Quando sua casa é um inferno hormonal
Jessica Grose, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2021 | 05h00

Tamara Tiska, 48 anos, é mãe solo de um filho de 13 anos, e os dois estão passando por transições hormonais: ela está na perimenopausa e ele, na puberdade. O ano de isolamento e covid em Watertown, Massachusetts, foi difícil para eles.

“Às vezes, eu não sei de quem é o humor que está controlando a casa, o do meu filho ou o meu”, disse ela, descrevendo como ela e seu filho às vezes “mergulham” em discussões sem sentido, como, por exemplo, se ele deve ou não fechar determinada janela. Como ela é mãe solo, “não tem ninguém para dizer: ‘vocês dois estão sendo irracionais’”, disse Tiska.

Quando escrevia sobre perimenopausa – os anos finais da vida reprodutiva da mulher, os quais levam ao fim de sua menstruação e ao turbilhão emocional e físico que isso pode criar para algumas mulheres – um tópico começou a aparecer repetidas vezes entre minhas fontes: como a perimenopausa é difícil para mães de adolescentes, cujos filhos estão passando por suas próprias mudanças emocionais e físicas. Mães e adolescentes podem estar experimentando, por exemplo, irritabilidade aumentada, crescimento de cabelo em novos lugares, suores inéditos e uma transição geral de identidade.

Esse choque entre perimenopausa e puberdade pode ser mais comum do que costumava ser, uma vez que a idade média das mães de primeira viagem era de 26 anos em 2016, contra 21 anos em 1972. E, nas principais cidades dos Estados Unidos, a idade das mulheres que são mães pela primeira vez tende a ficar acima dos 30 anos. A perimenopausa começa aos 47 anos, em média, então mais e mais mães estão entrando numa “profunda mudança de identidade” ao mesmo tempo que seus filhos, disse Lucy Hutner, psiquiatra reprodutiva em Nova York. Tive minhas duas filhas aos 30 e 34 anos e já estou preocupada com o lento desastre que vai assombrar todas nós em cinco a oito anos, quando eu estiver com 40 e poucos anos e minhas filhas forem adolescentes.

As mães e seus filhos adolescentes estão passando por experiências semelhantes, disse Lisa Damour, psicóloga clínica e autora de uma coluna sobre adolescência no The New York Times. “Todos se sentem atingidos por tempestades hormonais que parecem novas e fora de controle”, disse Damour. “Outro paralelo é que seu corpo começa a agir de maneiras que parecem estranhas e desconhecidas, e você é levada de carona. Isso é verdade para crianças púberes, que de repente estão gerando cabelos em lugares novos, e também para mães, que começam a acordar numa poça de suor”.

“Muitas vezes me pergunto se uma noite inteira de sono poderia ajudar todo mundo”, disse Tiska. “Acordo pelo menos uma vez por noite feito uma fornalha humana, e ele costuma ficar acordado até tarde e fica se arrastando, irritado nas manhãs de escola”.

Além de todo mundo tentar fechar os olhos, como as famílias podem sobreviver a essas “tempestades hormonais”? Aqui estão quatro dicas de especialistas.

Entenda que as variações de humor podem ser uma característica, não um defeito

Os adolescentes estão naquilo que Hutner descreveu como “uma posição ambivalente”: em termos de desenvolvimento, eles precisam afastar os pais para moldar suas próprias identidades, mas, ao mesmo tempo, eles veem os pais como um porto seguro emocional. Esse puxa-e-empurra vai durar um bom tempo e é completamente normal.

Para as mães, é mais difícil lidar com essa ambivalência quando suas emoções estão mais erráticas do que o normal. Mas só de saber que seus sentimentos têm uma fonte fisiológica, além do seu controle, já pode ajudar a lidar com a situação, disse Damour, “e obter alguma perspectiva sobre o problema”.

Lembre-se de que mesmo as emoções mais difíceis vão passar

Quando os adolescentes estão em crise, você precisa deixá-los sentir seus sentimentos até que eles façam a travessia para o outro lado. “Lembre-se de que as emoções são como ondas, não como fogo”, disse Damour. “Se as deixarmos seguir seu curso, elas sobem, aumentam e recuam. Não precisamos nos preocupar com a possibilidade de elas saírem de controle, nem precisamos tentar eliminá-las o mais rápido possível”.

Em seu site, ela tem um processo de nove etapas para gerenciar crises de adolescentes, que começa ouvindo sem interromper e envolve sentir empatia, validar sentimentos e oferecer ajuda na resolução de problemas.

Abra espaço para uma conexão

Em famílias ocupadas, muitas de nossas conversas são sobre logística (Você fez sua lição de casa? Está com fome? A roupa está limpa?). Por isso, às vezes nos esquecemos de abrir espaço para conversas sem tópicos específicos, disse Hutner. Esse espaço consistente pode assumir várias formas, dependendo do que funciona em sua casa: vocês podem fazer panquecas juntos todos os sábados de manhã, ou passear com o cachorro juntos, ou irem juntos até o treino de futebol. Não precisa ser mais do que 10 ou 15 minutos regularmente. “É incrível o que vai acontecer”, disse Hutner.

Cuide de você mesma

Se você está experimentando sintomas de perimenopausa, lidar com esses problemas pode ajudá-la a controlar os altos e baixos de seu filho com mais habilidade, disse Hutner. Por exemplo: aquela névoa no cérebro que ocorre quando seus pensamentos não estão muito claros e você tem dificuldade de lembrar as palavras é comum entre as mulheres que estão passando pela transição da menopausa. Então, falar com um médico sobre como lidar com a situação pode ser o primeiro passo. (O site da Sociedade Norte-Americana de Menopausa lista médicos qualificados em todo o país e no exterior).

Se você estiver bem, poderá encontrar um terreno comum e até mesmo empatia com seu filho adolescente, disse a Dra. Damour. Jessica Curtis, 51 anos, de Seattle, cujos filhos têm 19, 16 e 13 anos, disse que “aprender a me recolocar na lista de prioridades e ter reservas de energia suficientes” a ajudou a ter empatia e desfrutar de sua adolescência, mesmo neste difícil ano pandêmico. Ela disse que conseguiu deixar de lado as velhas expectativas e confiar mais no parceiro. “Tenho certeza de que teremos alguns anos difíceis pela frente”, disse ela, “e tenho esperança de que possamos nos amar nesse processo”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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