Kemal Jufri para The New York Times
Kemal Jufri para The New York Times

Indústria tumultua a vida da comunidade indígena da Indonésia

Desde 2000, cerca de 15% da cobertura de árvores da Indonésia desapareceu, eliminando o modo de vida dos Orang Rimba

Hannah Beech, The New York Times

20 de outubro de 2018 | 06h00

JAMBI, Indonésia - Quando as flores não puderam mais invocar os deuses, o curandeiro soube que chegara a hora de abandonar a floresta.

Curandeiro tradicional dos Orang Rimba, ou povo da floresta, aqui na ilha indonésia de Sumatra, Temenggung Tarip utilizou por muito tempo as flores da selva para conjurar os deuses para a sua comunidade indígena seminômade. Uma oferenda de pétalas coloridas trazia o deus elefante, ótimo para curar a dor de dente, ou o deus tigre, para as pessoas que se perderam no caminho.

Mas a indústria madeireira, da borracha, do papel e plantações de palmeira para a extração do óleo invadiram as florestas da Indonésia. Desde 2000, cerca de 15% da cobertura de árvores da nação desapareceu. Em Jambi, a província central de Sumatra onde vivem alguns milhares de Orang Rimba, a porcentagem de desmatamento é maior, 32%, segundo o Observatório Global das Florestas.

Com a terra profanada, as flores não realizam mais a sua mágica, afirmou Tarip.

“Nós não protegemos a floresta, por isso a floresta não protege a gente”, acrescentou.

Na década passada, a maior parte do povo da floresta de Jambi saiu da selva, expulso pelo desmatamento e por uma política oficial que prevê o reassentamento destas tribos de caçadores-coletores e lavradores.

Há cinco anos, uma decisão dos tribunais deveria proteger o direito dos povos indígenas de viver sem ser perturbados em seu habitat original, mas a agricultura em grande escala continuou invadindo o parque nacional que os Orang Rimba chamavam de seu lar.

No mês passado, o presidente Joko Widodo da Indonésia decretou a moratória do desenvolvimento de plantações de palmeiras para a extração de óleo de palma nos próximos três anos.

Agora, somente cerca de mil famílias Orang Rimba ainda vivem na floresta tropical. Particularmente destrutivas para o seu modo de vida foram as queimadas, usadas para limpar as florestas para as plantações. Uma fumaça asfixiante invadiu o território dos Orang Rimba. Os animais selvagens que constituíam o alimento básico de sua dieta, juntamente com o inhame silvestre, não conseguiram sobreviver nas plantações dedicadas à monocultura. A fome assolou os Orang Rimba.

Desde que deixou a floresta, há oito anos, Tarip se converteu ao islamismo, a religião dominante da Indonésia. Nas carteiras de identidade nacionais, uma necessidade para a vida fora da mata de todos os indonésios deve constar que o portador escolheu um dos seis credos religiosos. A adoração animista das flores não faz parte da lista.

Hoje, Tarip mora com a esposa, Putri Tija Sanggul, em Sarolangun, a uma caminhada de três dias da floresta que era o seu lar. A única lembrança da natureza em sua nova casa é um ramalhete de orquídeas que cai em cascata em uma das paredes. As fores são de plástico.

Os missionários tentaram facilitar a transição para o que os Orang Rimba chamam de “lá fora”. A floresta era fresca, a luz do sol mal penetrava através da densa folhagem, ao passo que o concreto retém o calor. Dormir no ambiente abafado e fechado da sua casa é algo ao qual Tarip ainda não se acostumou.

Para sobreviver aqui fora, Tarip plantou borracha e palmeira na terra da comunidade, que lhe pertence em razão do seu status de indígena, embora saiba que esta cultura é responsável pela destruição do seu antigo modo de vida.

Como líder de uma comunidade, que vive em uma casa de concreto com flores de plástico, Tarip foi saudado por um governador anterior de Jambi como um modelo para os Orang Rimba.

Entretanto, Tarip ainda respeita as tradições indígenas. Quatro de suas filhas e três dos seus filhos permanecem na selva, e ele sabe que visitá-los poderá comprometer a comunhão deles com a natureza. A lista de tabus dos orang rimba é longa e inclui, sabão, frango frito e certas vestimentas como o barrete muçulmano para as orações que Tarip usa agora. O perfume também é proibido.

“Os deuses não gostam de cheiros artificiais”, ele disse.

Mas a fé muçulmana é uma comodidade barata em algumas aldeias onde os orang rimba vivem agora. “Não sei por que sou muçulmano, mas eu sou”, afirmou Rokima, uma idosa  orang rimba que tem um único nome.

Uma imagem da Meca decora uma das paredes mas Rokima disse que não tem ideia do que significa a fotografia, doada por uma autoridade local.

“Eu tinha meus próprios deuses na floresta”, ela disse, “mas não posso voltar para a floresta porque a floresta não existe mais”.

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