Augustín Marcarian/Reuters
Augustín Marcarian/Reuters

Influência de Kirchner sobre Alberto Fernández é dúvida na Argentina

País está envolvido em recessão profunda, com economia em contração e alta inflação

Daniel Politi e Ernesto Londoño, The New York Times

22 de agosto de 2019 | 06h00

BUENOS AIRES - Enquanto a Argentina registrava recentemente uma queda livre do mercado diante da perspectiva de o presidente Mauricio Macri perder as próximas eleições, a mentora intelectual da estratégia que poderá derrotá-lo permaneceu na maior parte longe dos holofotes.

O cargo que a ex-presidente Cristina Kirchner pleiteia na campanha para as eleições de outubro é o de vice-presidente. O candidato principal da sua chapa é Alberto Fernández, um político moderado de esquerda. Antes que Cristina o convidasse para fazer parte da dobradinha política, muitos eleitores pouco sabiam a respeito dos planos de Fernández. Agora, com o país mergulhado numa profunda recessão, ele poderá se tornar seu próximo líder.

A questão é saber se uma vitória de Fernández, 60, representaria um retorno de Cristina Kirchner e de sua linha populista - ou alguma outra coisa. Uma considerável venda de bens argentinos seguiu-se à forte votação de Fernández em uma eleição primária no dia 11 de agosto, sugerindo que os investidores poderão interpretar a sua candidatura como um jogo político de Cristina, 66, para retornar ao poder.

Cristina Kirchner, presidente por dois mandatos, e atualmente senadora, tem o maior índice de aprovação de qualquer político da oposição. Mas foi incriminada em 11 casos de corrupção, e muitos atribuem à sua política intervencionista o atoleiro financeiro herdado por Macri e que ele não encontrou nenhuma possibilidade de reverter.

“Ela reconheceu que provocaria demasiadas divisões se tentasse recapturar a presidência, e mostrou-se suficientemente inteligente para optar por um companheiro de chapa de fora do seu círculo extremamente ideológico”, disse Benjamin Gedan, o diretor do Projeto Argentina do Wilson Center. Com 48% dos votos nas primárias, Fernández rompeu o teto do apoio de Kirchner, enquanto Macri recebeu 32%.

É possível que os eleitores considerem Fernández uma versão mais moderada de Cristina. Talvez as suas medidas populistas tenham prejudicado o crescimento do setor privado e deixado um enorme déficit público, mas também permitiram que os serviços básicos se mantivessem acessíveis. Macri - eleito em 2015 depois dos governos consecutivos de Cristina e do marido e antecessor, Néstor Kirchner - adotou severas medidas de austeridade que empobreceram grande parte da população.

Quando Kirchner foi eleito presidente em 2003, convidou Fernández para o cargo de chefe de gabinete. A Argentina estava se recuperando de um colapso econômico e deixara de pagar dívidas por um total de US$ 100 bilhões. Coube a Fernández elaborar um plano de recuperação econômica construindo alianças políticas e aproveitando do boom das commodities.

Ele permaneceu no cargo quando Cristina sucedeu ao marido, em dezembro de 2007, mas ele durou apenas alguns meses. Depois de sua saída, tornou-se um dos mais acirrados críticos do governo. Os dois se reconciliaram após as eleições de metade de mandato de 2017, quando a coalizão de Macri obteve uma grande vitória. 

Isto levou Cristina a declarar que gostaria de desistir de candidatar-se novamente à presidência se isto favorecesse a união de sua base partidária peronista. Posteriormente, afirmou que Fernández a convencera a escrever um livro de memórias que se tornou um best-seller, como preparação para o seu retorno político. Cinco meses mais tarde, ela anunciou que concorreria à vice-presidência com ele à frente da chapa.

“Alberto é uma figura que tem sua própria influência - não é um boneco”, afirmou Jorge Taiana, que foi ministro do Exterior enquanto Fernández era chefe de gabinete. “É claro que Cristina decidiu assumir um papel secundário”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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