenho medo que ele caia e se machuque, mas aqui na ilha é uma tradição e é também na minha família”, falou Asikin. “Se Alá quiser que ele se machuque, será o seu destino”.

Adi, que brinca com os amigos entre uma corrida e outra, disse: “Gosto de correr, não tenho medo”.

O pai de Adi pareceu satisfeito com o resultado do filho na semana, cerca de US$ 162.”É um dom de Alá”, afirmou Asikin.

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