Brian L. Frank para The New York Times
Brian L. Frank para The New York Times

Infecções do trato urinário mostram resistência a antibióticos

Medicamentos usados para tratar uma doença comum deixaram de funcionar

Matt Richtel, The New York Times

02 de agosto de 2019 | 06h00

Há gerações, as infecções do trato urinário, uma das doenças mais comuns do mundo, vêm sendo curadas simplesmente com antibióticos. Entretanto, crescem as evidências de que estas infecções, que anualmente afligem milhões de pessoas, são cada vez mais resistentes a tais remédios, tornando um diagnóstico, antes rotineiro, a razão de mais hospitalizações, de doenças mais graves e de desconforto prolongado, além da sensação dolorosa de queimação provocada pela infecção.

A preocupação do Departamento de Saúde de Nova York com as I.T.Us. (infecções do trato urinário) em pacientes resistentes a medicamentos é tanta, que, em julho,  adotou um novo aplicativo de celulares que permite aos médicos consultar uma lista de cepas e de remédios aos quais elas são resistentes. Sua pesquisa constatou que mais de 30% das ITUs mais simples causados por Escherichia coli - o tipo hoje mais comum - eram resistentes ao Bactrim, um dos remédios mais utilizados no caso, e que pelo menos 20% delas eram resistentes a cinco outros tratamentos comuns.

O remédio amplicilina foi abandonado como tratamento mais indicado porque várias cepas de ITUs são resistentes a ele. Algumas, hoje, exigem um tratamento com antibióticos endovenosos mais pesados. No ano passado, os pesquisadores  informaram que, na Grã-Bretanha, 33% de todas as ITUs são resistentes aos “antibióticos básicos”.

Carolina Barcelos, 38, uma pesquisadora de Berkeley, Califórnia, teve várias destas infecções na adolescência, todas tratadas com Bactrim. Na última, em fevereiro, o seu médico também prescreveu Bactrim, mas sem qualquer efeito. Quatro dias mais tarde, mudou a prescrição para nitrofurantoin, que tampouco funcionou. A dor piorou, e, dias mais tarde, apareceu sangue na urina. O médico prescreveu então um terceiro medicamento, ciprofloxacin,  o último dos três  medicamentos mais importantes como linha de frente,  e fez cultura da urina. A cultura mostrou que a sua infecção era suscetível à nova droga, mas não às outras duas. “Da próxima vez”, disse a dra. Barcelos, “ vou pedir que façam uma cultura imediatamente. Durante oito dias tomei antibióticos que não produziram nenhum efeito em mim”.

Em geral, as pessoas com o sistema imunológico debilitado são mais vulneráveis a infecções resistentes a determinados remédios. Mas as ITUs são o maior risco para pessoas saudáveis por causa de germes resistentes a medicamentos.

O uso excessivo de medicamentos no ser humano e no gado fez com que os germes desenvolvessem defesas para sobreviver, e que um número sempre maior de remédios se tornasse ineficiente no tratamento de uma ampla gama de doenças. Embora destaque que os dados referentes às ITUs e à resistência às drogas são “escassos”, a Organização Mundial da Saúde disse que o fato de as infecções serem tão comuns sugere que a sua resistência cada vez maior levará a doenças graves e à morte de pacientes.

Segundo os pesquisadores, a solução inclui um uso mais persistente e cauteloso dos antibióticos. Mas uma medida mais imediata será a criação de diagnósticos baratos que permitam a cultura instantânea da urina de modo que um médico possa prescrever o medicamento correto. É complicado esperar dias e dias para obter os resultados dos laboratórios antes de prescrever quando os pacientes estão desesperados por aliviar o sofrimento. Em geral, os médicos não  pedem uma cultura antes de prescrever.

“Antigamente, a lista das opções de antibióticos era reduzida, mas em geral todos funcionavam”, disse o dr. James Johnson, um importante pesquisador de ITUs da Universidade de Minnesota.

O que torna estas infecções comuns é a anatomia. Nas mulheres, a uretra está localizada perto do reto. Isto pode permitir uma fácil transferência das bactérias. Nos anos da reprodução, as mulheres são 50 vezes mais propensas do que os homens a terem uma ITU; posteriormente, a proporção cai a 2 para 1, porque os homens usam procedimentos que expõem o seu trato urinário à infecção.

Em geral, a causa mais comum das ITUs hoje é a E. coli, e estas infecções apresentaram um considerável aumento de sua resistência. Novas pesquisas mostram que um caminho crucial dos germes causadores das infecções são os alimentos, mais frequentemente as aves. A carne das aves acaba nos intestinos de uma pessoa e as bactérias são transferidas através do resíduo fecal para a uretra. Um estudo publicado no ano passado pela Sociedade Americana de Microbiologia constatou que 12 cepas de E. coli das aves se coadunavam com cepas de ITUs  de grande circulação.

Um dos seus autores, o dr. Lee Riley, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, pesquisa para determinar se a ITU deve ser classificada como uma doença gerada por alimentos.

A dra. Eva Raphael, uma médica de San Francisco, foi informada de que uma das suas pacientes, uma mulher saudável com cerca de 35 anos, estava no pronto socorro com uma ITU resistente a vários antibióticos. Uma das suas ITUs anteriores não reagira a dois tratamentos e chegara aos rins, exigindo que ela fosse hospitalizada para receber antibióticos por via endovenosa. Desta vez, a dra. Raphael consultou especialistas de moléstias infecciosas,

“Pode ser muito perigoso nesta idade, em que há uma resistência cada vez maior”, ela disse, observando que, sem um tratamento eficaz, a infecção pode ir para o sangue, e “ser fatal”./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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