Lisa Marie Pane/Associated Press
Lisa Marie Pane/Associated Press

Indústria de armas muda estratégia de marketing após queda das vendas

Setor de armas de fogo está indo além do marketing voltado ao público masculino, testando uma estratégia mais abrangente

Tiffany Hsu, The New York Times

07 de março de 2020 | 06h00

LAS VEGAS – Era como qualquer outra convenção na cidade famosa pelos enormes anúncios de neon e as máquinas caça-níqueis, salvo por toda aquelas armas. No Shot Show, a reunião anual da indústria de armas que se realiza em Las Vegas, eram distribuídos pen drives no formato de fuzis militares, enquanto os influenciadores posavam para selfies empunhando uma Glock.

Mas entre as prateleiras de pistolas montadas e de equipamento de caça muitas pessoas que trabalhavam para as 2,6 mil companhias presentes na mostra comentaram que a indústria deveria adotar uma estratégia de marketing mais branda, mais inclusiva, se quiser ampliar o seu mercado além do seu púbico alvo de homens brancos de certa idade.

A estratégia de marketing, agora revista, começa a dar resultados diante da redução das vendas e do aumento dos ataques a tiros. O de 2017, em que foram mortas 58 pessoas e centenas ficaram feridas, aconteceu aqui em Las Vegas, não muito longe de onde este ano foi realizado o Shot Show.

A Blackhawck, fabricante de acessórios para armas de fogo e equipamentos de proteção, era uma das companhias que decidiram abandonar a imagem máscula. “Agora, ela procura uma maneira de mudar a narrativa e não se concentrar tanto no aspecto tático ou agressivo do produto, mas assumindo um tom como: ‘Proteger-se é uma atitude responsável,’ ” disse Joshua Waldrom, diretor da companhia.

Um anúncio dos rifles Compact, da Thompson/Center Compass II em uma recente edição da revista Field & Stream” mostra um homem e um garoto em um bosque, um olhando para o outro. O rifle que o garoto traz a tiracolo não é o foco principal da imagem. Jeremy Flinn, cuja agência de marketing Stone Road Media trabalha para empresas de armas de fogo e acessórios como a Roam Rifles e a Thril, disse que o seu objetivo é “apresentar-se com uma imagem melhor para as pessoas”. E acrescentou que o seu “maior medo” seria “assustar a nova clientela”.

A indústria também tentou intensificar o seu apelo para mulheres, crianças e membros de grupos de minorias que trabalham com a colocação de produto com companhias como a fabricante de videogames Ubisoft. Estas táticas de vendas pareciam menos urgentes nos anos antes de Donald Trump, forte defensor das armas de fogo, chegar à presidência.

Depois da sua eleição, as vendas caíram porque os compradores deixaram de se preocupar em perder a possibilidade de comprar armas. Os ataques a tiros fizeram com que crescesse a indignação da sociedade contra a indústria. No ano passado, 60% por dos domicílios americanos ouvidos pela Gallup, disseram que não possuíam armas - o maior índice em 15 anos.

As principais agências de publicidade trabalham em geral com grupos que defendem o controle das armas e não com os fabricantes. Os comerciais de armas foram bloqueados na maioria das redes de TV, e também pelo Google, Pinterest, Twitter e outros sites. Muitas fabricantes promovem os seus produtos por meio dos influenciadores da mídia social com contas como 2alpha2quit e StyleMeTactical.

Mas no fim do ano passado o Facebook e o Instagram anunciaram que bloqueariam o conteúdo se anunciasse armas de fogo. Muitas fabricantes adotaram uma estratégia de fragmentação, e colocam os seus anúncios em fóruns de videogames, posts na plataforma digital Medium e ocasionalmente na exposição de celebridades carregando armas, como o astro da música Post Malone.

As revistas Garden & Gun, Hook and Barrel e outras do gênero mesclam artigos sobre armas com diários de viagem e cultura pop. Voltando-se para um público interessado em alimentação sustentável, a revista Recoil, sobre armas, produz anualmente uma publicação intitulada Carnivore.

Glen Castle, o diretor geral da Recoil, observou que a revista poderia atrair pessoas que não têm conhecimento de armas incluindo artigos sobre armas de fogo entre outros sobre ginástica e caminhões. “É como os Legos”, ele disse. “Caminhões, armas, caça. Tentamos um contato com eles, para conquistar um público novo.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.