Alfredo Chiarappa / The New York Times
Alfredo Chiarappa / The New York Times

Na Itália, problemas em siderúrgica explicam crise italiana

Possível fechamento de fábrica é símbolo dos males que afligem o país, como declínio da indústria, regulamentações sem fundamentos e política instável

Jason Horowitz, The New York Times

18 de janeiro de 2020 | 06h00

TARANTO, ITÁLIA – Em sua loja de esquina nas proximidades da maior siderúrgica da Europa, Giuseppe Musciacchio passou o indicador sobre a prateleira coberta por uma camada de poeira cinzenta. Lá fora, uma enorme coluna de fumaça destacava-se sobre um panorama de altos fornos e montes de minérios perigosos. Lufadas negras de emissões industriais navegavam no céu como nuvens de chuva. Nos “dias de vento”, o prefeito cancela as aulas com medo da poeira tóxica que sopra sobre a cidade.

“Limpo continuamente”, comentou Muschiacchio. Na parede, estão as fotografias da mãe e de outros familiares que morreram de câncer. “Eles morreram porque moravam aqui, respiravam este ar”, denunciou.

Apesar disso, enquanto o governo da Itália e a operadora estrangeira da fábrica, a gigante do aço ArcelorMittal, brigam a respeito do futuro da siderúrgica, Musciacchio espera que ela não seja fechada. “Seria um desastre econômico”, afirmou.

O fechamento da fábrica teria consequências para a estabilidade do governo italiano e para toda a economia do país. E isto tornou a briga em torno da siderúrgica um símbolo dos males que afligem a Itália – o declínio da indústria, as regulamentações aleatórias, uma política instável.

A siderúrgica – ainda conhecida por seu nome anterior, ILVA – é um complexo tentacular de 15 quilômetros de extensão. Esta é a maior fábrica da região meridional do país, economicamente deprimida. Se ela fechar, mais de 10.500 trabalhadores perderão o emprego, principalmente os jovens. A ILVA nasceu como empresa estatal na década de 60. No boom dos anos 70 e 80, eram inúmeros os italianos cujos empregos estavam relacionados à siderúrgica, a ponto de Rinaldo Melussi, o prefeito de Taranto, chamar a cidade de “Milão do Sul”.

Meio ambiente e saúde

Em 1995, a família Riva, uma produtora de aço italiana, adquiriu a fábrica. Mas grupos ambientalistas e promotores denunciaram os abusos para o ambiente e a saúde

Estes abusos levaram a Itália a embargar bilhões de euros em ativos da ILVA, e, em 2014, o governo assumiu a fábrica. Foi criado então um escudo legal para proteger seus novos operadores que tentavam despoluir as instalações. Por fim, o Governo decidiu procurar um comprador privado que recuperasse a fábrica. E encontrou a ArcelorMittal.

Em novembro de 2018, a companhia concordou em alugar o complexo por 45 milhões de euro (US$ 50 milhões) por trimestre. Isto deveria levar à sua aquisição por 1,8 bilhão de euros. A ArcelorMittal também se comprometeu a investir 2,4 bilhões de euros na sua modernização e na limpeza ambiental. E concordou em manter 10.700 empregos por cinco anos, ou pagar uma parte maior destes salários e pesadas multas por trabalhador demitido.

A disposição do governo a conceder-lhe imunidade na questão dos problemas ambientais estava no centro do acordo, explicou Paul Weigh, um porta-voz da ArcelorMittal. Mas o mercado global do aço caiu, as autoridades embargaram um cais do porto crucial para a importação de matérias-primas. Por isso, a fábrica produziu quatro milhões de toneladas de aço no ano passado, muito abaixo do volume necessário para conseguir lucrar.

Então, em abril, o governo, liderado pelo movimento populista Cinque Stelle (Cinco Estrelas), anunciou planos para acabar com o acordo de imunidade. A proteção expirou no dia 3 de novembro, e a companhia divulgou no dia seguinte que se retiraria da fábrica. O governo entrou com uma ação judicial.

“É uma loucura total”, disse Carlo Calenda, que orquestrou o acordo original em 2017 como ministro do Desenvolvimento Econômico. “Explicar o que está acontecendo na ILVA não poderia explicar melhor a crise italiana”.

No fim de dezembro, as duas partes concordaram com as condições de novas negociações, mas o destino do complexo permanece no limbo. “Todo mundo está apavorado”, disse Emanuele Palmisano, sindicalista local que trabalhou na fábrica por 21 anos.

Segundo Barbara Lezzi, parlamentar Cinque Stelle, a imunidade não fazia parte do acordo inicial e, por outro lado, a ArcelorMittal estava usando a sua retirada como álibi para sair.

Weigh, o porta-voz da ArcelorMittal, afirmou que a companhia havia “cumprido cada um dos compromissos no que concerne o plano ambiental, aprovado pelo governo italiano”.

'Não é outro Chernobyl'

Alguns moradores  declararam que estavam cansados das promessas do Cinque Stelle. “Eles nos fizeram de bobos”, afirmou Ignazio D’Andrea, de 58 anos. Ele lembra que acordava quando criança com o pó em seu rosto e no travesseiro. “Nós dormíamos com as janelas abertas, e não tínhamos noção disso”.

Segundo, o prefeito Melucci,  apesar das consequências negativas para a saúde, o complexo “não é outro Chernobyl”. Também afirmou que queria atrair outras indústrias na cidade. “Se eles resolverem o caso da ILVA, a Itália poderá se recuperar”, declarou. “Se fecharem, será o começo de um grande declínio para o país”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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